'A vida já tirou tudo o que eu tinha', disse Israel, meses antes de ser assassinado em Joinville - Segurança - A Notícia

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Violência05/02/2016 | 09h30

'A vida já tirou tudo o que eu tinha', disse Israel, meses antes de ser assassinado em Joinville

Morto e decapitado aos 16 anos, ele vivia sozinho desde 2014 e havia abandonado a escola há um ano

'A vida já tirou tudo o que eu tinha', disse Israel, meses antes de ser assassinado em Joinville divulgação/divulgação
Israel teria começado a se envolver com drogas aos 13 anos Foto: divulgação / divulgação

Em dezembro de 2015, Israel Melo Júnior, morto brutalmente na última terça-feira, foi questionado por um profissional com atuação social:

— Por que você não sai disso (do mundo das drogas)? Isto não é bom.

Segundo o relato deste profissional, que preferiu não ter o nome divulgado, o rapaz respondeu:

— Eu já sei de muita coisa. Eu me enfiei nisso e agora vou ter que arcar com as consequências.

 Para outra pessoa de convívio pessoal muito próximo, ele teria desabafado recentemente:

— A vida já tirou tudo o que eu tinha, só falta tirar a minha vida.

Os depoimentos revelam a completa ausência de perspectiva de alguém de apenas 16 anos e que não nasceu no mundo do crime e das drogas, foi apresentado a ele na adolescência. A partir dali, entrou em queda livre no período de menos de dois anos.

Nem a família, nem a escola, nem o poder público interromperam a trajetória sombria que o levaria a um fim de extrema crueldade. Após a morte, foi decepado e a cabeça, exibida como troféu em um vídeo divulgado nas redes sociais pelos criminosos.

A um dos profissionais que tentaram ajudá-lo no passado, Israel teria mencionado, no final de 2015, já ter tido contato com uma facção criminosa, sem dar detalhes. Não há dados oficiais ligando Israel a qualquer grupo organizado. A polícia investiga se, de fato, há algum envolvimento.

A ficha de Israel aponta que seu primeiro ato infracional ocorreu em 2014, por furto. Ele cumpriu uma medida socioeducativa de liberdade assistida, que consiste na assistência social e psicológica disponibilizada pelo Centro de Referência Especializado de Assistência Social (Creas).

Em fevereiro de 2015, foi internado provisoriamente por 45 dias por tráfico de drogas e estava em liberdade assistida. A sentença sairia em breve.

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Adolescente morto vivia longe da família

A reportagem entrou em contato com várias pessoas que conviveram com o adolescente Israel Melo Júnior. Algumas aceitaram falar sob a condição de não serem identificadas. As percepções convergem para um rapaz que foi perdendo, aos poucos, suas estruturas familiar e emocional.

Segundo o relato de uma pessoa de convívio próximo até 2014, os pais de Israel são separados e o pai o visitava uma vez por mês, quando perguntava:

— Você está bem?

Ele sempre respondia:

— Tá de boa.

Até 2014, ele morava com a mãe, o padrasto e o irmão mais novo. A mãe saía às 5 horas para trabalhar e retornava perto das 19 horas. O padrasto também trabalhava fora. Israel tinha adoração pelo irmão, gostava da mãe e a respeitava, tinha no avô materno um modelo de referência positiva, mas não se entendia com o padrasto.

Por volta dos 13 anos, começou a sair sem dar satisfação, depois passava a noite fora, e a família não conseguia controlá-lo. Na escola, era indisciplinado, sem traços de agressividade. Ele foi diagnosticado com hiperatividade, cujo tratamento era interrompido pelas dificuldades financeiras.

Por volta de agosto de 2014, o padrasto foi alertado no trabalho de que haveria gente com drogas no seu quintal. Foi quando o padrasto teria chamado a esposa e os pais dela para uma reunião de família e anunciou que não queria mais o garoto em casa. Uma quitinete teria sido alugada em outro bairro e Israel receberia a assistência da mãe neste novo local. A reportagem não conseguiu confirmar o endereço.

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Apesar de ter abandonado o estudo há mais de um ano, em dezembro de 2015, ele foi à escola onde esteve por quase quatro anos, conversou com antigos colegas, visitou a quadra de esportes e achou tudo mais bonito. O objetivo da visita era pegar um documento de transferência para uma escola mais perto de sua nova moradia. Nessa visita, Israel estava acompanhado de um profissional ligado ao poder público, que usava crachá, e de um amigo.

“Pais têm que dizer não”, diz promotor

O promotor da Infância e Juventude de Joinville, Sérgio Joestin, afirma que um conjunto de fatores leva os jovens às drogas, e o papel da família é fundamental.

— Desde pequeno, é preciso educar com rédea curta, dizer não. Muitos pais nos procuram quando o jovem já tem 14, 15 anos e querem que façamos algo. Só que nessa idade, o adolescente já tem consciência do certo e errado, mas faz coisas erradas e acha que é imune. Na maioria dos casos, falta pulso para os pais.

O promotor acrescentou que há casos em que, mesmo a família educando da forma certa, outros fatores levam a outro caminho. Segundo ele, os jovens hoje em dia estão sem perspectivas, querem aproveitar o momento, acham bonito ser bandido, e o promotor percebe este fenômeno em todos os lugares, não só em classes sociais menos favorecidas.

Indisciplinado na escola, o adolescente era líder entre os amigos

Em 2010, o primeiro ano na escola que seria sua última referência no ensino formal, Israel logo se destacou em desenho e atividades artísticas, e ficou orgulhoso só por sua sugestão de nome para campanha literária ter sido a vencedora. Sua ideia foi estampada nas mochilas que os alunos levavam para casa recheada de livros que destacavam valores importantes para serem lidos junto com os pais. Ele estava no quarto ano.

Juninho, como era chamado, nunca se envolveu em brigas na escola ou desrespeitou seus professores e a mãe na frente dos profissionais da escola, nas muitas vezes em que ela foi chamada devido aos problemas de indisciplina.  Quando pichou a parede, não reclamou da ordem para pintar tudo de novo.

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No sétimo ano, já não parava em sala de aula. O caso mais sério em que se envolveu foi ter soltado um rojão no banheiro, o que lhe gerou um boletim de ocorrência em junho de 2014, dois meses antes de abandonar os estudos. Mas a desistência não teve qualquer relação com o fato.

Para quem conviveu com ele na escola, o ano de 2014 foi considerado o mais crítico. Foi quando chegava cheirando a bebida ou a cigarro.  Nessa época, passou a receber auxílio do Grupo de Assistência ao Educando (Gati) e do Conselho Tutelar. 

– O jovem chegou a admitir que usava drogas. Ele recebeu ajuda da escola e do município, mas não tinha estrutura sólida fora daqui  — afirmou um dos profissionais que tiveram contato bem próximo com Israel.

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