Barricadas e confrontos se espalham em protestos dos 'coletes amarelos' na França - A Notícia

Versão mobile

 

Paris08/12/2018 | 17h47

Barricadas e confrontos se espalham em protestos dos 'coletes amarelos' na França

AFP
AFP

Os protestos dos "coletes amarelos" contra Emmanuel Macron reuniram cerca de 135 mil pessoas na França e levaram a confrontos entre manifestantes e policiais neste sábado (8) em Paris, com carros e barricadas incendiados, e repercutiu em várias cidades do interior, apesar de mais de mil prisões terem sido feitas em toda a França.

O ministro do Interior, Christophe Castaner, afirmou em entrevista que cerca de 125 mil pessoas se manifestaram em todo o país e pelo menos 1.385 foram presas, mas alertou que "este número vai aumentar".

Entre eles, 651 foram detidos em Paris, por carregarem máscaras, martelos ou paralelepípedos, segundo o secretário de Interior, Laurent Núñez, e 975 foram presos preventivamente.

"É um nível excepcional", destacou o ministro, que também deu um balanço de 118 feridos entre os manifestantes e 17 nas forças de segurança.

Em Paris, pela primeira vez na história da cidade, os veículos blindados da gendarmeria foram usados para apagar barricadas no quarto dia de manifestações dos "coletes amarelos", chamados assim pela veste florescente usada.

Foram vistas cenas de violência urbana similares às de uma semana atrás, mas com menor alcance.

Essa onda de manifestações começou em 17 de novembro em oposição a um aumento dos impostos sobre combustíveis. Esta semana, Macron cedeu a algumas das demandas dos manifestantes: anulou o aumento do imposto sobre combustíveis, parte de um plano para combater a mudança climática, e congelou os preços do gás e da energia elétrica nos próximos meses.

Estas medidas não foram suficientes para conter a ira de um movimento aparentemente sem estrutura ou lideranças, que expressa a exaustão da classe média com a perda de poder aquisitivo.

Na região da Champs-Élysées, os manifestantes tentaram incendiar a fachada de um centro comercial de luxo, queimaram carros e lançaram projéteis contra as forças de segurança.

A maioria das lojas estão fechadas e suas entradas e vitrines foram protegidas com painéis de madeira para evitar saques e quebra-quebra.

Denis, de 30 anos, chegou a Paris, procedente de Caen, que fica no noroeste do país. "O objetivo é ir até o Eliseu", disse ele à AFP. "Faço isso pelo futuro do meu filho. Não posso permitir que ele viva em um país em que outros se enriquecem às nossas custas", explicou.

Tim Viteau, desemprego de 29 anos, participou pelo terceiro sábado seguido das manifestações. Ele e sua namorada tiveram que voltar para a casa dos pais porque não conseguiram pagar o aluguel. "Como vamos ter filhos? Eu também quero ter filhos".

Os confrontos se estenderam a outros pontos turísticos ou central da capital francesa, apesar de uma manifestação de segurança imponente, com 8 mil policiais dos quase 90 mil mobilizados em todo o país.

A Torre Eiffel, o museu do Louvre e diversas lojas ficaram fechados - algo impensável para o mês do Natal.

- Confrontos no interior -

Embora a manhã tenha sido calma no resto do país, à tarde começaram enfrentamentos em algumas cidades.

Uma marcha de "coletes amarelos", que reuniu pacificamente milhares de pessoas nas ruas de Bordeaux (sudoeste), terminou em confusão no final do trajeto, quando manifestantes lançaram coquetéis molotov. Os agentes usaram várias vezes gás lacrimogêneo contra os elementos que incendiaram barricadas e lançaram pedras.

A violência também marcou os protestos em Lyon (leste), Saint-Etienne (centro), Marselha e Toulouse (sul).

Muitas rodovias foram bloqueadas em todos o país, e na fronteira franco-espanhola, os "coletes amarelos" montaram uma barricada seletiva que bloqueava a passagem dos caminhões procedentes da Espanha.

Muitos dos "coletes amarelos" protestam sem violência. Há uma semana, porém, os mais radicalizados - sobretudo, membros de grupos de extrema direita e de extrema esquerda - invadiram as manifestações e enfrentaram a polícia.

Hoje, alguns manifestantes lamentavam a depredação.

"Que destruam os bancos, as multinacionais, não me importa, mas os pequenos comércios... É algo totalmente estúpido", considerava Anthony, de 23. "É absurdo", disse sua namorada, irritada com aqueles que "vêm apenas para destruir" e desacreditam o movimento.

- Pedido de 'diálogo' -

O primeiro-ministro francês, Edouard Philippe, pediu para o movimento retomar o diálogo com o governo.

"O diálogo começou e deve continuar", disse Philippe em comunicado transmitido pela televisão. "Temos que tecer novamente a unidade nacional", acrescentou.

"O presidente falará e proporá medidas para nutrir o diálogo", disse ele. Com essas medidas, "espero permitir que toda a nação francesa se encontre e enfrente os desafios que já estão aqui e continuarão a surgir nos próximos anos", afirmou.

Philippe também expressou sua "admiração" pelas forças de ordem que "impuseram a lei a indivíduos que não vieram para expressar suas opiniões, mas frequentemente para confrontar, provocar e às vezes saquear".

"A vigilância e mobilização continuarão a ser necessárias porque, em Paris e em cidades do interior, ainda existem alguns desordeiros em ação e, portanto, é necessário se expressar com grande cautela", disse o ministro, pouco antes das 20h locais (16h de Brasília).

Milhares de pessoas também foram às ruas em muitas cidades francesas neste sábado para apoiar a luta contra a mudança climática. Os protestos se confundiram em vários lugares com a mobilização dos "coletes amarelos".

As manifestações de ambientalistas franceses também coincidiram, como em outros países, com a conferência climática da ONU COP24, aberta esta semana em Katowice (Polônia).

As marchas dos ambientalistas foram mais tranquilas.

* AFP

 
A Notícia
Busca