Sem Farc, Colômbia elege presidente dividida entre esquerda e direita - A Notícia

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Bogota27/05/2018 | 21h11

Sem Farc, Colômbia elege presidente dividida entre esquerda e direita

AFP
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O candidato da direita, Iván Duque, e o ex-guerrilheiro Gustavo Petro se enfrentarão no segundo turno para definir quem será o novo presidente da Colômbia, após a votação deste domingo (27), que mostrou um país dividido sobre um histórico acordo de paz com as Farc.

O senador Duque, afilhado político do ex-presidente Álvaro Uribe (2002-2010), venceu o primeiro turno com 39,11% dos votos, sem conseguir alcançar a metade mais um que evitaria o segundo turno, segundo a autoridade eleitoral.

Petro, ex-prefeito de Bogotá e ex-guerrilheiro da dissolvida guerrilha M-19, hoje partido político, obteve 25,10% dos votos e o direito de a esquerda disputar seu segundo turno em um país historicamente governado pela direita.

Nesta primeira eleição sem conflito com as Farc em meio século, Duque se destacou justamente pela promessa de modificar o pacto com aquele que foi o grupo rebelde mais poderoso da América Latina.

O segundo turno, que vai definir o sucessor de Juan Manuel Santos a partir de 7 de agosto, será celebrado em 17 de junho.

Apesar do bom desempenho (nunca antes da esquerda obteve quase 4,9 milhões de votos, quase o dobro de seu melhor resultado, em 2006), Petro terá que se esforçar muito para superar o rival.

Para o segundo turno, terá que enfrentar uma coalizão de forças conservadoras e de direita, que temem um governo de orientação chavista, contrário à propriedade privada.

"No segundo turno vai se evidenciar a polarização (...), mas não acho que haja alianças formais com Petro. Pode haver aproximações, mas não alianças", afirmou Andrés Macías, analista da universidade Externado de Colombia.

Se for eleito presidente, o ex-guerrilheiro terá um Congresso de maioria direitista.

Petro tirou da corrida presidencial o ex-governador de centro Sergio Fajardo (23,5% dos votos), o ex-vice-presidente direitista Germán Vargas Lleras (7,26%), e o chefe de negociações de paz do governo, Humberto de la Calle (2,6%).

Fajardo e De la Calle rejeitaram se aliar com Petro para enfrentar o candidato do Centro Democrático, fundado por Uribe, após as legislativas que evidenciaram a força da direita, contrária ao processo de paz.

Neste domingo, a abstenção se situou em 47%, em linha com os 50% históricos.

- Dois mundos -

Duque, de 41 anos, conquistou seus eleitores com um discurso conservador que defende a empresa privada e o corte de impostos e da burocracia.

Petro, de 58, promete profundas reformas econômicas, entre elas a taxação da terra improdutiva, despontavam como favoritos.

"Quero um país de legalidade, de luta frontal contra a corrupção, um país onde se respire segurança em todo território. Quero um país de empreendimento", afirmou Duque, ao votar em Bogotá.

Já Petro defendeu "um presente e um futuro" sem ódio nem vingança, que deixe para trás "o maquinário da corrupção".

O fim de meio século de conflito com os rebeldes marxistas pôs sobre a mesa preocupações como a corrupção, a desaceleração econômica, o serviço de saúde e o retorno do tráfico, que castiga as fronteiras com a Venezuela e o Equador.

O pacto com o agora partido Força Alternativa Revolucionária do Comum - que retirou seu candidato da corrida presidencial por problemas de saúde - operou, porém, como um divisor de águas.

"A Colômbia está polarizada desde antes das eleições. A polarização ficou evidente nas campanhas pelo 'sim' e pelo 'não' do plebiscito" pela paz, afirma Andrés Macías, pesquisador da Universidade Externado.

Embora os opositores do acordo tenham vencido por uma estreita margem, Santos levou adiante o pacto que desarmou, no ano passado, cerca de 7.000 combatentes. Ainda falta, contudo, implementar o sistema de justiça que garanta "verdade e reparação" a milhões de vítimas. Outra pendência envolve as reformas rurais, que poderiam evitar o reativamento do conflito.

Herdeiro político do ex-presidente Álvaro Uribe, Duque promete modificar o pacto de paz de 2016 para impedir que os rebeldes que já entregaram as armas e estão envolvidos em crimes atrozes possam atuar na política sem antes cumprir um mínimo de tempo na prisão.

Petro, que militou nos anos 1980 no extinto movimento M-19, pretende honrar os compromissos que garantem que os ex-líderes guerrilheiros recebam penas alternativas à prisão, se confessarem seus crimes, e indenizarem as centenas de milhares de vítimas de um conflito que também contou com a participação de paramilitares de ultradireita e de agentes do Estado.

Também disputaram as eleições o candidato independente de centro Sergio Fajardo e o ex-vice-presidente Germán Vargas, o ex-negociador de paz com as Farc Humberto de la Calle e o evangélico Jorge Trujillo.

Nenhum candidato reivindicou as bandeiras de Santos, que deixará o poder em agosto, após dois mandatos de quatro anos marcados pela baixa popularidade.

Em sua tentativa para selar uma paz completa, Santos também dialoga com o Exército de Libertação Nacional (ELN) - última guerrilha ativa que declarou uma trégua unilateral devido às eleições -, enquanto combate dissidentes das Farc e quadrilhas de narcotraficantes.

- Preocupação venezuelana -

Nesse contexto, o fluxo migratório resultante da crise na Venezuela ganhou espaço. Nos últimos dois anos, entraram no país 762.000 venezuelanos, dos quais 518.000 pretende se instalar no território.

Bogotá, que prevê aderir à aliança militar da Otan para desgosto de Caracas, que o considera uma ameaça, praticamente não tem relações com o governo reeleito de Nicolás Maduro.

Nessa briga, Petro ganhou força e conseguiu cerrar fileiras com seu discurso antissistema, a favor do meio ambiente, das minorias e de uma economia independente do petróleo.

Candidato do movimento Colômbia Humana, o ex-prefeito da capital resgatou a praça pública para a esquerda, realizando multitudinários comícios.

"Foi um prefeito (de Bogotá) que ajudou os pobres e os idosos", disse Gladys Cortés, uma empregada doméstica de 60 anos que votou em Petro após anos sem ir às urnas.

"Aqui, essas reformas são consideradas extremistas, porque vivemos em um feudalismo bastante manchado pelo narcotráfico", disse Petro à AFP.

Já Duque batalhou para não parecer um "fantoche" de Uribe, embora tenha a mesma agenda: investimento privado, Estado austero e valores familiares tradicionais. Também propõe "recuperar a economia, eliminando o desperdício", mediante uma reforma para reduzir o funcionalismo público.

"O que me estimula é manter a ordem no país", afirmou Paula Rubio, de 38, após votar no candidato de direita.

* AFP

 

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