Os goleiros contra as paradinhas - A Notícia

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04/07/2008 | 05h54

Os goleiros contra as paradinhas

Enquanto os atacantes estão aproveitando a paradinha na cobrança de pênalti, os goleiros protestam

Os goleiros contra as paradinhas Bruno Miani, Vipcomm /
Rogério Ceni: "Não pode haver uma interrupção no último movimento que o jogador faz na hora da cobrança. É como se o goleiro fosse fintado" Foto: Bruno Miani, Vipcomm
Os atacantes estão se deliciando com as glórias oriundas da paradinha na cobrança de pênalti. Viraram vinheta dos programas esportivos. Mas o que pensam os goleiros? Eles estão à beira da insurreição.

O argumento central é o seguinte: a paradinha seria o equivalente a um drible. Ou "finta", como prefere Rogério Ceni. E pênalti é tiro livre direto. Assim, mais do que solerte, a paradinha avançaria para o campo da ilegalidade, embora a Fifa a permita desde que não se configure conduta antidesportiva. Dançar a chula sobre a bola antes da cobrança, por exemplo: é conduta antidesportiva. O árbitro tem que mandar voltar.

— Não pode haver uma interrupção no último movimento que o jogador faz na hora da cobrança. É como se o goleiro fosse fintado — explica Ceni. — Pode diminuir a velocidade e parar antes de chegar na bola: neste caso, tudo bem. Mas não no último passo. Está havendo um excesso quando o batedor ameaça na hora do chute.

O goleiro mais goleador da história já foi caça e caçador nesta matéria. Contra o Juventus, no Paulistão deste ano, ele agiu como Roger no Gre-Nal: paradinha. Diante da lembrança, saiu-se bem:

— Minha cobrança deveria ter sido repetida.

Na revolução dos goleiros, Ceni seria o negociador. E Clemer, o radical incendiário. O goleiro do Inter, se pudesse, acabava com o pênalti quando não fosse lance notório de gol. Faltinha no canto da área, para Clemer, não deveria ser nada além de um lance para dois toques. E olhe lá.

— É tudo sempre a favor do batedor. O goleiro não tem direito a nada. Mal pode se mexer. Então é melhor dar o gol direto — desabafa Clemer.

Mas e a penalidade convertida por Clemer contra o Juventude na final do Gauchão? Clemer deu uma "cavadinha" supreendendo o colega de profissão Michel Alves.

— Não tem nada a ver. É totalmente diferente! - defende-se Clemer. — Eu corri para a bola e não parei.

Michel Alves, do Ju, também é batedor. Mas não usa a paradinha:

— Então mudem a regra e liberem o goleiro para se adiantar também. Eu não uso paradinha quando bato — adverte o goleiro.

A rebelião dos goleiros contra a paradinha ultrapassaria fronteiras, a julgar pela opinião do uruguaio Castillo, do Botafogo.

— Fica complicado para nós. O pênalti já é uma vantagem muito grande para o batedor — diz Castillo.

Mas uma voz se levanta a favor da paradinha. Victor, o número 1 do Grêmio:

— Para o goleiro é ruim, mas como a nosso favor tem dado certo não posso ser contra.

Didi, o inventor

Engana-se quem acredita que a paradinha é mais uma invenção de Pelé. O primeiro a segurar as passadas esperando a queda do goleiro foi Didi, campeão mundial em 1958.

— Quem inventou foi mesmo o Didi. Eu apenas copiei — admitiu Pelé esta semana.

A regra é clara

Comentarista e ex-árbitro da Fifa, Arnaldo César Coelho mandaria repetir as cobranças exageradas ocorridas na última rodada. Correr, parar e ainda chutar o chão antes de tocar na bola não pode. Assim, no domingo, Alex Mineiro (Palmeiras) e Alan Bahia (Atlético-PR) teriam de cobrar novamente. Roger estaria livre para comemorar.

— Movimentar o pé para trás e para frente não pode — disse Arnaldo.

Ronaldo x Cech

Sim. Na decisão inglesa por pênaltis da Liga dos Campeões, Cristiano Ronaldo, do Manchester United, parou antes de bater, mas Petr Cech, do Chelsea, não caiu para canto algum. Ficou estático. Ronaldo se atrapalhou e errou a cobrança, que teria entrado para a história não tivesse o Manchester vencido a disputa.

Roger justifica

— O goleiro precisa ter a tranqüilidade suficiente e parar no meio da cobrança. Se ele pára, diminui muito a chance de o atacante fazer o gol. É um jogo de nervos. Imagine como eu estava para bater o pênalti aos 40 minutos do segundo tempo, com mais de 40 mil pessoas no estádio, nosso time não jogando bem e perdendo. Acham que eu estava tranqüilo? E se eu paro e erro? O mundo cai em cima. É preciso muito sangue frio para fazer aquilo.
 
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