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Oslo05/10/2018 | 11h39

Nobel da Paz premia heróis da luta contra a violência sexual

AFP
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O ginecologista congolês Denis Mukwege e a ex-escrava sexual yazidi Nadia Murad são os vencedores do Prêmio Nobel da Paz de 2018 por seus "esforços para acabar com o uso da violência sexual como arma de guerra" nos conflitos.

Denis Mukwege, médico de 63 anos, e Nadia Murad, vítima de 25 anos do grupo extremista Estado Islâmico (EI), que se tornou porta-voz de uma causa, encarnam uma causa planetária que supera o âmbito dos conflitos, como evidencia o movimento #MeToo, iniciado há exatamente um ano por revelações da imprensa sobre casos de abuso sexual.

"Denis Mukwege e Nadia Murad arriscaram suas vidas, lutando corajosamente contra os crimes de guerra e pedindo justiça para as vítimas", afirmou a presidente do Comitê Nobel, Berit Reiss-Andersen.

- O homem que "conserta" mulheres -

Denis Mukwege já atendeu 50.000 vítimas de estupro no hospital de Panzi, que ele fundou em 1999 em Bukavu, leste da República Democrática do Congo (RDC).

"O homem que conserta mulheres" - título de um documentário sobre o seu trabalho - estava em uma cirurgia quando recebeu a notícia sobre o Nobel.

"Estava na sala de operações (...) de repente entraram algumas pessoas e me deram a notícia", disse Mukwege ao jornal norueguês VG.

O médico afirma que as violências sexuais são "armas de destruição em massa".

"Temos que traçar uma linha vermelha contra a arma química, biológica, nuclear. Hoje temos que traçar uma linha vermelha contra o estupro como arma de guerra" declarou à AFP em 2016.

A iraquiana Nadia Murad, da minoria yazidí, viveu na própria pele os horrores.

Como milhares de meninas e mulheres de sua comunidade, a jovem foi escrava sexual do EI em 2014, antes de conseguir fugir.

"A primeira coisa que fizeram foi nos forçar a uma conversão ao Islã. Depois fizeram o que queriam", afirmou Nadia à AFP em 2016.

Embaixadora da ONU para a dignidade das vítimas de tráfico humano desde 2016, Nadia Murad - que teve a mãe e seis irmãos assassinados pelo EI - milita para que as perseguições cometidas contra os yazidis sejam consideradas um genocídio.

"Você nunca se acostuma a contar sua história porque a revive a cada vez", escreveu no livro "Para que eu seja a última".

"Mas minha história, relatada honesta e prosaicamente, é a arma mais eficaz que tenho para lutar contra o terrorismo. E tenho a intenção de fazer isto até que os criminosos sejam julgados".

ONU celebrou o "anúncio fantástico, que ajudará a fazer avançar o combate contra a violência sexual como arma de guerra nos conflitos".

O presidente do Iraque, Barham Saleh, declarou que a atribuição do Nobel a Nadia Murad é "uma honra para todos os iraquianos que lutaram contra o terrorismo"

A chanceler alemã Angela Merkel elogiou "dois excelentes premiados que dão um grito de humanidade em meio a horrores inimagináveis".

A Alta Comissária da ONU para Direitos humanos, a chilena Michelle Bachelet, afirmou: "É difícil imaginar dois premiados mais dignos".

- Arma "barata e eficaz" -

Em todos os continentes, o estupro deixa centenas de milhares de vítimas nos conflitos ou nas campanhas de opressão das minorias.

Esta arma "barata e eficaz" destrói não apenas as mulheres fisicamente e psicologicamente, como também as estigmatiza, assim como as crianças que nascem destes atos, afirmou Denis Mukwege.

"As vítimas são condenadas pelo resto da vida. Mas e seus carrascos?" questiona.

Mas a tomada de consciência internacional está aumentando.

Aprovada em 2008 pelo Conselho de Segurança da ONU, a resolução 1820 estipula que a violência sexual "pode constituir um crime de guerra, um crime contra a humanidade ou um elemento constitutivo de crime de genocídio".

"#MeToo e os crimes de guerra não são a mesma coisa", afirmou Reiss-Andersen. "Mas possuem, no entanto, um ponto em comum: é importante ver o sofrimento das mulheres, ver os abusos e permitir que as mulheres renunciem à vergonha e tenham a coragem de falar".

A onda expansiva atingiu inclusive o Nobel, pois um escândalo de estupro levou a Academia Sueca a adiar por um ano o anúncio do vencedor do Nobel de Literatura 2018.

Denis Mukwege e Nadia Murad dividirão o prêmio, que consiste em um diploma, uma medalha de ouro e um cheque 9 milhões de coroas suecas (990.000 dólares). A entrega acontecerá em Oslo no dia 10 de dezembro.

* AFP

 

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