Jornalista saudita crítico com Riad é dado como desaparecido em Istambul - Mundo - A Notícia

Versão mobile

 

Istambul03/10/2018 | 17h54

Jornalista saudita crítico com Riad é dado como desaparecido em Istambul

AFP
AFP

Um jornalista saudita crítico com o poder em Riad foi dado como desaparecido por sua namorada, nesta quarta-feira (3), 24 horas após ter entrado no consulado de seu país em Istambul, onde ainda permanece, de acordo com o governo turco.

Redator de artigos de opinião para o Washington Post em particular, Jamal Khashoggi, de 59 anos, não foi visto desde que entrou no consulado na terça-feira por volta de 13h00 GMT (07h00 de Brasília).

"Segundo a informação que temos, o indivíduo em questão, que é saudita, está no consulado", declarou Ibrahim Kalin à imprensa.

Além disso, assinalou que o Ministério das Relações Exteriores e a polícia turcos "acompanham este caso" e que estão fazendo contato entre as autoridades do seu país e os funcionários sauditas.

O desaparecimento de Khashoggi foi denunciado nesta quarta mais cedo pelo editor-chefe da coluna de opinião do Washington Post, Eli López.

"Estamos monitorando a situação de perto, tentando coletar mais informação. Seria injusto e indignante se tiver sido detido por seu trabalho como jornalista e comentarista", disse em comunicado.

A namorada turca de Khashoggi acampava desde a manhã desta quarta diante do consulado saudita em Istambul para conseguir notícias suas.

"Não tenho notícias suas desde às 13h00 (07h00 de Brasília) de ontem, queremos saber onde ele está", declarou à AFP a sua namorada, Hatice A., que não quis dar o seu sobrenome.

"Queremos vê-lo sair são e salvo", acrescentou.

Um amigo de Khashoggi, Turan Kislakçi, diretor de uma associação turco-árabe de jornalistas, assinalou que entrou em contato com as autoridades turcas e que lhe afirmaram que estão "acompanhando o caso de perto".

"Estamos certos de que Jamal está detido no interior, a menos que o consulado tenha um túnel", afirmou à AFP.

- Silêncio das autoridades turcas -

Hatice A. solicitou ao ministro turco das Relações Exteriores que entre em contato com o embaixador saudita na Turquia para saber do destino de Khashoggi, um veterano jornalista, crítico há alguns meses do poder na Arábia Saudita, enquanto até pouco tempo era considerado próximo ao governo.

Segundo ela, Khashoggi havia se apresentado no consulado para realizar trâmites administrativos para o seu casamento, mas não saiu.

"Queria obter um documento saudita que certificasse que não é casado", explicou.

Ainda não obtiveram nenhuma reação sobre este desaparecimento por parte das autoridades turcas, ou do consulado e da embaixada da Arábia Saudita na Turquia.

Khashoggi havia se exilado nos Estados Unidos no ano passado por medo de uma possível detenção, após criticar algumas decisões do príncipe herdeiro Mohamed bin Salman e a intervenção militar de Riad no Iêmen.

O Departamento americano de Estado assinalou que está buscando mais informações sobre o seu destino.

Em seu artigo para o Washington Post em setembro de 2017, Khashoggi escreveu: "Quando falo de medo, intimidação, detenções e acusações públicas a intelectuais e líderes religiosos que ousam dar a sua opinião (...) e lhe digo que venho da Arábia Saudita, você está surpreso?".

- Modernização e repressão -

Naquele mesmo mês, Khashoggi anunciou que havia sido proibido colaborar com o jornal Al Hayat, propriedade do príncipe saudita Khaled bin Sultan al-Saud. Khashoggi admitiu ter defendido a Irmandade Muçulmana, o que parece não ter agradado seu empregador.

As autoridades sauditas descreveram essa irmandade como uma "organização terrorista", mas a Turquia é considerada uma de suas principais apoiadoras.

A hashtag "kidnappingjamalkhoshoggi" é uma das mais compartilhadas no Twitter em árabe desde terça-feira à noite.

A Arábia Saudita ocupa a 169ª posição entre 180 pontos no Índice Mundial de Liberdade de Imprensa da organização Repórteres Sem Fronteiras (RSF).

Riad promoveu uma campanha de modernização desde que o príncipe Mohamed bin Salman foi designado herdeiro do trono em 2017. No entanto, a repressão contra os dissidentes continua, e Khashoggi é uma das poucas vozes sauditas que se levantam contra o poder.

* AFP

 
A Notícia
Busca