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Paris11/06/2018 | 11h31

Em ruptura com seus aliados, Trump faz ordem mundial vacilar

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A ruptura dos Estados Unidos com seus aliados tradicionais do G7 abre caminho, no futuro, para uma ordem mundial dividida, na qual Donald Trump negociará com os antigos inimigos de Washington e onde a relação EUA-China deve estabelecer o compasso do mundo.

"Estamos assistindo ao desmonte americano da ordem mundial e das instituições cuidadosamente construídas após a Segunda Guerra Mundial?", questiona Fred Kempe do "think tank" americano Atlantic Council, referindo-se a uma ordem que estabelece equilíbrio entre blocos, coordenação internacional e alianças intangíveis.

Ao romper qualquer estrutura multilateral em nome dos interesses americanos, colocar em xeque o livre-comércio mundial, seguir uma política externa conflituosa (com a denúncia do acordo nuclear iraniano e a transferência da embaixada americana para Jerusalém, por exemplo) e insultar tanto aliados quanto inimigos históricos, Donald Trump bate forte na mesa para estar mais à vontade com o único que importa: Xi Jinping.

- Antiga ordem -

"Para Trump, existe apenas o G2: os EUA e a China. Na visão de Trump, a Europa deveria entender que a era da ordem econômica multilateral terminou", analisa o economista suíço Thomas Straubhaar, da Universidade de Hamburgo.

Se Washington e Pequim são adversários, o fato é que eles dividem a mesma desconfiança pelo multilateralismo.

Donald Trump "viu que a antiga ordem da globalização liberal se rompeu em 2008 (com a crise financeira). Ele acha que os Estados Unidos não são mais capazes de fornecer bens comuns ao mundo, tais como uma estrutura de comércio liberalizada e a segurança para seus aliados ocidentais. Ele vê os Estados Unidos comprometidos com uma série de relações bilaterais, onde o déficit comercial é o principal tema", analisa, em conversa com a AFP, o economista britânico Lorde Meghnad Desai, afiliado aos trabalhistas.

"Já a China não quer o multilateralismo tradicional", destaca o presidente da instituição francesa Asia Centre, Jean-François Di Meglio.

"Ela estabelece toda uma variedade de estruturas, como a Organização de Cooperação de Xangai, ou o banco asiático de investimento para as infraestruturas. Isso isso vai dar, sem dúvida, origem a uma outra forma de governança, à estrutura flutuante e assimétrica, segundo os temas e as partes envolvidas", explicou.

"A estratégia de 'America First' (América primeiro) de Trump e (o slogan) 'o sonho chinês' de Xi se baseiam na mesma ideia: que as duas superpotências têm total latitude para agir, segundo seu próprio interesses", analisa Brahma Chellaney, professor no Center for Policy Research de Nova Délhi, em um artigo de opinião publicado no final de maio.

Para ele, "a ordem mundial do G2 que eles estão criando mal merece ser chamada de ordem. É uma armadilha, onde os países serão forçados a escolher entre os Estados Unidos de Trump, imprevisíveis e adeptos da negociação bilateral, e uma China ambiciosa e predadora".

"A relação entre os Estados Unidos e a China moldará o século XXI", profetizava Barack Obama em 27 de julho de 2009.

Seu sucessor poderá tornar esse cenário realidade, mas de uma forma bem diferente daquela imaginada por Obama na época, quando o Ocidente unido esperava fazer a China aceitar suas regras do jogo.

- 'Armadilha de Tucídides'? -

Isso não significa que Washington e Pequim vão-se entender para dividir o mundo em detrimento de europeus desorientados. Além de ainda não terem dado sua última palavra, os europeus também divergem entre si.

Donald Trump parece pensar, porém, que se dará melhor cara a cara, liberado dos constrangimentos do multilateralismo. Está negociando a questão do déficit comercial com Pequim de maneira mais construtiva do que, por exemplo, com Canadá, país com o qual tem predominado a troca de acusações e insultos.

"Trump não se entende tão mal com a China e com a Rússia. Eles têm divergências, eles podem se entender sobre alguns pontos. O exemplo da ZTE é gritante: (Washington) fez a guerra comercial com a China e, ao mesmo tempo, passamos a um acordo imprevisível com a ZTE", analisou Di Meglio, referindo-se ao gigante chinês das telecomunicações posto para fora do mercado americano e, finalmente, autorizado a reintegrá-lo ao fim de uma espinhosa negociação.

Se a ordem Pós-Segunda Guerra Mundial tinha como ambição, sobretudo, evitar um novo conflito planetário, o imperativo da paz parece menos urgente nesse novo possível cenário. E alguns temem que o mundo caia na chamada "armadilha de Tucídides", conceito teorizado pelo americano Graham Allison, segundo o qual qualquer potência emergente entra inevitavelmente em conflito em um dado momento com a potência dominante.

Uma teoria rejeitada pelos chineses. "Não existe essa armadilha de Tucídides. Mas, se os grandes países cometerem repetidamente os mesmos erros estratégicos, eles podem cair em uma armadilha desse tipo", considerou Xi Jinping em setembro de 2015.

Para Di Meglio, os chineses estão "obcecados com não repetir os erros do passado. Eles veem a armadilha, vão tentar evitá-la, mesmo que tenham, em algum momento, razões objetivas para uma confrontação" por seus interesses estratégicos.

* AFP

 

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