A luta de uma paquistanesa esfaqueada 23 vezes para prender seu agressor - Mundo - A Notícia

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Lahore14/06/2018 | 16h21

A luta de uma paquistanesa esfaqueada 23 vezes para prender seu agressor

AFP
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A estudante Khadija Siddiqui é um símbolo dos direitos das mulheres no Paquistão por sua incansável luta para que seu agressor - que a esfaqueou 23 vezes - vá para a cadeia.

Em um dia de maio de 2016 esta estudante de Direito esperava sua irmã de seis anos sair da escola. Aguardava dentro do carro em uma rua muito movimentada, em um bairro abastado de Lahore, a segunda cidade mais importante do país.

"Um homem abriu a porta de repente e começou a me esfaquear", conta à AFP.

No total foram 23 facadas, no pescoço, nas costas e nos braços. "Fiquei totalmente coberta de sangue" lembra a jovem.

Sua irmã também foi esfaqueada uma vez, ao tentar defendê-la. O motorista do carro conseguiu afugentar o agressor. Khadija Siddiqui conseguiu escapar da morte, e depois de três semanas de cuidados saiu do hospital.

"Consegui identificar o criminoso" afirmou à AFP esta jovem de 23 anos, entrevistada na casa de seus pais. Segundo Khadira, era Shah Hussain, um colega de turma com quem havia tido um relacionamento.

O jovem foi declarado culpado e condenado a sete anos de prisão em julho de 2017.

Mas Hussain é filho de um conhecido advogado da cidade, que recorreu da sentença. Shah Hussain "é um estudante brilhante", explica o pai, Hashmi, à AFP. "Como pode ser um criminoso?".

Em 4 de junho, o Alto Tribunal de Lahore o absolveu. "Fiquei chocada, mas infelizmente era verdade", explica Khadija Siddiqui, que assegura que dois anos depois do ataque ainda sofre dores nas costas.

- "Bárbaro" -

A decisão provocou escândalo no Paquistão, onde milhares de mulheres ficam feridas ou morrem por violência de gênero a cada ano.

"Tenho o coração partido, não tenho palavras, devastada pelo que o nosso sistema judicial fez com Khadija", tuitou uma conhecida atriz paquistanesa, Urwa Hocane. "Não abandone, continue lutando".

"Temos que nos unir e ser a voz de Khadija, mobilizar-nos para que obtenha justiça ante este bárbaro", comentou o ator Hamza Ali Abbasi, também no Twitter.

A indignação cresceu após a publicação da sentença, que questiona o fato de que a vítima não nomeasse seu agressor imediatamente após os acontecimentos, apesar de que vários testemunhos indicam que estava inconsciente.

O Alto Tribunal também levou em conta o fato de que Khadija Siddiqui escreveu uma vez a Shah Hussain propondo que se casassem.

Ante a indignação, o Tribunal Supremo paquistanês decidiu se encarregar do caso, e anunciou que o examinará este verão.

Segundo Hina Jilani, advogada e defensora dos direitos humanos, o fato de que o Tribunal Supremo tenha decidido assumir o caso é um bom sinal, em um sistema judicial em que "existem preconceitos contra as mulheres".

- Violência "inextricável" -

A violência contra as mulheres é "onipresente e inextricável" da sociedade paquistanesa, denunciou a Comissão de Direitos Humanos paquistanesa em seu relatório de 2017. O documento detalha milhares de estupros, agressões, ataques com ácido e assassinatos.

Segundo a Fundação Aurat, uma organização de defesa dos direitos humanos, a cada ano ocorrem entre 8.000 e 8.500 casos de violência contra as mulheres. No campo, os tribunais populares conhecidos como "jirgas" com frequência acusam as vítimas.

Poucas vezes os casos chegam à justiça comum, e quando isso acontece "a porcentagem de condenações é menor que 1%", lamenta Rabeea Hadi, membro da Aurat.

Nos casos de violência doméstica ou de abusos sexuais, essa porcentagem é "próxima a zero", lamenta Anbreen Ajaib, diretora de Bedari, outro grupo de defesa das mulheres.

A estudante denuncia "obstáculos" para que se faça justiça, tentativas de "chantagem" ou inclusive ataques à sua reputação.

Khadija Siddiqui conta com o apoio total de sua família. Seu pai Ahmad quer "dar uma lição" aos que "desonram, ferem ou matam as mulheres no Paquistão". Seu caso encorajou outras mulheres, explica a jovem.

"Alguns promotores me disseram que provavelmente sou a primeira mulher que luta tanto para conseguir justiça", explica com orgulho. "Isso mostra que se as mulheres brigam, podem mudar as coisas. Não devemos desfalecer".

* AFP

 

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