Álvaro Uribe, de carrasco da guerrilha a grande eleitor da Colômbia - Mundo - A Notícia

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Bogota12/03/2018 | 17h09

Álvaro Uribe, de carrasco da guerrilha a grande eleitor da Colômbia

AFP
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Nem o tempo, nem as intrigas políticas e ainda menos o acordo de paz com seus inimigos o prejudicaram. O ex-presidente Álvaro Uribe está mais vivo do que nunca.

O ex-presidente não somente foi o senador mais votado nas eleições legislativas de domingo com mais de 820.000 votos, como também está perto de recuperar o poder para a direita com o seu candidato Iván Duque nas eleições presidenciais de 27 de maio.

"Continuamos com esse dever pela pátria, por nossa democracia, com a ajuda de Deus", afirmou, lacônico.

Seu partido, Centro Democrático, conseguiu o maior número de assentos no Senado e será a segunda força na Câmara de Representantes colombiana.

O homem que mais questiona a paz com as Farc, a ex-guerrilha que acusa de ter matado seu pai, nunca se resignou a perder o poder.

Controvertido, forte, mas sobretudo muito popular, Uribe teve que abandonar a Presidência em 2010, após uma decisão que frustrou o referendo que teria permitido disputar um terceiro mandato consecutivo.

Todas as pesquisas davam como certa seu reeleição. E nem sequer os escândalos de corrupção, vínculos com paramilitares ou espionagem, que ainda estão em seu círculo próximo, o ofuscaram.

Quando a justiça vetou sua reeleição, afirmou que serviria à "Colômbia de qualquer trincheira, sob qualquer circunstância e até o último dia da minha vida".

- Um Churchill? -

O dirigente de 65 anos, que se orgulha de não saber dançar, cantar e contar piadas e de ser viciado em trabalho, nunca pensou em se aposentar.

Uribe, que durante oito anos enfrentou sem clemência os grupos rebeldes e que realizou uma polêmica negociação que desarmou os paramilitares de ultra-direita, esteve por trás da eleição de Juan Manuel Santos em 2010.

Então, aconteceu o impensável. Santos decidiu negociar a paz com as já dissolvidas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), e para Uribe isso foi uma grande traição.

Em 2014, assumiu a oposição do Senado. Desde então tem recebido apoio pelo rechaço ao acordo que desarmou as Farc, e mais recentemente pela sua advertência de que a esquerda poderá transformar a Colômbia em uma Venezuela.

Mesmo que o acordo de paz tenha evitado a morte de quase 3.000 pessoas por ano, Uribe não aceita que os ex-chefes rebeldes participem da política sem antes terem estado na prisão.

Para o senador José Obdulio Gaviria, um dos homens mais próximos ao ex-presidente, Uribe "tem um espírito e uma combatividade de titãs" comparáveis com o do ex-primeiro-ministro britânico Winston Churchill.

"Para os colombianos, ele tem o mesmo caráter" porque "decidiu enfrentar o terrorismo; à frente, no primeiro posto de combate", destaca.

- Âmbito familiar -

Uribe é amado e odiado pelos colombianos, mas a maioria o apoia. Até os mais críticos enxergam neste homem baixo e com ar de seminarista um orador convincente e administrador obsessivo.

"Ele é um político muito inteligente, com a capacidade de interpretar o que o povo sente ou precisa, inclusive para dizer coisas que não são corretas e torná-las verdades", afirma o escritor Jorge Rojas, coautor de um livro que denuncia a suposta cumplicidade de Uribe com paramilitares.

O fantasma das alianças com esses grupos ilegais atingiu sua família. Santiago Uribe, pecuarista e irmão mais velho do ex-presidente, enfrenta na prisão um julgamento por supostos nexos com esquadrões paramilitares.

"Quando havia críticas contra seus familiares, ele assumia sua defesa pessoalmente, não esperava que ninguém o fizesse. Era muito duro com seus adversários", comentou à AFP um ex-funcionário da Presidência que trabalhou com Uribe vários anos, e que pediu a reserva.

O senador reeleito enfrenta várias investigações, inclusive uma por falsos testemunhos contra um adversário político.

- Sem esquecimento -

De origem liberal, formado em Direito, com estudos em Harvard, Uribe assumiu o poder com um discurso radical.

Em 2002, o conflito na Colômbia pegava fogo. Quatro décadas de confrontos haviam entrado em um período crítico pelo fracasso de uma tentativa de paz com as Farc, a ação paramilitar e o narcotráfico que financiava os dois lados.

Uribe, que sobreviveu a 15 atentados, chegou à Presidência em um inédito primeiro turno. No dia de sua posse, a ex-guerrilha atacou com foguetes a sede presidencial. A resposta foi contundente.

Os colombianos sentiram uma reconquista da segurança, mas o governo de Uribe começou a ser questionado por múltiplos assassinatos extrajudiciais cometidos por militares durante a luta contra-insurgente.

Em seus oito anos de mandato registraram-se 40% das oito milhões de vítimas do conflito.

Em 1983, seu pai foi assassinado durante uma tentativa de sequestro. Uribe culpou as Farc, embora a organização questione essa versão.

Até hoje o senador fala do episódio. "A impunidade não ajuda. Não há esquecimento".

* AFP

 

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