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Lima20/01/2018 | 13h59

Papa Francisco no Peru, berço da Teologia da Libertação

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Francisco, o papa argentino que tirou das sombras o promotor da Teologia da Libertação, o padre peruano Gustavo Gutiérrez, visita a terra onde surgiu essa corrente, cuja contribuição teológica para a Igreja Católica foi reconhecida pelo Vaticano.

Visto como um reformista dentro da complexa trama de tendências na cúria, o papa prega a pobreza e a humildade como suas principais bandeiras desde que foi escolhido como sucessor de Bento XVI há cinco anos, em março de 2013.

"O papa Francisco reúne as grandes linhas básicas da reflexão teológica latino-americana, pobreza e pecado estrutural", disse à AFP o teólogo jesuíta Ernesto Cavassa, reitor da Universidade peruana Antonio Ruíz de Montoya.

"Este Papa quer que a Igreja agrupe a visão dos pobres", afirma Cavassa, para quem Francisco sintetiza as maiores contribuições da igreja latino-americana à doutrina social da Igreja desde os sínodos de Medellín (1968) e Aparecida (1997).

Um pequeno livro de Gutiérrez publicado em 1971, "Teologia da Libertação", mexeu com a Igreja Católica ao assentar as bases desta corrente que nasceu na América Latina e logo se tornou uma "pedra no sapato" do Vaticano. A instituição a acusou de ser marxista pelas derivações nas interpretações dadas por outros sacerdotes, como o brasileiro Leonardo Boff, ou o nicaraguense Ernesto Cardenal.

O papa Francisco sempre foi crítico com esses teólogos pelas mesmas razões de seus antecessores.

Tendo como princípio básico a "preferência pelos pobres", essa teologia surgiu com o objetivo de renovar a mensagem central do catolicismo em uma das regiões com as maiores desigualdades do mundo.

"Na década de 1980, a situação era muito polêmica, porque havia posições muito fechadas e exageros de politização da Teologia da Libertação. Mas logo as coisas se centraram, os excessos foram evitados, e a maior prova de que a Igreja a aceita é que o Papa convidou Gustavo Gutiérrez para uma reunião em Roma", indicou à AFP o bispo peruano Luis Bambarén, resumindo décadas de tensões entre setores progressistas e conservadores da Igreja.

- O chamado de Francisco -

Em setembro de 2013, Francisco convidou Gutiérrez para um encontro privado em Roma. O gesto representou uma mudança. Era a primeira vez que um papa recebia o teólogo peruano desde que, na década de 1990, João Paulo II questionou as interpretações radicais feitas desta corrente, alegando que fomentavam a luta de classes.

O encontro com Gutiérrez marcou um sinal claro de que Roma dava por superados os confrontos que dividiram a igreja latino-americana entre partidários e adversários da Teologia da Libertação. Depois os dois se encontraram pelo menos mais duas vezes, segundo fontes eclesiásticas.

Com quase 90 anos, Gutiérrez segue ativo no âmbito acadêmico.

"Todo o retorno às fontes, ao frescor do Evangelho, renova o rosto da Igreja. Francisco faz isso com coragem e criatividade, por meio de palavras e gestos perfeitamente compreensíveis", disse Gutiérrez à AFP em uma entrevista em setembro de 2015.

A preferência pelos pobres em um primeiro momento entusiasmou Roma, durante o pontificado de Paulo VI, que nomeou bispos progressistas na região com o maior número de fiéis católicos. Formado no anticomunismo, João Paulo II a questionou, porém, alegando que poderia distanciar os fiéis das classes média e alta.

Uma das mudanças que propôs foi destacar que a Igreja optava pelos pobres, mas não que tinha uma "preferência pelos pobres", como pregava a Teologia da Libertação.

Os casos dos arcebispos de El Salvador, Oscar Romero, assassinado em 1980, e do brasileiro dom Hélder Câmara são referências obrigatórias dos representantes da Teologia da Libertação, que teve no Brasil sua maior base.

* AFP

 

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