Explode crise em diálogos com ELN após fim da trégua na Colômbia - Mundo - A Notícia

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Bogota10/01/2018 | 21h55

Explode crise em diálogos com ELN após fim da trégua na Colômbia

AFP
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O processo de paz com a guerrilha do Exército de Libertação Nacional (ELN) vive sua pior crise, após ataques da guerrilha na Colômbia, que deixaram em suspenso a retomada dos diálogos com o governo em Quito.

Em uma decisão surpreendente, o presidente Juan Manuel Santos pediu o retorno de seu principal representante nas negociações, Gustavo Bell, no dia seguinte ao fim do primeiro cessar-fogo bilateral, pactuado com o governo rebelde desde que o grupo pegou em armas, em 1964.

Vamos "avaliar o futuro do processo", disse Santos em mensagem à Nação, após culpar o ELN por "ações terroristas" esta madrugada, que afetaram o transporte de petróleo, causando a morte de um soldado e deixaram dois militares feridos no nordeste da Colômbia.

A estatal Ecopetrol informou que no total houve quatro ataques contra a infraestrutura petroleira nos departamentos (estados) de Boyacá, Casanare e Arauca.

A partir disso, Santos deixou em suspenso a abertura do quinto ciclo de diálogos de paz, no qual justamente se deveria negociar uma nova trégua.

Em Quito, o chefe das negociações do ELN, Pablo Beltrán, assegurou que os "incidentes" ocorreram "em meio à complexa situação do conflito".

"Mas apesar disso, não deve ser alterado o curso das conversações", ressaltou Beltrán, embora ele tenha admitido à AFP que o processo entrou em crise.

Mas "se (o governo) está interessado em que busquemos uma saída para este incidente, se há uma resposta positiva, a delegação (do ELN) permanecerá aqui", acrescentou.

É "impossível (...) escalar o conflito e pretender que dessa forma se dê o acordo", disse a jornalistas o vice-presidente colombiano, Oscar Naranjo, após participar de uma reunião sobre a Colômbia no Conselho de Segurança da ONU, em Nova York.

Deve haver de parte do ELN "expressões de vontade e fatos concretos", insistiu.

No entanto, Santos instruiu as Forças Armadas a "agir com contundência para responder a esta agressão" e acusou a organização de ter se negado a acordar uma nova trégua, o que desatou uma tensão jamais vista no processo iniciado em fevereiro de 2017 na capital equatoriana.

O analista Víctor de Currea-Lugo, especialista na ELN e autor do livro "Historias de Guerra para tiempos de paz" (Histórias de guerra para tempos de paz, em tradução livre), considerou que o ocorrido poderia levar à ruptura definitiva da mesa de diálogo.

"A decisão (das partes) era de não se levantar da mesa independentemente do que acontecesse, mas a gravidade de ter rompido o cessar-fogo desta maneira, e os atentados que acabam de acontecer, tornam irremediável" que estejamos diante da "maior crise", ressaltou em declarações à AFP.

Por enquanto, Santos e Bell analisarão a ofensiva insurgente e suas "implicações para o futuro da mesa de diálogo", insistiu o governo em um comunicado.

- Incerteza -

Após ter assinado um acordo que levou ao desarmamento e à transformação em partido político da guerrilha marxista das Farc, Santos empenhou-se em levar adiante um pacto similar com o ELN e, desta forma, extinguir o último conflito armado do continente que, em meio século, deixou oito milhões de vítimas.

No entanto, em quase um ano de difíceis conversações, apenas conseguiu que os insurgentes aceitem uma trégua, sem que ainda haja maiores avanços nos seis pontos em debate.

Durante o cessar-fogo, que esteve vigente de 1º de outubro à meia-noite de terça-feira, não houve confrontos entre militares e guerrilheiros, mas as partes se acusaram de descumprimentos mútuos, relacionados a outros compromissos.

Mas talvez o que mais jogue contra o processo é o tempo: em agosto Santos termina seu segundo e último mandato de quatro anos, com as pesquisas contra ele e uma disputa eleitoral que, mais uma vez, se divide entre os partidários e os críticos dos acordos com os insurgentes.

Os analistas coincidem, ainda, em que o ELN enfrenta uma divisão interna que dificulta ainda mais os diálogos.

"Acho que se impõe uma linha-dura dentro do ELN, ali há diferentes tendências, como em qualquer organização humana, mas neste caso os impasses não conseguiram ser superados" durante o cessar-fogo, avaliou De Currea-Lugo.

Na terça-feira, em entrevista à AFP, Beltrán havia feito um apelo à "calma" entre as partes.

"Chegamos a um estágio importante, que é desenvolver as conversas em meio ao cessar (fogo) bilateral. Vamos tentar com que isto se mantenha, enquanto isso esperamos que não haja uma escalada das ofensivas", ressaltou.

Mesmo enquanto as duas partes pretendiam seguir adiante com as negociações sem o ruído da guerra, o ELN e seus 2.000 combatentes já pareciam preparados para uma eventual arremetida oficial em departamentos (estados) como Chocó, na fronteira com o Panamá, segundo se depreende de uma mensagem do comandante Uriel, da Frente de Guerra Ocidental Ómar Gómez.

A crise ocorre às vésperas da visita de dois dias, a partir do sábado, do secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres.

A ONU acompanhou o processo com a outrora poderosa guerrilha e fez parte do mecanismo de verificação da trégua com o ELN.

Guterres se reunirá com Santos, com líderes das Farc e representantes da Igreja Católica em Bogotá. Ele também viajará ao departamento (estado) de Meta, região central da Colômbia, para visitar uma zona de reintegração de ex-combatentes das Farc, que depuseram as armas após a assinatura do histórico acordo de paz, em 2016.

* AFP

 

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