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Paris24/07/2017 | 11h34

Remissão de soropositivos sem tratamento intriga pesquisadores

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O caso revelado nesta segunda-feira (24) de uma garota sul-africana que nasceu soropositiva, mas que há quase nove anos vive com boa saúde e sem medicamentos, intriga os pesquisadores e pode dar pistas promissoras para o tratamento da aids.

Este é o terceiro caso no mundo de remissão sem tratamento observado em crianças, aponta o estudo, apresentado na Conferência Internacional de Pesquisa sobre a aids de Paris.

"Este novo caso reforça nossas esperanças de que, algum dia, se possa evitar que crianças com HIV tenham de tomar um remédio por toda sua vida", comentou o diretor do Instituto Americano de Alergias e Doenças Infecciosas (NIAID, na sigla em inglês), Anthony Fauci, responsável pelo estudo.

"Sempre é possível uma recaída, como em qualquer caso de remissão. Mas o fato de que essa remissão se mantenha durante um período tão longo sugere que possa ser duradoura", disse à AFP o doutor Avy Violari, da Universidade de Witwatersrand, na África do Sul, coautor do estudo.

A menina sul-africana nascida com HIV começou a receber um tratamento de antirretrovirais quando tinha dois meses de vida, o que impediu que desenvolvesse o vírus da aids. Após dez meses, e no âmbito do estudo, o tratamento foi suspenso. Naquele momento, o vírus havia sido reduzido a níveis indetectáveis.

Oito anos e nove meses depois, o vírus do HIV continua "adormecido" no organismo da menina, apesar de não tomar qualquer medicamento.

- Remissão, não cura -

Esse tipo de remissão, chamada "remissão funcional", é uma das principais pistas na pesquisa pela luta contra a aids.

Não se trata de uma cura, já que o HIV continua presente no organismo. O vírus está tão enfraquecido, porém, que não consegue se multiplicar, nem ser transmitido para outra pessoa, mesmo em um quadro sem tratamento.

Em geral, é preciso seguir um tratamento diário para se obter este resultado.

Por enquanto, erradicar o vírus do corpo do paciente é impossível. Os pesquisadores enfrentam a capacidade do vírus de se camuflar em algumas células para criar focos virais que se reativam, se o tratamento for suspenso.

Criados nos anos 1990, os medicamentos antirretrovirais revolucionaram a vida dos soropositivos, mas têm efeito colateral, como diarreia e náusea. Além disso, é um tratamento de custo elevado que deve ser seguido pelo resto da vida.

Por isso, os cientistas buscam sistemas de remissão que não impliquem um tratamento perene, fornecendo medicação quando a infecção se encontra na fase inicial e durante um período limitado.

"Tentamos entender o motivo pelo qual alguns pacientes chegam a controlar a infecção do HIV e como fazer para que todo o mundo consiga", explica o pesquisador Asier Sáez Cirión, do Instituto Pasteur de Paris.

O objetivo é "descobrir os fatores, principalmente genéticos, que favorecem esse controle, para induzir a esse tipo de medicamento para curar a aids, ou elaborar uma vacina".

- Dois precedentes -

As remissões são raras. O exemplo mais emblemático é o dos 14 adultos de um estudo francês chamado Visconti (acrônimo em inglês de "Virological and Immunological Studies in CONtrollers after Treatment Interruption").

Entre crianças, há dois precedentes. Em 2015, um estudo relatava o caso de uma francesa nascida soropositiva em 1996. Aos três meses de vida, recebeu antirretrovirais, e o tratamento foi interrompido quando completou seis anos.

Agora, com 20 anos, seus últimos controles foram em abril. O vírus continua latente 14 anos depois da interrupção do tratamento, relata Sáez Cirión, que supervisionou seu caso.

O primeiro exemplo desse tipo é o de uma menina americana, apelidada de "Mississippi baby", em remissão após receber tratamento até seus 18 meses. O vírus reapareceu após dois anos, desanimando os pesquisadores.

Diferentemente do caso da jovem francesa e o da "Mississippi baby", cujo tratamento foi interrompido sem controle médico, o da jovem sul-africana foi suspenso de forma deliberada para tentar compreender melhor o mecanismo de remissão.

Uma última categoria reúne pacientes raríssimos, que correspondem a menos de 1% dos casos. Trata-se dos "controladores naturais", que podem impedir o HIV de se desenvolver sem que a pessoa tenha algum dia recebido tratamento. Ainda não se sabe a razão.

* AFP

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