Igreja Católica: de opositora de Fidel a companheira de viagem de Raúl - Mundo - A Notícia

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Havana27/11/2016 | 14h20

Igreja Católica: de opositora de Fidel a companheira de viagem de Raúl

Após enfrentar Fidel Castro por décadas, a Igreja Católica conseguiu se estabelecer em Cuba como interlocutora do governo de Raúl Castro, mediadora na libertação de presos políticos e voz crítica das mudanças.

Deixando para trás períodos de duro enfrentamento na década de 1960 ou de difícil coexistência dos anos 1970 até o começo dos 1990, a Igreja começou a ampliar seu espaço com a visita do papa João Paulo II em 1998 hasta até sentar-se à mesa de negociações com Raúl em 2010.

Esse novo papel se consolidou em 2012 com a visita do papa Bento XVI e com a visita em 2015 do papa Francisco, artífice do degelo entre Washington e Havana.

Para saudar as visitas papais de 2012 e 2015, Raúl Castro indultou aproximadamente 6.500 presos -quase 3.000 para Bento XVI e 3.522 para Francisco, o maior número desde a revolução de 1959-, 10 vezes mais do que libertou Fidel um mês depois da visita de João Paulo II.

- Convergência -

O cardeal Jaime Ortega, líder da Igreja em Cuba há três décadas, abriu em 19 de maio de 2010 um inédito diálogo com Raúl Castro em um momento em que o governo comunista era alvo de críticas internacionais pelos choques com a oposição.

O diálogo aconteceu como resultado da libertação de vários presos políticos, entre eles 52 opositores do grupo dos 75 condenados em 2003, e o fim da perseguição contra suas esposas.

Tratava-se de "despolarizar uma situação saía perigosamente do controle, em meio a uma escalada de funestas consequências para todos os envolvidos: opositores, autoridades e sociedade", disse o acadêmico Armando Chaguaceda, da Universidade de Havana.

Raúl escolheu "a maior instituição independente" na ilha, segundo Yolanda Prieto, professora universitária em Nova Jersey (Estados Unidos).

Além disso, trata-se de um organismo "com credibilidade" fora e dentro de Cuba, segundo Lenier González, ex-integrante de uma revista católica e atual editor da plataforma independente Cuba Posible.

Depois de seu irmão Fidel o passou o comando da ilha em 2006 ao ficar doente, Raúl tentou garantir "a unidade da nação". A Igreja se identifica como facilitadora da reconciliação entre os cubanos.

Nos anos 1960, a Igreja demonizou o comunismo e Fidel Castro expulsou mais de uma centena de sacerdotes e nacionalizou algumas de suas propriedades, mas agora o governo e a hierarquia católica caminham no sentido do apoio mútuo, não isentos das críticas de dissidentes.

- Com a Virgem da Caridade -

A Igreja apoiou as reformas econômicas de Raúl e pediu aos fiés que fizessem o mesmo, enquanto o governo aumentou o espaço pastoral e contribuiu para a abertura do primeiro seminário na ilha em meio século e com um ativo centro cultural católico.

O governo também autorizou a peregrinação durante um ano e meio da imagem da Nossa Senhora da Caridade toda a ilha, que em quase 30.000 quilômetros percorridos foi venerada por cerca de cinco milhões de cubanos. A missa campal final em Havana foi assistida por vários dirigentes do governo.

Tudo isso foi para "garantir a liberdade religiosa", segundo o cardeal, assim como uma missão de atrair fiéis em um país cujo Estado foi "ateu" da década de 1960 ao início da década de 1990.

Não foi uma tarefa fácil, em uma nação onde apenas 15% de seus 11,1 milhões de habitantes têm religião definida, enquanto 15% se diz ateu e 70% pratica o sincretismo religioso -mistura de cristianismo e cultos de origem africana.

"Se faz necessário continuar eliminando qualquer prejuízo que impeça fraternizar, na virtude e na defesa de nossa Revolução, todas e todos os cubanos, religiosos ou não, que façam parte das igrejas cristãs, entre as quais se inclui a católica", disse Raúl no VI Congresso do Partido Comunista em abril de 2011.

- Bem-vindo -

Essa postura foi elogiada pelo Vaticano, que ratificou Ortega como arcebispo de Havana após apresentar sua renúncia ao cumprir 75 anos, em 18 de outubro de 2011. No entanto, levantou críticas na oposição e nos exilados, que acusaram o cardeal de colaborar com o governo.

O prestígio da Igreja aumentou depois que se soube que o papa Francisco foi quem incentivou que Estados Unidos e Cuba iniciassem um histórico processo de aproximação em 2014, após meio século de rivalidade.

Esse papel-chave do papa argentino contribuiu para que milhares de cubanos saíssem às ruas para lhe dar as boas-vindas em setembro de 2015.

* AFP

 
 

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