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Havana30/11/2016 | 09h51

Fidel parte deixando Cuba mais próxima do inimigo EUA

Fidel Castro se distanciou tanto quanto podia do odiado "império", mas no momento de sua morte havia um cruzeiro turístico, aviões comerciais, um hotel construído, uma onda de visitantes e até uma bandeira oficial dos Estados Unidos hasteada na ilha.

Fidel morreu em um momento de histórica aproximação entre os velhos inimigos da Guerra Fria. Um paradoxo na vida de um homem que transformou os Estados Unidos em sua obsessão pessoal.

Em 1958, em plena campanha guerrilheira, o ex-presidente prometeu em uma carta a Celia Sánchez, seu braço direito, que "faria pagar bem caro os americanos" por seu apoio ao ditador Fulgencio Bastista, que ele derrubou menos de um ano depois.

Jurou então que guerrearia contra esse país: "Eu me dou conta de que esse vai ser meu destino verdadeiro".

Quando completou 90 anos, em 13 de agosto, escreveu um artigo em que evocou os "planos maquiavélicos" dos Estados Unidos para eliminá-lo.

Segundo a inteligência cubana, escapou de 634 complôs contra sua vida.

"A julgar por sua declarações, Fidel não estava totalmente convencido de que a aproximação entre Cuba e Estados Unidos fosse uma boa ideia", comentou à AFP Jorge Duany, diretor do Instituto de Pesquisas Cubanas da Universidade da Flórida.

Antes de seu aniversário, já havia cutucado Barack Obama: "Não precisamos que o império nos presenteie com nada", a propósito da histórica visita que realizou, em março, o presidente dos Estados Unidos à Havana.

- "Um pouco incômodo" -

Fidel montou um regime comunista debaixo do nariz dos Estados Unidos (a menos de 200 km de Miami), e que sobreviveu à queda da União Soviética no início dos anos 1990.

Uma doença o obrigou a ceder o poder ao irmão Raúl em 2006. Sem se afastar do socialismo, o novo presidente flexibilizou o modelo econômico de viés soviético e conseguiu o que era impossível na era Fidel: reconciliar-se com Washington.

Em um regime tão fechado quanto o dos irmãos Castro, as discrepâncias, se houve alguma, não transparecem. Diante do mundo, Raúl e Fidel eram uma só pessoa.

"Mas também não é segredo que Fidel não ficou muito entusiasmado com as mudanças de política promovidas por seu irmão. Estava um pouco incomodado", assinala Michael Shifter, presidente do centro de análises Diálogo Inter-americano.

- Trump à vista -

Em seus últimos meses, o pai da revolução assistiu, retirado em sua casa em Havana, o esplendor da presença americana na ilha.

Em agosto de 2015, a bandeira americana ondeou de novo na ilha, depois da reabertura da embaixada.

A mesma coisa aconteceu com a bandeira cubana em Washington.

Este ano voltaram à ilha os cruzeiros turísticos e os voos comerciais vindos dos Estados Unidos; a cadeia Sheraton abriu seu primeiro hotel e ainda se sente a repercussão da visita de Obama passeando sorridente pela capital.

Uma verdadeira onda de americanos chega à "ilha proibida" aproveitando a flexibilização das restrições do embargo dispostas por Obama.

De janeiro a julho, 136.903 americanos visitaram Cuba, um aumento de 80% em relação ao mesmo período de 2015.

"A morte de Fidel coincidiu com a aproximação diplomática e comercial entre Cuba e Estados Unidos depois de mais de cinco décadas de isolamento e confronto. Durante todo este tempo, Fidel pareceu se opor a uma normalização das relações e manteve suas suspeitas ante as intenções de Washington", comenta Duany.

Mesmo assim, o ex-presidente cubano não verá a chegada de Donald Trump à Casa Branca. O presidente americano eleito não poderá dar vazão a suas suspeitas.

Trump, que chamou Fidel de "ditador brutal" no dia seguinte a sua morte, já ameaçou acabar com o acordo de Obama se Raúl Castro não respeitar suas aspirações em termos de econômicos e de direitos humanos. "A forte retórica anticastrista do presidente eleito poderá ser um obstáculo ao avanço das relações entre os dois países", segundo Duany.

Fidel Castro talvez tivesse adorado enfrentar um inimigo assim.

vel/ml/spc/cn

 
 

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