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Órfãos do Brasil02/09/2018 | 21h49

Irmãos separados por traficantes de crianças se reencontram após 33 anos

Maggi Cohen cresceu em Israel, enquanto a mãe morreu no Brasil, procurando pela filha perdida.

Irmãos separados por traficantes de crianças se reencontram após 33 anos Kiria Meurer/NSC TV
ONG de São Paulo ajudou os irmãos a se conhecerem pessoalmente Foto: Kiria Meurer / NSC TV
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Foram necessários 33 anos para que Gustavo Oleari e Maggi Cohen pudessem acabar com a distância de 11 mil quilômetros que os separaram a vida toda. Os irmãos fazem parte de uma das muitas famílias vítimas de uma quadrilha de tráfico de pessoas que, nos anos 1980, levou milhares de crianças para fora do país, para serem adotadas de forma ilegal por famílias estrangeiras.

O encontro dos irmãos ocorreu no dia 25 de agosto, em Garuva, no norte de Santa Catarina. A história foi contada pela repórter Kiria Meurer, no Fantástico deste domingo (2). Os dois se reencontraram depois que Maggi decidiu procurar pela família dela no Brasil, após ver um documentário em Israel, onde mora, sobre o caso do tráfico de crianças.

— Fiquei muito impressionada, não acreditei que se tratava de uma organização criminosa, uma máfia. Parecia coisa de filme — conta.

O escândalo do tráfico de crianças em Santa Catarina naquela década colocou pressão sobre o Congresso Nacional, que aprovou leis para endurecer a adoção em todo o Brasil, sobretudo para famílias residentes em outros países.As investigações da época apontaram indícios de que entre 2,5 mil e 3 mil crianças tenham sido levadas para outros países. 

Elas eram retiradas das mães, na maioria pessoas pobres e com poucos recursos para criá-las. Em alguns casos, as mães concordavam, mas na maioria as crianças sumiam pouco depois do parto. A maior parte foi levada para Israel.

A história de Maggi teve enredo parecido. Segundo Gustavo, a mãe era empregada doméstica, sem emprego fixo, e considerou a possibilidade de doar a filha ao nascer. Contudo, ela se arrependeu, mas a menina foi retirada do convívio da mãe ainda no hospital.

 — Assim que a Maggi nasceu, minha mãe foi para um quarto, ela pro outro. Apareceu um homem dizendo que era o pai e simplesmente sumiu com a criança — lembra Gustavo.De acordo com ele, a mãe, Denise Santos Oleari, passou a vida toda procurando pela filha, só que nunca mais teve notícias dela. Há cerca de 10 anos, ela morreu com a dor de não reencontrar a menina.

Maggi encontrou o irmão com a ajuda de uma ONG de São Paulo, que trabalha para ajudar famílias a encontrar pessoas desaparecidas. Apesar de ter sido levada a Israel com uma certidão de nascimento falsa, o nome de Denise constava em um registro da maternidade. Com isso, foi mais fácil achar Gustavo e o restante da família em Santa Catarina.

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Foto mostra a chegada de Maggi ao Aeroporto de Tel Aviv, nos anos 1980Foto: Arquivo Pessoal / Divulgação

Família de Israel não sabia

A mãe adotiva de Maggi contou que a menina chegou à Israel com menos de um mês de vida. Segundo ela, a mulher que levou a criança não disseram que a mãe era contra a adoção. 

— Quem faz algo assim? Pegar uma criança de uma família sem permissão, sem nada? Para nós, ela contou outra coisa, que a mãe abriu mão dela, que assinou um documento diante do tribunal e que tudo era legal —disse.

A família israelense afirma que quem levou a criança para lá foi a enfermeira  Arlete Hilu. A profissional foi uma das pessoas presas em decorrência do escândalo. Ela cumpriu dois anos de cadeia.Em 2012, o Diário Catarinense reencontrou Arlete, que disse desconhecer o esquema de adoções ilegais. 

—  Não, nem sabia disso, nunca tinha ouvido falar, fui saber quem estava fazendo dentro do Juizado de Menores. Comecei querendo ajudar as mães — afirmou a enfermeira, que disse ter sido condenada sem provas.

Apesar de reconhecer o crime, ela disse que não se arrepende e acredita que, de fato, a maioria das crianças. 

— Eles têm todo o direito de saber da família deles. Mas uma coisa é certa, muitas mães que deram essas crianças não existem mais. Muitas morreram porque a vida dessas mulheres era precária, tinham um filho atrás do outro, as próprias mães não queriam saber deles. Eles têm de tudo lá. 

O que essa gente quer da vida? A vida que eles têm de reis e príncipes, o que eles seriam aqui? Marginais — afirma.A reportagem que traz o relato de Arlete fez parte de uma série de reportagens intitulada "Órfãos do Brasil",que relembrou o escândalo. Na época, o Diário Catarinense ajudou algumas famílias a se reencontrarem. 

Família que cresce

Com a chegada de Maggi, a família toda volta a se sentir completa. Enquanto a tia reconhece os traços da irmã na sobrinha que acaba de conhecer, a nova integrante faz planos.

— Agora eu quero abraçar todo mundo e amar todos vocês! Quero viver como se a nossa família nunca tivesse sido separada — diz Maggi.

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