Do clássico ao rock, Pianíssimo de Joinville prova que piano é para todos os gostos e idades  - Geral - A Notícia

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Cultura22/09/2018 | 08h00Atualizada em 22/09/2018 | 08h00

Do clássico ao rock, Pianíssimo de Joinville prova que piano é para todos os gostos e idades 

Evento ocorre até domingo em Joinville com programação gratuita, intensa e com oportunidade para novatos também tocarem

Do clássico ao rock, Pianíssimo de Joinville prova que piano é para todos os gostos e idades  Salmo Duarte/A Notícia
A joinvilense Juliana, de 17 anos, se inscreveu para tocar no palco livre, e fará sua estreia Foto: Salmo Duarte / A Notícia

Passaram-se quase 75 anos desde que Miguel Proença caminhava com a mãe pelas ruas de Quaraí, no interior do Rio Grande do Sul, quando ouviu pela primeira vez o som de um piano. Ele tinha cinco anos e percebeu que aquela música escapava pela janela de um prédio do outro lado da rua. Não teve dúvidas: invadiu a sala, subiu em um banquinho e, diante dos olhares incrédulos da mãe e dos outros adultos, começou a tocar. 

A joinvilense Juliana Michels May, 17 anos, não precisou fazer nenhuma transgressão para poder tocar. Ela ganhou uma miniatura do instrumento que se tornou sua paixão aos três anos de idade, quando uma amiga da família a presenteou com um piano de brinquedo. Sentou em frente ao presente e, inesperadamente, “acertou” as teclas que precisava para executar as músicas infantis que já conhecia.

Miguel é hoje um ícone do piano no Brasil. É considerado um dos melhores intérpretes da obra de Villa-Lobos e recebeu a Comenda da Ordem do Rio Branco por suas atividades no cenário musical brasileiro. Juliana ainda não tem o futuro definido. É possível que a música nem esteja entre as atividades remuneradas que ela exercerá, mas há a certeza de que o piano estará sempre em sua vida. 

Os caminhos do pianista profissional e da menina joinvilense dificilmente se cruzariam se não fosse pelo Pianíssimo, festival sediado pela primeira vez na cidade desde quarta-feira. Todos os dias, Joinville tem recebido pianistas premiados, com currículos extensos e nomes que levam plateias a pagar ingressos com valores altos para assisti-los — aqui, os concertos são gratuitos. Ao mesmo tempo, oferece a oportunidade para profissionais locais também integrarem a programação oficial e, neste domingo, dará chance a pianistas amadores que se inscreveram em uma seletiva de também se apresentarem. 

Para Juliana, será a estreia diante de uma plateia de desconhecidos — pelo menos, de pessoas que estarão realmente diante dela e do piano. Até agora, a audiência da adolescente chegava pelas redes sociais, nos vídeos que ela grava para seu canal do You Tube. Para Miguel, é a realização de um sonho: há anos ele viaja pelo Brasil em projetos que divulgam o piano, para que a importância e versatilidade do instrumento não sejam esquecidas. 

– O brasileiro tem essa paixão por piano, mas as pessoas vêm me dizer que não têm a chance de ouvir, pois o acesso é difícil. 

A literatura pianística é fantástica, e eu quero divulgar essa obra para que as pessoas possam admirar a beleza de uma melodia, principalmente quando tocada ao piano – diz o músico. 

 JOINVILLE,SC,BRASIL,21-09-2018.Iº Pianissimo.(Foto:Salmo Duarte/A Notícia)
Juliana, aos 17 anos, populariza o piano ao tocar sucessos atuais no instrumentoFoto: Salmo Duarte / A Notícia

No Youtube, menina de Joinville faz sucesso com hits ao piano

O piano é um dos instrumentos com maior potencialidade musical, já que se adapta a diferentes gêneros musicais. Juliana aproveita essa possibilidade de ecletismo e ousa pisar onde outros não se arriscam. Apesar de conhecer e gostar, por exemplo, de Chopin – pianista polonês da era romântica –, é nos sucessos do século 20 e 21 que ela se encontra. Como só fez aulas na infância, ela não se acostumou a buscar partituras, tira as músicas de ouvido. 

No domingo, Juliana sentará ao piano para tocar Iron Maiden e Guns N’ Roses. É uma forma de, a seu modo, popularizar o piano ao mostrar a outros jovens que ele não precisa estar relacionado à sobriedade dos teatros em concertos de gala.

– Antes do canal, meus amigos nem sabiam que eu tocava piano. Agora, eles fazem pedidos de músicas, e pessoas de outros países comentam também – diz. 

pianista miguel proença
Miguel Proença, aos 79 anos, sonha em naturalizar a experiência do pianoFoto: dudu leal / Divulgação

Paixão que torna o talento natural

Para Miguel Proença, o autodidatismo do piano faz com que uma criança se encante e saiba tocar com facilidade um instrumento que nunca viu antes. Ele acredita que todas as pessoas nascem com aptidões e, ao receberem a oportunidade, irão demonstrá-la, mesmo que ela esteja distante de sua realidade.

— Para mim, é uma paixão muito forte. Não posso passar nenhum dia sem tocar piano, sem ouvir seu som. É uma coisa orgânica, visceral — afirma. 

Durante essa semana, Miguel tocou sobre um palco montado em um caminhão estacionado na Praça da Bandeira, no centro da cidade. Foi com timidez que algumas pessoas começaram a se aproximar para ouvi-lo tocar, em um movimento que cresceu exponencialmente à medida que o grupo ficava maior, como se precisassem da segurança de uma multidão para chegar perto da música clássica. 

— As pessoas não estão acostumadas, porque acham que uma música que tem uma duração maior do que a que estão habituadas a ouvir nas rádios, ou que é tocada em um ambiente específico, é mais difícil de entender — avalia o pianista Cristian Budu, de São Paulo, 30 anos, que foi a estrela responsável pela abertura dos concertos do 1º Pianíssimo de Joinville. 

Há cinco anos, Budu recebeu o Grande Prêmio no Concurso Internacional de Piano Clara Haskil, na Suíça. Desde então, ele se dedica também a desconstruir a imagem do piano como instrumento elitista. Em São Paulo, criou um projeto que reúne músicos para tocar piano em eventos informais. 

– Eu queria acordar os pianos que ficavam "dormindo". Fazemos festas que desmistificam um pouco essa imagem de que a música clássica é chata ou complicada de entender. Acho que essa é minha incumbência maior na vida, tentar fazer o piano chegar às pessoas – avalia.

Caro e complexo, piano já foi instrumento doméstico

A complexidade da construção do piano explica seus preços altos e, consequentemente, a esfera elitista na qual foi inserido. Um piano digital, por exemplo, não é encontrado por menos de R$ 2,5 mil, e um piano acústico, de cauda, chega a custar mais de R$ 50 mil. 

No auge do sucesso do instrumento, quando todas as famílias com condições financeiras ambicionavam ter um em casa, eram construídos cerca de 600 mil pianos por ano nos quatro principais países com empresas que o fabricavam. Era uma linha de produção espantosa se considerado o tempo e esforço para um destes instrumentos ficar pronto.

— Começando do zero, do corte da árvore, são 20 anos. Depois que a madeira já passou por todo o processo, aí leva mais um ano e meio, mais ou menos — conta o técnico Deonísio Bonifácio, responsável pela afinação dos instrumentos do Pianíssimo.

Confira a programação completa do I Pianíssimo

 

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