"Envelhecimento não precisa ser sinônimo de doença", diz neurocientista  - Geral - A Notícia

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Entrevista: Fabiano Moraes30/04/2018 | 10h39Atualizada em 09/05/2018 | 17h55

"Envelhecimento não precisa ser sinônimo de doença", diz neurocientista 

Em entrevista ao "AN", neurocientista Fabiano Moraes fala sobre o uso das potencialidades do cérebro ao nosso favor 

"Envelhecimento não precisa ser sinônimo de doença", diz neurocientista  Discovery/Divulgação
Foto: Discovery / Divulgação

A sentença a princípio assusta, mas é um convite para quem precisa de um chacoalhão para mudar a rotina, sair da zona de conforto e, de quebra, combater o estresse, a ansiedade e a depressão. Vale até para prevenir males cada vez mais comuns, em especial na velhice, como demência, Alzheimer e Parkinson. A receita é conhecida e está em conquistar mais saúde e bem-estar, mas desta vez, com um aliado diferente: o estímulo e o uso das potencialidades do cérebro ao nosso favor. 

Entender o nosso papel na construção de uma vivência mais longeva e melhor é um ponto fundamental - vantagem que passa pelo entendimento das nossas emoções, da razão, do que é a felicidade, das nossas memórias e o poder de manter em plena atividade a nossa cognição. Uma discussão rica, considerando que os moradores de Santa Catarina têm a maior expectativa de vida do país, como aponta o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) - 79,1 anos.

Nesta entrevista, o médico Fabiano Moulin de Moraes, especialista em neurologia cognitiva e do comportamento e membro titular da Associação Brasileira de Neurologia, nos ajuda a traçar essa relação existente entre a saúde e o acometimento do nosso corpo biológico e social (família, emprego, mundo globalizado e tecnologia). Aos 34 anos, o neurologista trabalha e estuda todas as informações que o cérebro pode nos dar. E são justamente as descobertas e os segredos que envolvem esse órgão fantástico que tornam os motores da neurociência pulsantes. Moulin é um dos palestrantes da Expogestão 2018 (Joinville, de 8 a 10 de maio) e falará sobre "O cérebro, nosso guia pela jornada da vida".

De onde partiu a decisão de explorar a neurologia cognitiva e quais os seus anseios e as respostas que teve até o momento neste campo profissional?
Sempre fui muito curioso e quis ir atrás desses mistérios que cercam a vida, a consciência, o cérebro. Então eu acabei migrando naturalmente para a neurologia e dentro dela a área que acaba tendo uma interface maior com essas questões, que é a neurologia do comportamento - são as demências, esses quadros que colocam em xeque a estrutura que nos privilegia com a consciência, com a memória e com a tomada de decisão. Tanto estudando o quadro cerebral alterado, por exemplo, nas demências ou nas doenças cerebrais, quanto o normal, acabei tendo essa visão mais ampla de como o cérebro funciona, se ele vai errar ou não e de como tudo isso caminha. Claro que a gente hoje tem muitas respostas, mas felizmente ainda não responde todas. Eu digo felizmente porque, se um dia achar a resposta final, vai perder a graça toda. A dúvida é o grande motor da ciência. A resposta não nos importamos em não saber, pelo contrário, a gente fica feliz de poder fazer as perguntas e poder correr atrás de algum tipo de resposta mesmo sabendo os limites que temos ao respondê-las.

O que ainda falta para ser conquistado neste campo?
Felizmente, hoje estamos caminhando para o entendimento melhor dessas doenças e consequentemente eu acho que com tratamentos melhores. Hoje a gente faz muita coisa, mas ainda não é suficiente como o Alzheimer, o Parkinson, a esclerose. Por um lado, se eu estou falando das doenças, por outro acho que é tão importante o estudo do cérebro normal. Como é construída a consciência? Como o eu aparece dentro dessa consciência? O eu é um atributo inerente à consciência ou não? O quanto da nossa consciência é possível estudar em outros animais, nos vegetais? Se isso tem interferência, por exemplo, na pesquisa de vida alienígena ou na inteligência artificial. Caminhamos hoje para essas perguntas sobre nós e as coisas que já estão interferindo no nosso presente como a robótica, a inteligência artificial, e que vão provavelmente definir o nosso futuro. Pois se a gente conseguir chegar nessa construção é provável que ou vamos ter que aprender a conviver com outra "espécie", entre aspas, tão ou mais consciente e inteligente do que nós (que é a máquina) ou talvez uma outra perspectiva que também é superinteressante, que é a fusão homem-máquina e que não sabemos o que esperar a partir daí.

Ao aliar nossa atividade cerebral ao campo da saúde e do bem-estar, por exemplo, é certo afirmar que o cérebro é o nosso guia pela jornada da vida?
Bom, no meu caso existe um viés porque sou neurologista. Então, obviamente vou tomar como rédia o órgão que eu mais estudo, mas a ideia é um pouco anterior: se é o cérebro que faz a construção da consciência e é a partir dele que tomo as decisões, construo minhas memórias e a minha realidade. É interessante ver o que faz bem para ele e ver se o que faz bem para o meu cérebro faz bem para o corpo como um todo. Neste sentido, a gente felizmente vem tendo muitos dados nos últimos 30 anos. Por exemplo, em países desenvolvidos como Japão, Holanda, Dinamarca, Inglaterra e Canadá há aumento gradativo da população idosa e, por incrível que pareça, não há um aumento proporcional de doenças como as demências ou o Alzheimer. Então, esses trabalhos estatísticos e populacionais começaram a mostrar que o envelhecimento não precisava ser sinônimo de doença. A partir daí, começamos a pesquisar como isso era possível e quais são os fatores que influenciam o envelhecimento normal ou envelhecimento anormal. Tanto que praticamente tudo o que descobrimos que ajuda o cérebro diz respeito ao corpo ou também o beneficia. É devido a essa complexidade do cérebro que ele vira um guia nessa jornada da vida, até porque, na prática, cérebro e corpo são uma coisa só.

Existem exemplos práticos dessa relação entre o corpo e o cérebro na formação de uma rotina saudável?
Hoje se sabe que o principal fator pessoal que podemos modificar é a atividade física. Ela é a principal previdência privada que existe, a melhor maneira de construir um futuro adequado: seja pensando num câncer de mama, seja pensando no diabetes, seja pensando em obesidade ou em Alzheimer, por exemplo. E infelizmente nas últimas gerações humanas a atividade física passou a ser opcional. Se a gente fosse imaginar alguns séculos atrás, não havia a possibilidade de não ser ativo fisicamente, já que provavelmente seríamos filhos de agricultor ou iríamos trabalhar em fábricas com uma carga horária extremamente pesada de 18 a 20 horas por dia, e por aí vai. Hoje há uma sociedade onde temos uma abundância de alimentos, inclusive de facílima digestão e que têm um apego muito forte para o cérebro pelo fato de, às vezes, serem muito doces ou muito gordurosos, o que faz a gente perder muito do nosso equilíbrio. Ou seja, do quanto que é ou não saudável comer, numa sociedade que cada vez senta mais e na qual a gente sabe que a cadeira é assassina. Trabalhos que envolvem literalmente ficar sentado matam mais do que aquelas profissões que permitem que as pessoas caminhem mais, por exemplo. Hoje a gente sabe também que o sono interfere no corpo e no cérebro; a alimentação interfere no corpo e no cérebro; a atividade física e a qualidade da minha atenção e dos meus pensamentos como ansiedade e depressão igualmente interferem tanto em um quanto no outro. Normalmente diferencia-se muito uma coisa da outra, mas felizmente estamos vendo que faz parte de um todo.

Havendo essa noção de que mente e corpo se entrelaçam e para tirar melhor proveito deles em conjunto, como no ditado "uma mente sã num corpo são", de que forma a pessoa pode entender como a rotina dela hoje pode representar uma vida com mais qualidade no futuro e proporcionar um envelhecimento sadio?
Esse é um ponto essencial. A gente tem uma ideia ruim de que o que traz saúde é o remédio ou de quem faz saúde é o médico, e isso não poderia ser mais falso. Quem faz a nossa saúde somos nós, no dia a dia, a cada decisão entre comer uma salada e uma sobremesa, a cada decisão entre ficar sentado no sofá e ir para a academia ou correr, a cada decisão de controlar minha ansiedade ou deixá-la a todo vapor, a cada decisão entre dormir cedo ou ver mais um capítulo da série que eu tanto adoro. A saúde na verdade são exatamente essas pequenas decisões do dia a dia. Vou dar outro exemplo da alimentação, que eu acho que é uma coisa bem rica: hoje existe um eixo que a gente chama de cérebro-intestinal, que são as várias maneiras de relacionamento entre o intestino e o cérebro. Nós temos no intestino um número quase igual de neurônios do que o próprio cérebro e nós produzimos algumas vezes até mais neurotransmissores no intestino do que no próprio cérebro, como por exemplo, a serotonina, que tem a ver com felicidade e a ansiedade. E a gente sabe que o funcionamento do intestino depende muito da qualidade das bactérias que temos nele e que chamamos de microbioma, a partir do tipo de alimento que eu como. Então, alimentos com fibras, carnes brancas, legumes, tudo isso garante a sobrevivência de bactérias melhores no intestino que vão auxiliar na produção de neurotransmissores e de substâncias melhores dele e, pela conexão existente por vários nervos até a área cerebral, influenciam também no funcionamento do meu cérebro. Com isso a gente sabe que pela mudança do microbioma intestinal eu aumento a minha chance de deprimir ou de melhorar da depressão. Também aumento a minha chance de ter ansiedade, aumento ou diminuo a chance de ter insônia. Isso só para mostrar como as coisas estão bem interligadas e que não faria sentido nem para o corpo nem para a natureza isolar os sentidos ou isolar algum órgão do outro.

Os exemplos demonstram o que deve ser feito para levar uma rotina com maior qualidade de vida, mas muitas vezes o racional é vencido pela emoção. Fazendo uma analogia com a dieta, por exemplo, sabemos que é preciso comer melhor, fazer exercícios e muitas vezes nos deixamos agir pela emoção. Por que isso acontece?
Isso é interessante. A razão acha que é a atriz principal e, na verdade, não passa de uma coadjuvante bem sem graça. Quem toma a decisão é a emoção. E várias teorias da consciência colocam a razão apenas para justificar o que foi tomado pela emoção, ou seja, para explicar em palavras num segundo momento. Isto é, não foi a razão que tomou a decisão, mas a emoção, tanto para eu mesmo quanto para os outros. Uma das teorias da consciência diz respeito muito àquilo que torna o ser humano o bicho mais fantástico do planeta, que é a nossa sociabilidade. Nós dominamos o planeta não porque a gente tem a melhor visão, não porque a gente tem a melhor audição, não porque a gente tem a melhor mordida, velocidade maior, maior garra? Muito pelo contrário, a gente perde em tudo até para o gato de casa, mas nenhum outro animal do planeta tem uma sociabilidade tão fantástica como a nossa. E muito se acredita que o desenvolvimento da consciência, do eu e da razão, não venha para o benefício do indivíduo, mas para o benefício da interação com o outro. Porque a partir do momento que pelo menos eu consigo inventar uma desculpa para aquilo que eu fiz, fica mais fácil prever o que eu vou fazer e fica mais fácil eu me relacionar, mas sabe-se hoje que quando você leva várias afetivas emocionais ao cérebro não há mais decisão. Então Descartes, quando dividia lá entre mente e cérebro, entre razão e emoção, ele cometeu um erro grave ali porque na verdade não há decisão humana que não envolva emoção. Pelo contrário, é realmente a emoção que é o leme, a emoção é quem vai na prática dar o grande direcionamento. E é interessante perceber isso porque aí provavelmente se você começa a perceber isso, vai inclusive começar a identificar quais são as emoções que aparecem na hora que você não consegue tomar a decisão mais adequada para você. Ou seja, o que está atrapalhando o meu autocontrole e me "impede", entre aspas, de fazer aquilo que racionalmente eu sei.

A ansiedade acaba também aparecendo como vilã nesses momentos em que emoção sobressai à razão?
A ansiedade faz isso: você come a sua ansiedade, muita gente come a ansiedade no sentido de comer os problemas. Exemplo: eu estou cheio de problemas, vou na geladeira e ataco e isso faz todo sentido e é legal explicar o motivo. Exatamente porque a emoção é muito mais antiga evolutivamente e muito mais importante, ela consegue influenciar muito mais a área de decisão do que essa nossa área do cérebro racional, que a gente chama de pré-frontal, que fica atrás da testa. Essa área quando a gente está ansioso ou deprimido, fica sobrecarregada e aí ela não consegue exercer todo o poder que ela poderia para impedir aquela atitude mais impulsiva, que é preferir o doce naturalmente, que é preferir o sofá naturalmente, que é preferir o conforto. E aí tem uma coisa importante para o corpo e o cérebro: conforto é morte! Claro que a gente também não pode ser privado de conforto, senão adoecemos, mas o conforto exagerado é uma das coisas que mais adoecem o corpo.

De que forma o estresse entra nesse contexto?
Esse é um dos pontos que eu vou bater bastante na Expogestão, que é como o estresse é essencial para a vida. O que a gente precisa adequar e aprender individualmente é o quanto de estresse para mim me alimenta e me desafia e o quanto me adoece. E essa é uma resposta naturalmente individual e tem muito a ver com a sua genética, com o ambiente, com a infância e com o que você faz. Mas é interessante porque temos a ilusão de que conforto é algo obrigatoriamente positivo e na natureza não existe nada que é inerentemente bom ou ruim, tudo é questão de contexto, inclusive o estresse.

Para não deixar que esses elementos ganhem proporções em excesso e garantir benefícios à saúde a longo prazo, há forma eficaz de manter o cérebro ativo ou prevenir doenças neurodegenerativas?
A primeira coisa é a educação. Sabemos atualmente que quantos anos de estudo você teve influenciam diretamente na sua chance ou não de ter uma doença como o Alzheimer. Pessoas analfabetas têm 70% de chances a mais de ter a doença do que aquelas que tiveram ensino superior. Além disso, falar mais línguas também protege o cérebro. Existe uma diferença grande, por exemplo. Quem fala uma segunda língua, qualquer que for, atrasa o aparecimento do Alzheimer em cinco anos. Isso é uma coisa muito rica. Para o idoso não adianta só ficar fazendo palavra cruzada porque ela infelizmente sozinha não vai adiantar nada. Agora, além de palavra cruzada tem uma parte importante que eu gostaria de somar, que é o estímulo social, então, por exemplo, você pode fazer palavra cruzada sim, mas é importante ler o jornal, discutir o jornal com algum familiar. É importante aprender uma nova língua, aprender a pintar, fazer música, dançar, fazer arte. Isso também é muito rico para o cérebro. Então, não é só aquela atividade racional. Tão importante quanto essas atividades é ter o outro na nossa vida. Temos evidências hoje também que a qualidade das relações sociais é um dos fatores mais protetores ou destruidores do envelhecimento. O idoso que fica sozinho vai adoecer de todas as maneiras mais rapidamente e mais gravemente do que aquele que tem um apoio familiar, que tem amigos, que sai de casa. E tem um outro ponto que é fantástico, o propósito.

O propósito contribui em que sentido?
Quando você mede o nível de propósito das pessoas, e não precisa ser você salvar o mundo, nem descobrir a cura de nada; pode ser cuidar do neto, pode ser ajudar a ONG na qual você faz trabalho voluntário, pode ser ver sua esposa todo dia. Não há nenhuma importância em qual mérito ou qual o propósito, mas a gente já sabe que quanto maior o nível e maior a intensidade do seu propósito, maior é o risco de adoecimento. Isso é muito interessante porque parece uma coisa tão dissociada. A palavra é tesão. Quanto de tesão eu tenho quando acordo de manhã. E aí tem uma pergunta japonesa que é muito boa que diz assim: para o quê você acorda de manhã ou para quem você acorda de manhã?. Se você tiver uma resposta boa e clara você pode ter certeza de que está no caminho certo. Agora, se você ficar questionando isso meia hora, vale a pena rever o que está acontecendo na sua vida. É interessante ver que mesmo em níveis mais abstratos e até mais existencialistas como o propósito tem uma influência direta na sua saúde mental.

Com relação à saúde mental chegamos à chamada busca pela felicidade, que é um quadro de satisfação. Quando é possível uma pessoa perceber que o atingiu e ser feliz? Como esse estado de espírito reflete na vida dela?
Isso é bem legal. Do ponto de vista prático, se você está se perguntando se você está feliz é porque você não está. A felicidade não é pensada, é sentida, vivida. Então, se você lembrar os próprios momentos felizes da sua vida você não estava pensando, estava curtindo. É com a sua família, com os seus relacionamentos, no trabalho. Aí tem uma parte importante. Quando você se pergunta sobre felicidade, naturalmente já se descolou da felicidade. Então você não será feliz nunca desse jeito. Tanto é que Confúcio tem uma frase muito boa: "para ser feliz basta querer ser o que és", porque é prática se enquanto você estiver colocando um alvo futuro como objetivo para a felicidade, quando você atingir aquele objetivo a nossa natureza desejante colocará outra coisa no lugar e você vai estar sempre a um passo da felicidade. A partir do momento que você entende que ser feliz é querer o que tem ou o que é - que talvez seja até mais importante do que ter - você acaba mudando a sua perspectiva e tudo fica muito mais fácil. Outro dado recente e interessante é do quanto a gratidão é protetora. Ou seja, quando eu reconheço o privilégio de estar vivo, de estar entendo do que estamos falando, de estar trabalhando de tal maneira, de morar em determinado Estado ou de fazer o que eu gosto ou não. Esses pequenos exercícios e também parar de valorizar o que é negativo e valorizar, no mínimo na mesma intensidade, o positivo, já chacoalha tudo. Só isso já acaba nos trazendo claramente benefícios essenciais.

Quando não estamos nessa batida podemos apresentar sinais relacionados com a atenção e a memória. Muita coisa acaba se perdendo, há déficit de lembranças, inclusive via doenças neurodegenerativas. Como é possível estimular a memória para prevenir a perda cognitiva?
Na verdade é essencial que a gente não tenha uma memória perfeita. O nosso cérebro não dá conta de todas as habilidades que ele tem que fazer se tiver que guardar tudo o que você fez. Sabemos disso, tanto porque todo mundo esquece bastante quanto porque existem casos do que a gente chama de hipermnésia ou a "memória perfeita" vamos dizer assim. E esses quadros são caóticos, são péssimos para o paciente. Por exemplo: estamos conversando agora há alguns minutos e você não lembra de todas as palavras que eu falei, nem eu o que você falou, mas conseguimos, de cada frase e de cada conversa, entender a ideia por trás. Quando a memória é perfeita, você consegue lembrar de todas as palavras que eu acabei de falar, mas não vai ter ideia do que eu falei se você não conseguir entender o contexto por trás. Então esse é um lado péssimo da memória perfeita. A natureza sempre se inclinou nesse sentido da suficiência e não da perfeição porque se eu tenho alguma função do cérebro perfeita, isso quer dizer que outra vai estar muito abaixo, por exemplo: linguagem, abstração, sociabilidade, planejamento. No entanto, o que se sabe é que, por exemplo, algumas pessoas com autismo têm memória perfeita, mas não conseguem se relacionar. Outra situação é se a minha memória é perfeita e eu, te conhecendo, vejo seu rosto e decoro cada expressão do seu rosto. A próxima vez que eu te ver eu vou ter que, na verdade, lembrar dessa expressão igual a que você está agora. Diferentemente de como nós naturalmente fazemos, que é ter uma média do seu rosto e a partir do momento que eu te vejo de novo eu sei o seu nome, de onde você veio e o que você faz. Isso é só para mostrar o que: não fique triste que a memória está indo embora, é essencial que ela vá. O que a gente sabe, por outro lado, que faz diferença para a manutenção, é usá-la. Aqui tem um ponto importante de novo na rotina: o idoso no Brasil, infelizmente, não tem papel ou não tem objetivos na sociedade, acaba ficando no sofá o dia inteiro, vendo TV, e isso infelizmente não é exercitar a memória. Exercitar a memória pode ser continuar a ajudar a pagar as contas de casa, pode ser ir no supermercado, ajudar a família nos problemas, fazer um trabalho voluntário, sair de casa para atividades físicas, do inglês, do francês, do chinês. Então, não é preciso virar um devorador de palavra cruzada, de sudoku, ou do dicionário, porque não é assim que o cérebro funciona. O cérebro funciona na vida e para a vida. Então, quanto mais ativa está a sua rotina, pode ter certeza de que mais ativa e protegida a sua memória estará.

E o cérebro, ele emite alguma espécie de alerta de que ele pode não estar tão ativo quanto deveria?
Pode. Um exemplo é a depressão, que você fica sem vontade de fazer as coisas, fica apático, e a própria memória. No meu consultório eu tenho muitos pacientes com depressão e ansiedade que me procuram pela memória. A mesma coisa com ultrassom do sono. Quando eu tenho apnéia, insônia, uma das melhores maneiras de o cérebro reclamar é pela memória porque como o cérebro é a estrutura mais complexa do corpo e como a memória é a função mais complexa dessa estrutura, é como se ela fosse a bandeirinha de alarme para falar assim: "olha, não tô bem, vamos checar". Tanto é que tanto aqui na universidade quanto no próprio consultório, para a gente entender a memória é preciso entender tudo o que a gente acabou de falar. Se você dorme bem, se faz atividade física, como está a sua questão social, como é a sua família, como é que está o seu humor, como é que está a sua gratidão, como é que está o seu propósito, que remédio que você toma, até porque vários remédios atrapalham e muito a memória, então naturalmente quando a gente fala de um quadro tão complexo como a memória, a própria abordagem dela é complexa e a própria memória pode ser uma bela maneira do corpo levantar uma bandeirinha e pedir ajuda.

E quando eu reconheço esses sinais, o que devo fazer?
Vale a pena realmente ter uma avaliação médica adequada para ter uma melhor ajuda possível. Mas a questão é de que não tem idade para trabalhar a nosso favor o corpo e o cérebro e mantê-los ativos não só para ter mais qualidade de vida no futuro, mas desde agora. É preciso vencer o comodismo, e para isso o ontem já é tarde. Costumo dizer que deveríamos ter começado a nos cuidar antes mesmo de nascer.

 

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