Dobra o número de casos de leishmaniose visceral canina em Florianópolis em 2017 - Geral - A Notícia

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Alerta28/02/2018 | 03h00Atualizada em 28/02/2018 | 03h00

Dobra o número de casos de leishmaniose visceral canina em Florianópolis em 2017

No ano passado foram 148 cães diagnosticados com a doença e 83 eutanasiados 

A cachorrinha Pagu foi adotada no ano passado pelo casal Ricardo Gesser e Gabriela Garcia. O animal, a princípio saudável, logo começou a apresentar alguns sintomas como crescimento irregular das unhas e queda de pelo. O diagnóstico veio no final do ano: leishmaniose visceral canina. Eles optaram por fazer o tratamento, cuja dose custou R$ 1 mil:

— A opção da eutanásia é muito cruel, a gente se apega ao bicho — comenta o professor que mora no Centro do Florianópolis.

Assim como Pagu, a outra cachorrinha do casal, Frida, também usa coleira repelente para evitar ser picada pelo mosquito-palha - nome científico Lutzomyia spp. - transmissor da doença.

 FLORIANÓPOLIS, SC, BRASIL - 27/052/2018Aumento nos casos de leishmaniose. Ricardo Gesser adotou duas cadelinhas. Uma delas, a Pagu (a preta), foi diagnosticada com leishmaniose.
Foto: Marco Favero / Diário Catarinense

Em 2017, dobrou o número de casos de leishmaniose visceral canina em Florianópolis - única cidade catarinense até o momento com transmissão autóctone (dentro de seu território). Assim como Pagu, foram 148 cães diagnosticados com a doença no ano passado, sendo que 83 foram eutanasiados. Em 2016, esse número era de 74 e 39, respectivamente.

O diretor de Vigilância de Saúde, Leonardo Ventura, da Secretaria de Saúde de Florianópolis, defende que esse aumento está relacionado aos primeiros casos autóctones em humanos, o que exige uma varredura de testes nos cães da região dos pacientes. Em 2017, foram três casos em humanos, no Saco dos Limões, Pantanal e Rio Tavares. No ano passado foram 1.877 cães testados, segundo a pasta. Os animais são considerados reservatórios da doença, ou seja, não transmitem a doença diretamente para outros cães nem para humanos, mas uma vez infectados pelo parasito através da picada do mosquito-palha podem infectar novos mosquitos que, por sua vez, podem transmitir a doença a outros cães e seres humanos. 

— Estes animais já estavam infectados, o que está ocorrendo é o aumento do número de diagnósticos. Os casos de leishmaniose visceral canina em Florianópolis vem numa crescente desde 2010 quando os primeiros casos foram diagnosticados em cães na Lagoa da Conceição. 

Edmundo Grisard, professor do Departamento de Microbiologia, Imunologia e Parasitologia da UFSC, reforça que a doença é uma preocupação na Capital, onde está instalada, e em SC:

— Não há mais como eliminá-la diante da quantidade de animais que temos e das variáveis ambientais, além da presença do mosquito. Nós temos que minimizar as consequências adotando todas as medidas cabíveis. O cão não tratado incorre em um problema de saúde pública — reforça.

Ele defende que como medidas de prevenção, os cães não infectados deveriam ser vacinados, usar coleira repelente, telas de proteção e inseticidas nos canis. Os já infectados deveriam passar também por tratamento. Porém Grisard lembra que isso exige um esforço conjunto de ONG, de tutores de animais, do poder público, da população e de pesquisadores, além de alto investimento.

Ventura explica que na Capital são dadas duas opções para o dono do cão infectado: a eutanásia ou o tratamento com Milteforan, remédio aprovado pelo Ministério da Agricultura, mas que não cura o animal, apenas controla os sintomas. O tratamento deve ser arcado pelo dono e pode custar até R$ 3 mil por ano. Além disso, o tutor deve se comprometer com acompanhamento veterinário e uso de coleira repelente. A partir de março, as equipes da prefeitura irão contactar os cerca de 80 donos que se comprometeram com o tratamento para verificar se isso está sendo feito. Porém ainda não foram definidas as medidas para aqueles que estão descumprindo a determinação. Além disso, foram comparadas 2,5 mil coleiras, que devem chegar em março, para serem usadas nas áreas de investigação em cães que aguardam os testes. Mas elas têm prazo de validade e a troca será responsabilidade do dono.

Faltam informações e políticas públicas

No entanto, a advogada e protetora de animais Nubia Moreira Brodbeck acredita que faltam ações e políticas públicas para prevenir a doença:

— Não temos nenhuma providência de precaução dessa zoonose, de vacina, de ação governamental preventiva. Como não existe uma medida preventiva é óbvio que eles vão eutanasiar em massa os cães de rua e é isso que nós repudiamos.

Já o assessor técnico do Conselho Regional de Medicina Veterinária de SC, Paulo Zunino acredita que o aumento no número de casos está relacionado principalmente à falta de informação aos profissionais e população:

— A população precisa conhecer a doença para entender a importância de se respeitar as medidas de controle. O município deve manter a cidade limpa, com coleta e destino adequado do lixo.

Ele defende que a informação deve chegar inclusive a outros municípios, já que há deslocamento intenso de pessoas e animais, o que pode representar riscos a outras cidades.

Em nota o Ministério de Saúde diz que os proprietários de cães diagnosticados com a doença têm a opção de tratar utilizando a droga aprovada pelo Ministério da Agricultura, mas que não é disponibilizada pela pasta. "Caso esta ação não seja realizada o animal deve ser eutanasiado, com intuito de reduzir o risco de transmissão ao vetor e consequentemente a outros cães e seres humanos", acrescenta a nota.

Foto:

Sintomas em animais:

- emagrecimento;
- enfraquecimento dos pelos;
- apatia;
- descamação ao redor dos olhos, focinho e ponta das orelhas;
- crescimento exagerado das unhas;
- conjuntivite ou outros distúrbios oculares;
- aumento de volume na região abdominal;
- diarreia, hemorragia intestinal e inanição.

Sintomas em humanos:
- febre intermitente com semanas de duração;
- fraqueza;
- perda de apetite;
- emagrecimento;
- anemia;
- palidez;
- aumento do baço e do fígado;
- comprometimento da medula óssea;
- problemas respiratórios;
- diarreia;
- sangramentos na boca e nos intestinos.

Prevenção

Locais com fezes de animais, cascas ou restos de vegetais e folhas podem ser favoráveis para a ocorrência do inseto transmissor da doença. Isto porque o ‘mosquito-palha’, transmissor da leishmaniose, se reproduz em locais sombreados e com acúmulo de matéria orgânica em decomposição.

A melhor forma de prevenção é a limpeza dos terrenos e casas, realizar a poda periódica das árvores, além de evitar a criação de porcos e galinhas em área urbana. O Centro de Controle de Zoonoses (CCZ) de Florianópolis oferece serviço de coleta e realização de exame laboratorial para o diagnóstico da leishmaniose visceral canina.

Outra recomendação importante é o uso de roupas adequadas, como boné, camisa de manga comprida, calças e botas, quando permanecer em área de mata ou no entorno, especialmente a partir das 17h, horário de maior atividade do ‘mosquito-palha’. Indica-se, também, a utilização de coleiras repelentes de insetos nos cães.  Também é importante manter o animal em ambientes telados com malha fina durante o período de maior atividade do inseto transmissor (do entardecer ao amanhecer).  

Fonte: Secretaria de Saúde de Florianópolis

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