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Faixas de areia11/11/2017 | 03h17Atualizada em 11/11/2017 | 03h17

Três fatores explicam avanço do mar no litoral catarinense

Três fatores explicam avanço do mar no litoral catarinense Marco Favero/Diário Catarinense
Praia do Matadeiro, em Florianópolis, em outubro deste ano Foto: Marco Favero / Diário Catarinense

Oceanógrafos e engenheiros marinhos afirmam que a sobreposição de três fenômenos naturais por um período prolongado ajudam a explicar o avanço do mar sobre as praias de Santa Catarina. Nessa equação, há influência da maré astronômica, que é o resultado da força gravitacional do Sol e da Lua e do movimento orbital da Terra; da maré meteorológica, com ventos no oceano, que podem contribuir para o empilhamento ou a retirada de água da costa; e das fortes ondulações vindas do Leste, que potencializam o impacto das ondas na orla.

Como consequência, nas praias de orientação noroeste-sudeste (como em Ingleses, em Florianópolis, ou na Prainha, em São Francisco do Sul), as ondas que vêm do leste “retiram” o pacote sedimentar da praia, levando-o como um cordão arenoso para a parte submersa e formando bancos de areia. Já nos balneários de orientação Norte-Sul (como o Caldeirão do Morro das Pedras, em Florianópolis, ou Mariscal, em Bombinhas), há um maior transporte de sedimentos para o sul da orla.

– Por que levanto essa hipótese? Eu corro na Armação e percebi o agravamento do problema no Caldeirão. Quando eu chegava lá na ponta sul, via os galhos todos lá e que a faixa de areia está bem gordinha ali. Também tem erosão na parte norte do Matadeiro, mas na Armação não tem. Ou seja, o sedimento está se acumulando naquela área – afirma Felipe Pimenta, oceanógrafo da UFSC.

Entre os nativos e pescadores experientes, corre a teoria de que esses eventos mais extremos costumam ocorrer a cada sete anos. Luiz Eduardo Machado, diretor da Defesa Civil de Florianópolis, lembra fenômenos recentes que reforçam essa tese e faz um alerta para os próximos anos:

– Em 2003, 2010 e agora em 2017 presenciamos esses fenômenos. Então, é bem provável que vamos ter outro em 2024, o que é bastante preocupante. Precisamos começar a nos planejar, desde o morador até os empresários e donos de hotéis, não esperando apenas que o poder público tome a frente. No próximo ciclo, a probabilidade de danos é maior do que agora.

 Vista da Praia do Mataderio antes da ressaca que atingiu algumas praias da ilha.
Praia do Matadeiro em 2015Foto: Google Street View / Google

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Ocupação desordenada próxima a praias muda configuração do litoral de SC

Caminhos para a recomposição

 A recuperação natural das praias é lenta e nem sempre volta ao que era antes. Além disso, as construções nas orlas agravam a erosão costeira e podem permanecer ameaçadas. Entre as possíveis soluções para o problema, duas ações se destacam: o enrocamento de pedras para conter danos à infraestrutura pública e o engordamento artificial da faixa de areia para recuperar a balneabilidade da orla.

– Com o passar do tempo, as praias podem se recuperar, mas isso não quer dizer que os órgãos responsáveis pela infraestrutura estão isentos de planejamento urbano e de cálculos de obras costeiras que protegem a orla – explica Felipe Pimenta, da UFSC.

Algumas das medidas são de relativa facilidade de execução e já foram tomadas pelas prefeituras, como o enrocamento de pedras no Caldeirão do Morro das Pedras, em Florianópolis, para preservar a rodovia SC-406. Já o engordamento da faixa de areia é uma ação mais complexa, que requer investimentos e estudos técnicos.

– É preciso iniciar um projeto conceitual, com estudo das ondas e da incidência na costa, além de encontrar uma areia com granulometria compatível com a nativa da praia. Depois que a obra está pronta, o turismo gera mais recurso do que o valor que foi gasto – diz Rodrigo Barletta, gerente de projetos de uma multinacional de consultoria em engenharia costeira.

No início de novembro, Barletta esteve nos EUA, onde participou de uma conferência sobre gerenciamento de proteção costeira e combate à erosão marinha. De lá, traz o exemplo de Miami e todo Estado da Flórida, onde as praias também sofrem com o constante avanço do mar.

– Desde 1900 eles trabalham nisso. A cada quatro anos, em média, algumas praias são “engordadas” e há um trabalho constante de manutenção. Tem toda uma política de recursos e gerenciamento baseada em normas técnicas.

Em Santa Catarina, a prefeitura de Balneário Camboriú lançou um anteprojeto para o engordamento da Praia Central de 2 a 3 milhões de metros cúbicos de areia, quantidade suficiente para aumentar a orla de 25 para 70 metros, ao custo estimado de R$ 110 milhões. Em Florianópolis, um cálculo preliminar para o aumento da praia de Canasvieiras de 10 para 30 metros aponta um custo de, pelo menos, R$ 30 milhões.

– O que se perde de dinheiro movimentado pelo turismo é muito maior do que aquele investido no engordamento das praias. Tem uma discussão muito grande sobre até que ponto o governo e o cidadão têm que pagar por isso, porque muitas vezes o ganho econômico é localizado. Nada mais natural, e isso ocorre nos países desenvolvidos, que aquelas instituições que se beneficiam daquela parte da praia paguem um imposto a mais ou colaborem com a obra – sugere Pimenta.

O secretário Leonel Pavan esteve recentemente em Alicante, na Espanha, onde viu de perto o resultado do engordamento de uma praia. Apesar de reconhecer os benefícios para os empresários do ramo de turismo, ele acredita que seria uma “aberração cobrar do setor privado”.

– (Os municípios) têm que investir do próprio bolso, porque o retorno vem nos impostos. O engordamento tem que ser feito não só em Balneário Camboriú, mas também em Piçarras, Penha, Navegantes... Precisamos adensar, construir marinas e restaurantes. Danem-se as críticas. Essa visão de alguns ecologistas, salvadores do mundo, é ruim para nós – afirma Pavan.

Pimenta, da UFSC, alerta que esse tipo de projeto precisa ser assessorado por pessoas com formação devida para calcular reestruturas no mar, como oceanógrafos ou engenheiros costeiros:

– Para lembrar de um acidente em que não houve esse envolvimento, temos aquela passarela no Rio de Janeiro, onde as ondas destruíram a ciclovia suspensa.

Expectativa pela temporada

Às vésperas de mais uma temporada de verão, diversas praias atingidas pelo avanço do mar continuam em situação de emergência. Em alguns casos, os decretos das prefeituras municipais já foram homologados pelo Estado e reconhecidos pela União, como em Florianópolis. Os recursos para as obras emergenciais na Capital foram liberados essa semana.

Com prazo de recuperação das praias para 15 de dezembro, uma semana antes do período de maior movimento de visitantes, o trade turístico de Santa Catarina está cauteloso quanto ao prejuízo causado pelas notícias que circulam no Brasil e no exterior.

– Tivemos praias bastante prejudicadas, fiquei impressionado com as imagens que vi. Sabemos da situação financeira restritiva, por isso dificilmente a recuperação será feita completamente até a temporada e vai ficar por conta da própria natureza – comenta Raphael Dabdab, presidente estadual da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel).

De fato, a perspectiva é de que as praias não se recuperem naturalmente até o início da temporada. De acordo com o diretor da Defesa Civil de Florianópolis, Luiz Eduardo Machado, não se pode esperar que a reposição natural de sedimentos aconteça em menos de 60 dias. O trabalho, agora, é fazer a remoção dos escombros e deixar a orla o mais aproveitável possível:

– A limpeza dos escombros será feita assim que o mar recuar, com as equipes da prefeitura. Neste mês, vamos entrar nas praias para promover ao turista a melhor faixa de areia possível, mas é lógico que haverá mudanças no uso das orlas. 

Como apontam climatologistas e oceanógrafos, esses fenômenos extremos irão se tornar mais comuns. Atualmente, Santa Catarina ainda sofre relativamente pouco com o avanço do mar em comparação aos países asiáticos, como Indonésia e Japão (atingidos por tsunamis em 2004 e 2011, respectivamente), ou aos países caribenhos (atingidos por três furacões somente neste ano), mas, segundo o oceanógrafo Felipe Pimenta, é preciso ligar o sinal de alerta especialmente no que diz respeito à relação entre o homem e a natureza:

– A pior influência antrópica é a ocupação desordenada da zona costeira. As regiões de dunas, que absorvem a energia das ondas, têm muitas construções. O maior planejamento do governo, junto à fiscalização do poder público, é sanar esse problema. São questões que envolvem geografia, oceanografia, engenharia, planejamento urbano... Temos que começar a planejar melhor nossas cidades.

mar, faixa de areia, nós
Foto: Arte DC


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