Incêndio complica ainda mais futuro do Hospital de Caridade de São Francisco do Sul - Geral - A Notícia

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Futuro incerto30/10/2017 | 21h39Atualizada em 31/10/2017 | 10h10

Incêndio complica ainda mais futuro do Hospital de Caridade de São Francisco do Sul

Desocupado há mais de cinco anos, instituição que administra patrimônio do antigo hospital busca acordo com a Prefeitura e o Ministério Público

Incêndio complica ainda mais futuro do Hospital de Caridade de São Francisco do Sul Maykon Lammerhirt/A Notícia
Fachada do prédio antes do sinistro Foto: Maykon Lammerhirt / A Notícia


No dia 23 de outubro, antes de ter ocorrido o incêndio que destruiu parte do Hospital de Caridade de São Francisco do Sul, a reportagem de A Notícia teve acesso à parte interna da antiga unidade hospitalar. A intenção era justamente mostrar a situação precária do local desde que as atividades foram suspensas, em 30 de setembro de 2012, e o futuro da unidade tornou-se uma incógnita.

Logo na entrada, pedaços de gesso da forração caídos no chão indicavam infiltração no telhado. O assoalho também apresentava sinais de desgaste. Um pouco mais adiante, vidraças quebradas e janelas danificadas mostravam que o local era alvo de vandalismo.  

Quem esteve do lado de dentro e viveu o cotidiano do hospital quase não acredita no que vê. A unidade que atendia pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e chegou a ser administrada pela Prefeitura entre abril de 2009 e outubro de 2011, a partir de um termo de ajustamento de conduta (TAC) firmado com o MP, hoje parece um paciente em estado terminal.

O setor que está em melhores condições é o da antiga maternidade. Ali, as paredes continuam “vivas”. Pintadas na cor rosa, elas transmitem uma sensação de aconchego. Boa parte da população francisquense nasceu no Caridade e passou pelas mãos da parteira Maria do Carmo Vieira, a dona Carmem, como gosta de ser chamada, hoje com 80 anos de idade.

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A paixão de dona Carmem pelo hospital, pelo ofício e pela maternidade sempre extrapolou limites. Tanto que o maior orgulho dela é dizer que fez mais de 36,4 mil partos durante os 40 anos em que atuou como parteira.

– Eu vivia aqui dentro do hospital, morava em um quartinho. Sempre quis fazer o que fiz e sou muito grata por isso. Cheguei no Caridade com 17 para 18 anos e saí quando ele fechou. Foram mais de 40 anos como parteira e outros 12 como voluntária. Isso aqui sempre foi a minha vida – revela dona Carmem, emocionada.

Com passos firmes, ela não se cansa de mostrar cada cantinho da antiga maternidade, sempre levando em seus braços um livro com dezenas de páginas e de fotografias, todas devidamente datadas e documentadas. É a forma que a parteira encontra para resguardar o passado e projetar o futuro da instituição. Seu sonho é ver o prédio do Hospital de Caridade novamente em funcionamento e a sua história contada em uma obra literária, cujo título será Memórias de uma parteira.


Ação na Justiça preocupa administradores
A ação na Justiça que impede o uso dos recursos do Hospital de Caridade se deve a um suposto esquema de superfaturamento na cobrança de planos de saúde. A denúncia foi feita pela Prefeitura em 2011, o que determinou a saída dela do controle da instituição. Como represália, o Executivo, à época, decidiu suspender o repasse mensal de R$ 203 mil à Venerável Ordem Terceira. Com 90% do atendimento coberto pelo SUS, o hospital não conseguiu mais se reerguer.

A unidade contava com duas salas de cirurgia, 35 leitos pré-operatórios e de maternidade e 40 leitos de internação em clínica médica totalmente equipados. Muito pouco disso restou. Alguns equipamentos estão guardados em salas fechadas do prédio, mas outros acabaram roubados ou destruídos. Situação que deixa os ex-colaboradores do hospital ainda mais tristes:

– Eu fazia de tudo um pouco. Construí a capela, arrumava o forro, o telhado, colocava vidros. Hoje, quando vejo o prédio nessa situação, dói muito – diz Antônio Porto, 79 anos, voluntário da entidade.


Uso turístico do prédio é uma possibilidade
Para o procurador da Venerável Ordem Terceira, José Ledoux Oliveira, o Juca, o poder público deveria tomar a frente e salvar o patrimônio do Hospital de Caridade, além de dar a ele condições de uso novamente, ainda que para outras finalidades. Uma das propostas apresentadas à Prefeitura é a de locar a parte mais conservada, no setor onde ficava a maternidade, para clínicas médicas particulares.

Outra sugestão é instalar uma unidade da Polícia Militar no prédio anexo ao principal, garantindo assim mais segurança ao local. De acordo com o prefeito Renato Gama Lobo, a possibilidade mais viável, no momento, é a de ceder o espaço a uma rede de hotéis, usando parte da estrutura para uma escola de hotelaria e a outra para hóspedes. Na opinião de Gama Lobo, além de ter uma vista privilegiada, o prédio reformado, com recursos da iniciativa privada, poderia virar ponto turístico e fomentar o setor na cidade.

– Já conversamos com um grupo hoteleiro e eles ficaram de avaliar. É uma possibilidade de darmos um uso adequado para um prédio histórico como o do Hospital de Caridade – disse.


Confira a galeria de fotos


O início e a decadência
O Hospital de Caridade foi fundado em 2 de outubro de 1859, época em que a Venerável Ordem Terceira chegou a São Francisco do Sul. A primeira tentativa de tocar uma unidade hospitalar na região ocorreu em um local conhecido como morro do Hospício, onde havia ruínas de uma igreja de pedra.

Como a estrutura já estava precária, o atendimento acabou iniciando em uma casa na Ponta da Pedreira, próximo ao porto. Anos depois, mudou de endereço para uma segunda casa próxima ao Museu do Mar. Mais tarde, em meados de 1915, foi construído o prédio no alto de um morro, na rua Barão do Rio Branco, no bairro Acaraí, onde funcionou até 2012.

Hoje, a cidade conta com o Hospital e Maternidade Nossa Senhora da Graça, que foi inaugurado meses antes do fechamento do Caridade, em julho de 2012. Foram quatro anos de obras e aproximadamente R$ 12 milhões investidos, com recursos do Estado, do município e contribuições de empresas locais.

Com 3,7 mil metros quadrados divididos em três blocos, o hospital tem pronto-socorro, centro de diagnósticos, centro cirúrgico, internação – 38 quartos com capacidade para dois pacientes cada – e uma farmácia. A gestão da unidade é feita pela organização social Cruz Vermelha do Brasil.


Confira imagens do incêndio


Bombeiros Voluntários de São Francisco do Sul
Foto: Divulgação / Bombeiros Voluntários de São Francisco do Sul
Bombeiros Voluntários de São Francisco do Sul
Foto: Divulgação / Bombeiros Voluntários de São Francisco do Sul
Bombeiros Voluntários de São Francisco do Sul
Foto: Divulgação / Bombeiros Voluntários de São Francisco do Sul


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