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Comportamento15/07/2017 | 05h00Atualizada em 19/07/2017 | 11h48

Conheça ações que estimulam a economia compartilhada em Santa Catarina

Ações em Florianópolis incentivam trocas de bens e tempo como alternativa ao consumismo e busca por qualidade de vida 

Conheça ações que estimulam a economia compartilhada em Santa Catarina Betina Humeres/DC
A artesã Carina Zagonel criou o Projeto Armário Coletivo para estimular trocas entre a vizinhança Foto: Betina Humeres / DC

"Deixe aqui o que você não quer mais, mas que pode servir para outros". Foi com esse convite que a artesã Carina Zagonel iniciou um projeto de economia compartilhada que já está presente em sete bairros de Florianópolis. Tudo começou há três anos, quando pegou um par de tênis apertado e deixou na frente de casa, no bairro Vargem Pequena, no Norte da Ilha de SC, junto com a placa.

Para surpresa de Carina, o calçado sumiu em menos de uma hora e outros objetos começaram a aparecer na calçada. Foi assim que surgiu a ideia do Armário Coletivo, espaço para compartilhar roupas, ferramentas, mudas de plantas, brinquedos e outros objetos com a comunidade.

— As pessoas são totalmente livres na frente do armário. Podem pegar tudo, se quiserem. Mas o comportamento muda depois que percebem novos objetos ali todos os dias. Elas se acalmam e a energia muda na vizinhança. O armário transforma o ambiente para todos, não só para quem não tem dinheiro para comprar.

Carina explica que o espaço é administrado pela própria comunidade. Hoje são sete armários distribuídos pela Ilha — o oitavo será inaugurado no próximo dia 30, na Lagoa da Conceição. A missão é ter um espaço em cada bairro da cidade. Além de disponibilizar os pontos de compartilhamento, uma equipe realiza conversas com as comunidades para conscientizar que as trocas e doações podem e devem ser feitas sempre, não só no inverno ou após desastres naturais.

— O armário é para todos. Eu não compro roupa para minha família há dois anos, todas as minhas coisas são por meio do compartilhamento. Já compramos muitas coisas nessa vida, não faz sentido continuarmos correndo atrás de dinheiro se temos outras alternativas.

Os armários são feitos com reuso de materiais como madeira de demolição e, este ano, contam com a participação voluntária de alunos de Design de Produto do Instituto Federal de Santa Catarina (IFSC) para a montagem. A iniciativa também foi contemplada pelo edital do Programa de Apoio a Projetos (PAP) da Associação Comercial e Industrial de Florianópolis (Acif), pelo qual recebe recursos financeiros.

Redes impulsionam o compartilhamento

O professor Armando de Melo Lisboa, do Departamento de Economia e Relações Internacionais da UFSC, explica que economia compartilhada é uma tendência forte atualmente, já que assim os recursos que deixamos ociosos no nosso dia a dia são melhor aproveitados. Por trás dessa ideia, está a possibilidade de reduzir o desperdício, aumentar a eficiência no uso dos recursos naturais, combater o consumismo e até reduzir a desigualdade social. 

— A economia compartilhada pressupõe o uso de uma plataforma digital, através da qual conseguimos uma otimização fantástica do uso de recursos. O Uber é um bom exemplo disso, além de iniciativas como caronas e grupos para organizar viagens, trocas de bens ou tempo — diz Lisboa.

O professor explica que o Armário Coletivo é ainda mais diferenciado, já que é uma ação concreta dentro das próprias comunidades. Nesse caso, as tecnologias são utilizadas para divulgar a informação e incentivar a construção de um movimento em torno da iniciativa.

— Temos a tendência de achar que só podemos ter uma moeda, essa visão unitária atrapalha, porque o mundo é muito mais plural. Onde temos grupos com confiança, podem existir outras formas de troca, como as moedas sociais ou comunitárias.

Um exemplo disso são os Bancos de Tempo que existem no mundo. Em Florianópolis, mais de 2 mil pessoas estão cadastradas com o objetivo de realizar um intercâmbio entre talentos e necessidades, baseados em valores de qualidade de vida. Os participantes do banco trocam suas habilidades por horas de serviço. O projeto é regido por regras e respeito mútuo entre as pessoas. Todas as transações são computadas para que o tempo seja uma moeda solidária.

 Banquinho de tempo e o protagonismo infantil

Quem ingressa em um Banco de Tempo é estimulado a pensar sobre os talentos que pode oferecer para a comunidade. A intenção é que a pessoa busque por habilidades que vão além da profissão formal. Foi pensando dessa forma que a pedagoga e cineasta Lesly Monrat, mãe de Tales, 5, e Agnes, 2, incentivou a criação de um Banquinho de Tempo.

Lesly Monrat estimula a filha Agnes, de 2 anos, a descobrir suas habilidades Foto: Betina Humeres / DC

— Ao me ouvir falar no Banco de Tempo, meu filho também teve o interesse de participar e manifestar seu potencial. Por conta dele surgiu a ideia de criar o Banquinho de Tempo, onde existe um trabalho de autoestima por meio do protagonismo infantil. Já realizamos um festival para as crianças, onde elas eram as "oficineiras", o que gerou um profundo sentimento de capacidade e crença no talento interno — explica.

Tales Monrat, 5 anos, mostra seu talento de fazer bombas de sementes Foto: Betina Humeres / DC

Durante a experiência, as crianças puderam ensinar aquilo que sabiam e gostavam. Foram ofertadas oficinas de massinha caseira de modelar, subida em pirâmide de bambu, exploração ecológica do ambiente, balé, entre outros talentos. Dessa forma, Lesly explica que os benefícios proporcionados vão muito além da economia, já que as interações fazem com que as pessoas se redescubram e criem laços de amizade.

Confira iniciativas de economia compartilhada:

Armário Coletivo

Foto: Betina Humeres / DC

A iniciativa foi criada há três anos pela artesã Carina Zagonel e está presente em sete bairros de Florianópolis: Vargem Pequena,  Canasvieiras, Saco Grande, Costa de Dentro, Rio Tavares, Ratones e Itacorubi. A intenção é proporcionar um espaço para que a comunidade doe e receba todos tipo de objetos, como roupas, calçados, mudas de plantas e ferramentas. Já foram registradas até mesmo doações de uma bicicleta e um carrinho de bebê. É possível acessar a localização de todos os armários por meio de um mapa: www.bit.ly/armariocoletivo

Eu aceito, eu ofereço - Floripa

O grupo no Facebook, criado pela nutricionista Alaane Benevides em janeiro deste ano, conta com mais de seis mil mulheres. Ela explica que conheceu a ideia na Bahia e decidiu reproduzir em Florianópolis. O grupo é voltado para mulheres e busca estimular a sororidade. No grupo podem ser oferecidos serviços ou objetos, mas o objetivo não é apenas a troca de bens materiais, conforme Alaane, o mais importante é a empatia, por meio da qual surgem amizades, parcerias e encontros. A maior ação realizada no grupo foi a organização do casamento de um casal de imigrantes haitianos, tudo foi doado, como o vestido, terno, bolo e serviço de fotografia.

Caronas

Além da troca de objetos, muitas cidades têm seus grupos exclusivos para caronas. Um dos maiores é o Carona Floripa, com 34 mil membros. Quem realiza rotas frequentes também pode buscar por opções como Carona Floripa/Lages, com mais de 11 mil pessoas. Para localizar um grupo, basta digitar "carona" no campo de busca do Facebook e conferir as opções disponíveis.

Banco de Tempo 

O tempo é a moeda de troca do Banco, que tem como missão promover o intercâmbio entre talentos e necessidades da comunidade de forma responsiva baseada nos valores universais de qualidade de vida. As pessoas cadastradas podem oferecer seus serviços em troca de tempo e todas as transações são computadas em uma planilha. Diversas cidades têm Bancos de Tempo que, geralmente podem ser acessados através de grupos no Facebook. Antes de participar, é importante estar ciente das regras do grupo - envolver dinheiro nas transações, por exemplo, é proibido.

Tem açúcar?

O aplicativo foi criado para facilitar o empréstimo de objetos entre vizinhos e a colaboração nas vizinhanças. A ideia é incentivar o compartilhamento entre a comunidade e evitar o consumo desnecessário de produtos. Usando o celular, é possível pedir ou oferecer algum produto ou objeto, por meio da geolocalização, o app localiza mensagens na vizinhança. O aplicativo está disponível na Google Play (www.bit.ly/tem-acucar) e na Apple Store (www.bit.ly/tem-acucar-apple). 

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