Ângela Bastos: "Enquanto as perguntas são feitas, mais uma mulher é assassinada" - Geral - A Notícia

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Violência contra mulher06/07/2017 | 15h59Atualizada em 07/07/2017 | 16h28

Ângela Bastos: "Enquanto as perguntas são feitas, mais uma mulher é assassinada"

Repórter especial do DC reflete sobre o alto número de mortes de mulheres em Santa Catarina

Na tarde de terça-feira, recebi das mãos da delegada Patrícia Maria Zimmerman D'Avila a sangrenta estatística dos homicídios praticados contra mulheres em Santa Catarina. Até o final de junho, foram 49 mulheres mortas. Quatorze casos definidos como consequência de "crime passional" e 18 como "violência doméstica". Os números incluem ainda uma vítima no trânsito (aquele caso do atropelamento pelo Camaro na praia dos Ingleses, em Florianópolis), uma no tráfico (turista gaúcha atingida por um tiro na noite de Réveillon, também no norte da Ilha), uma por desavença e outra sem motivo informado. A delegada é coordenadora das Delegacias da Mulher.

Ontem à tarde, enquanto eu acompanhava no Plenário da Assembleia Legislativa de Santa Catarina o pronunciamento da deputada Luciane Carminatti (PT) sobre a reportagem Sozinhas – histórias de mulheres que sofrem violência no campo, publicada no último fim de semana no DC, recebi a informação: mais uma mulher morta. O corpo de Fabiana Diavan Favero, 37 anos, foi encontrado dentro de um armário, no apartamento onde morava, no Centro de Chapecó. Tinha uma perfuração no lado esquerdo do peito e um corte na garganta. Até o momento em que escrevo o texto, o caso permanece em investigação e nada foi divulgado a respeito do motivo ou suspeito.

O que temos de real é que mais uma mulher foi assassinada em Santa Catarina. A título de comparação, no primeiro semestre de 2016 foram 61 assassinatos de mulheres. No mesmo período de 2015, 57. Os números mostram que os homicídios dolosos – aqueles com a intenção de matar – respondem por mais da metade dos casos. Isso significa que o matador realmente queria dar fim à vida da mulher. Pelas estatísticas que a delegada me repassou, não restam dúvidas de que aquela violência popularmente chamada de "doméstica" também é pilar dessa realidade que está cada vez mais inaceitável.

Desde que Sozinhas foi publicada, tenho circulado e ouvido muitas manifestações de indignação pelo que foi apresentando. Muita gente questiona como pode um Estado que se faz valer de índices de desenvolvimento humanos tão positivos não conseguir responder a uma situação tão brutal? Como segurança pública e Justiça pretendem partir para o enfrentamento? Enquanto as perguntas são feitas — e isso também é positivo por tirar o tema envolvendo as camponesas da invisibilidade —, mais um assassinato. Não foi no campo, mas em uma região que apresenta elevados índices de violências.

Em um trecho de Sozinhas, uma educadora que pesquisa o tema diz não aceitar a definição de crime passional: "Existe crime de ódio". Outra alerta que em se tratando de violência contra a mulher, todo mundo tem que meter a colher: escola, igreja, vizinhos, clubes, associações. Ainda ontem à noite, recebi uma mensagem de uma colega de profissão e amiga de Fabiana, esta vítima mais recente dessa violência. Triste e assustada, ela falou sobre o convívio, a amizade, a história construída também por ambas terem filhos adolescentes da mesma idade. Despediu-se assim:

— É um número muito próximo, muito próximo.

É mesmo. Cada vez mais próximo dos catarinenses. Tanto do campo quanto das cidades.

* Ângela Bastos é repórter especial do Diário Catarinense, reconhecida como Jornalista Amiga da Criança pelo UNICEF e pela ANDI - Comunicação e Direitos e vencedora do Prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos.


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