Acidentes de trabalho no primeiro semestre deixaram pelo menos 11 vítimas graves e duas fatais no Vale - Geral - A Notícia

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Marcas da Dor08/07/2017 | 12h23Atualizada em 08/07/2017 | 12h26

Acidentes de trabalho no primeiro semestre deixaram pelo menos 11 vítimas graves e duas fatais no Vale

Só em Blumenau desde 2012 já foram registradas 4,5 mil ocorrências do gênero

Acidentes de trabalho no primeiro semestre deixaram pelo menos 11 vítimas graves e duas fatais no Vale Patrick Rodrigues/Agencia RBS
Alexandre Souza da Silva, 31 anos, sofreu queimaduras de primeiro e segundo graus em parte das costas e nas pernas. Foto: Patrick Rodrigues / Agencia RBS

A pele ainda está sensível e precisa de hidratação constante, por isso o frasco de óleo de girassol tem que estar sempre à mão. As manchas avermelhadas apontam a área atingida pelo vapor d¿água que queimou 45% do corpo do trabalhador e que ainda estão sendo tratadas. Todo cuidado é pouco já que qualquer pressão pode romper a camada superficial da pele e causar um ferimento mais grave. Quem vê Alexandre Souza da Silva, 31 anos, caminhando e cuidando do filho Raphael Henrique, dois anos, pela casa onde a família mora no bairro Figueira, em Gaspar, não consegue imaginar o susto pelo qual ele passou há pouco mais de três meses, quando sofreu um acidente ao manejar uma máquina no trabalho.

Alexandre trabalha em uma empresa têxtil em Gaspar e opera um equipamento de tingimento de malha – que funciona com pressão e água em temperaturas elevadas. A máquina onde ele se acidentou não é a que ele costuma trabalhar, conta, e quando o problema ocorreu ele cumpria a folga de um colega:

– É assim, quando um está no descanso o outro opera a máquina naquele momento. O acidente aconteceu quando fui abrir a máquina. Primeiro abri a parte para sair a pressão, e quando parou de sair o vapor (sinal de que não haveria mais pressão interna) eu abri a tampa, mas ainda tinha pressão.

O equipamento lançou uma nuvem de vapor d¿água sobre o trabalhador, que correu o mais longe que pôde para evitar que o acidente fosse ainda mais grave, já que a máquina arremessou a malha fumegante para fora. Mesmo assim, Alexandre teve queimaduras de primeiro e segundo graus em parte das costas e nas pernas. Foi socorrido pelo sogro e por um colega de trabalho, ficou 20 dias internado e agora se recupera em casa.

Passou recentemente por perícia médica e precisa de pelo menos mais dois meses afastado da profissão para ter condições de voltar ao trabalho. Ele diz que o empregador está dando a assistência que precisa e que pretende voltar ao trabalho assim que for possível. A empresa já havia sofrido uma interdição por outro acidente semelhante, do qual o trabalhador acidentado ainda se recupera, e obteve na Justiça autorização para voltar a funcionar

Ilmar Lima de Souza, também funcionário do setor têxtil, não teve a mesma "sorte" de Alexandre e se tornou uma vítima fatal dos acidentes de trabalho. Assim como o colega, ele operava o maquinário de tingimento em empresa de Blumenau quando uma válvula teria se desprendido do equipamento e atingido o operário, segundo informações do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias de Fiação e Tecelagem de Blumenau (Sintrafite).

Com o impacto, ele teria caído de frente para a saída do vapor d¿água e, diferente de Alexandre, não conseguiu fugir e foi retirado do local por um colega com queimaduras em 75% do corpo. Depois de 11 dias não resistiu aos ferimentos e morreu no Hospital São José, em Joinville, onde recebia tratamento específico para as lesões.

Números apontam: acidentes 
   mais graves e frequentes

Os acidentes causados por efeitos de altas temperaturas como o que matou Ilmar e feriu Alexandre estão entre os 10 tipos de lesões mais frequentes em Blumenau de acordo com o levantamento feito pelo Observatório Digital de Saúde e Segurança do Trabalho (Smartlab). É uma espécie de laboratório de pesquisa sobre as condições de trabalho no Brasil, instituído por meio de um acordo de cooperação técnica internacional entre o Ministério Público do Trabalho (MPT) e a Organização Internacional do Trabalho (OIT).

As estatísticas se baseiam nas Comunicações de Acidentes de Trabalho (CATs) que precisam ser registradas sempre que um trabalhador sofre uma lesão no exercício de sua função. Segundo o levantamento do Smartlab, foram registradas 4.569 CATs em Blumenau entre 2012 e 2016 (última data de atualização disponível no sistema). Destas, 144 foram de queimaduras ou escaldaduras.Dentro deste cenário é possível visualizar pelo menos duas informações fundamentais: as lesões mais frequentes e os setores onde mais ocorrem acidentes.

Em Blumenau, os três principais ferimentos que atingiram os trabalhadores nos últimos cinco anos foram contusão/esmagamento, com 1.177 casos registrados; corte/laceração/punctura (furo ou "picada"), com 847 registros; e distensão/torção, com 539 casos. A maior parte destes acidentes ocorreu em atividades de atendimento hospitalar (880), acabamentos em fios, tecidos e artefatos têxteis (435) e no comércio varejista de mercadoria, com predominância de gêneros alimentícios – hiper e supermercados (365).

Crise precariza condições,
 aponta juíza do trabalho

A juíza Desirre Bollmann, titular da 1ª Vara do Trabalho de Blumenau, explica que cerca de 30% das ações que tramitam na cidade são referentes a acidentes de trabalho, incluindo as doenças ocupacionais e os acidentes propriamente ditos. Casos como os de Alexandre e Ilmar geralmente se tornam processos devido à gravidade da situação e aos valores de indenização que este tipo de ação alcança.

Ela destaca que acidentes que envolvem queimaduras têm a possibilidade de ser causados por falta de manutenção.– É uma hipótese, mas a gente vê muito acontecer esse tipo de problema principalmente em períodos de crise. É aquela coisa: a empresa entra em crise, começa a deixar algumas coisas de lado ou esperar mais tempo para fazer uma manutenção, e aí os acidentes acontecem – alerta.

Ela ressalta que há casos em que a culpa pelo acidente é exclusiva do trabalhador, mas que na maioria das vezes a responsabilidade é da empresa:– O ser humano é sujeito a falhas, então é preciso que a condição de trabalho seja segura, que a empresa invista nessas condições seguras, porque em algum momento essa falha pode ocorrer.

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