Relatório confirma versão dos pais de Heloisa. Ambulância não foi abastecida pela família por 'questões legais' - Geral - A Notícia

Versão mobile

Investigação16/06/2017 | 18h05Atualizada em 16/06/2017 | 19h06

Relatório confirma versão dos pais de Heloisa. Ambulância não foi abastecida pela família por 'questões legais'

Ela morreu no sábado e esperou cerca de 15 horas por uma transferência de hospital. A demora seria por por falta de combustível em ambulâncias

Relatório confirma versão dos pais de Heloisa. Ambulância não foi abastecida pela família por 'questões legais' Reprodução / Reprodução/Reprodução
Relatório tem setem páginas e foi assinado por diversos médicos  Foto: Reprodução / Reprodução / Reprodução

Um relatório assinado pela Secretaria Municipal de Saúde de Mafra e por médicos, enfermeiros e coordenadores do Hospital São Vicente de Paulo confirma a versão dos pais da pequena Heloisa Mathias Lisboa sobre a demora na transferência dela para o Hospital Infantil de Joinville. O documento, que tem sete páginas, foi entregue a família da criança no dia 13 de junho e descreve o atendimento da paciente da chegada ao hospital até o início da transferência, efetivada mais de 12 horas depois da primeira tentativa de contato da equipe médica com o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU).

Polícia de Mafra investiga morte de bebê após 15 horas de espera por ambulância

Secretaria Estadual de Saúde quer reduzir o número de unidades do Samu

Conforme o relatório, a menina foi avaliada no Pronto Atendimento (PA) de Mafra às 4h20 da manhã de quarta-feira (7), com a hipótese diagnóstica de broncopneumonia. Na sequência, uma pediatra avaliou a criança e a internou no Hospital São Vicente de Paulo com diagnóstico de laringotraqueobronquite e broncopneumonia conforme evolução e prescrição médica as 9h59min. A paciente teria permanecido estável e melhorou seu estado geral ao longo do dia, mas no início da noite apresentou broncoespasmo e maior esforço respiratório. Ela passou por outras três avaliações médicas até a manhã do dia 8 de junho, dia em que a transferência foi solicitada.

OPINIÃO: 'Fatalidade? É claro que não! Se não fosse a burocracia e a falta de organização a morte poderia ser evitada', diz professor sobre morte de bebê

O documento destaca que a equipe médica avaliou a necessidade de transferir a menina para um hospital especializado em pediatria, conforme aponta o relatório de enfermagem das 9h50min de quinta-feira. A decisão foi tomada `devido piora e instabilidade do quadro clínico da menor¿. O relato da equipe médica diz ainda que os pais foram avisados da necessidade de transferência urgente `enquanto a criança ainda estava estável, antes de ocorrer uma piora maior do quadro clínico e uma instabilidade respiratória e hemodinâmica¿.

A parte burocrática, segundo a instituição, começou às 8h21min com a solicitação de um leito para a menina no Hospital Infantil Dr. Jeser Amarante Faria, em Joinville. O pedido foi aceito com a condição de que houvesse leito disponível para receber a criança. Foi disponibilizada uma vaga no setor de internação pediátrica. O comunicado do aceite foi feito para a Central de Regulação (SISREG), que autorizou a transferência.Na sequência, por volta das 10h15, a equipe do hospital aponta ter iniciado as tentativas de contato com a regulação regional do SAMU/Joinville. As tentativas davam ocupadas e apenas 45 minutos depois o contato foi efetivado. A ligação foi possível após contato no número telefônico na base da Polícia Militar de Joinville, que transferiu o telefonema.

A primeira resposta, conforme descrito no relatório, foi dada por um médico do SAMU. Ele teria afirmado à equipe que `possivelmente a ambulância da base de Mafra estaria sem combustível, no entanto iria confirmar¿ a informação. O médico teria solicitado ainda o registro de todos os médicos envolvidos no atendimento e transferência da criança, prática que a equipe médica do Hospital São Vicente diz ter estranhado, `pois esta nunca havia sido solicitada antes¿. Essa solicitação gerou, conforme os médicos, um atraso de cerca de 40 minutos para a liberação da viatura e pelo menos oito ligações.

Às 11h50 o hospital voltou a conversar com o representante do SAMU e o mesmo teria respondido que `não havia combustível e que as ambulâncias de Mafra e Canoinhas estavam baixadas pela falta de combustível e o mesmo disse que era para entrar em contato com a Secretaria de Saúde para providenciar ambulância para o transporte¿.A pediatra que atendia a criança teria, conforme o relatório, se oferecido para pagar o combustível, mas o mesmo explicou que `não poderia aceitar pois, dependia de autorização pois o abastecimento era feito com cartão corporativo da Organização Social Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina (SPDM).

Houve também tentativas de contato com a coordenadoria do SAMU da região de Joinville, mas segundo informações recebidas às 12h16 pela Rede de Urgência e Emergência Norte e Nordeste, o responsável pelo SAMU na região estaria em uma reunião em Florianópolis para `discutir a falta de repasse dos recursos do Estado para a SPDM¿, que gerencia o serviço de transporte do SAMU em Santa Catarina.

O relatório aponta que quase duas horas depois e com a informação de havia problemas no abastecimento das ambulâncias, um dos médicos reguladores do SAMU solicitou que a equipe médica informasse o quadro clínico da paciente para que o transporte aeromédico fosse acionado. A solicitação ocorreu às 14h10 e havia sido confirmada, mas cerca de 10 minutos depois, um novo comunicado: o transporte aéreo havia sido abortado sob a justificativa de que não haveria teto para pouso em decorrência das características do tempo.

A médica de Mafra, ao ser informada sobre a falta de combustível pela gerência regional de saúde se ofereceu para pagar os custos, mas teve o pedido negado. Os pais foram direcionados ao Ministério Público da cidade. Ainda segundo o documento, o pai da menina chegou a ir pessoalmente na base do SAMU para informar que pagaria pelo combustível que faltava para a ambulância, mas teve o pedido negado "por questões legais" por Carlos Eduardo Pereira Carpes, apontado como coordenador em Florianópolis. 

As tentativas de conseguir o transporte seguiram e, por volta de 17h, o quadro clínico de Heloise piorou. Ela teve uma crise de broncoespamo instensa e precisou ser intubado. Às 18h veio a confirmação de que uma ambulância de Rio Negrinho chegaria em Mafra às 19h40. A equipe do hospital relata todo o atendimento prestado e diz ter mantido o SAMU atualizado sobre a extrema gravidade da situação da criança. Ainda assim, a ambulância não chegou ao horário marcado. Quando questionado, o SAMU informou que foi necessário realizar um outro atendimento com o veículo e que ele levaria mais uma hora para chegar. Às 21 horas, após ligar para Rio Negrinho, o hospital foi informado de que a ambulância já estava em Mafra, mas sem a equipe médica necessária.

Foi neste momento que hospital e família cogitaram um transporte particular. Mas o SAMU então informou que uma ambulância de Canoinhas estaria à disposição. Devido ao risco do transporte, a opção foi aguardar pelo SAMU que chegou apenas às 22h53 em Mafra e sem combustível suficiente para a viagem. Por isso, a menina seria levada para Rio Negrinho e transferida para uma segunda ambulância, de Jaraguá do Sul. Mais uma vez, a equipe médica se ofereceu para pagar pelo combustível, evitando mais transtornos na viagem, mas teve a solicitação negada. 

Ao ser colocada na ambulância, a menina apresentou piora e precisou ser levada de volta para o hospital para que o quadro fosse estabilizado. Só depois de apresentar melhora, Heloisa foi colocada na ambulância que a levaria até Rio Negrinho, onde seria transferida de veículo.

O documento, assinado por sete profissionais, entre eles dois pediatras, o coordenador geral do hospital e a secretaria de saúde de Mafra não relata a segunda parte do transporte, quando Heloisa precisou ser trocada de ambulância antes de chegar a Joinville. 


Siga A Notícia no Twitter

  • anonline

    anonline

    Jornal A NotíciaPessoas com deficiência física e motora ainda enfrentam desafios na acessibilidade em Joinville  https://t.co/TO0F1PSsgj #LeianoANhá 14 minutosRetweet
  • anonline

    anonline

    Jornal A NotíciaSenai inaugura novos institutos em Joinville nesta quinta-feira https://t.co/N804BC87Rv #LeianoANhá 17 minutosRetweet
A Notícia
Busca
clicRBS
Nova busca - outros