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Consequências14/06/2017 | 14h24Atualizada em 14/06/2017 | 16h22

Queda nos ganhos após chegada da Uber faz taxistas devolverem licenças em Florianópolis

Nove placas já foram devolvidas à prefeitura desde setembro e outros 30 carros foram retirados de circulação

Queda nos ganhos após chegada da Uber faz taxistas devolverem licenças em Florianópolis Diorgenes Pandini/DC
Nove placas já foram devolvidas à prefeitura desde setembro e outros 30 carros foram retirados de circulação Foto: Diorgenes Pandini / DC

Queda nos rendimentos estimada em 50%, 60% ou até mesmo 70%. Horas parados no ponto à espera de um passageiro. Falta de uma perspectiva de melhora. Desde a chegada da Uber em Florianópolis, em setembro do ano passado, essa é a realidade vivida pelos taxistas da Capital. A concorrência com o aplicativo de transporte, que oferece corridas até 40% mais baratas, já fez com que muitos motoristas desistissem do táxi.

Não são apenas os taxistas que estão vendo seus ganhos minguarem. Permissionários, os chamados donos das placas, que recebem da prefeitura a permissão para explorar o serviço de táxi e, em sua maioria alugam os carros para outros condutores auxiliares, também estão sentindo o baque. Nos últimos meses, nove deles já devolveram as licenças para a prefeitura e ao menos outros 30 tiraram os carros de circulação por conta própria, segundo o sindicato da categoria (Sinditáxi)

Esse desânimo é latente no ponto da Praça Santos Dumont, na Trindade, até pouco tempo o mais lucrativo da cidade. Por lá, em meio ao cenário de desesperança, quase todos pensam em mudar de carreira. É o caso de Alexsandro Ribeiro, que trabalha há três anos como taxista. Antes da chegada da Uber, ele costumava ganhar cerca de R$ 3 mil por mês. Hoje, esse valor não passa de R$ 1,2 mil.

— Não tenho mais ânimo para levantar e vir trabalhar. Essa semana ainda fico no táxi, mas na próxima eu já vou no Sine (Sistema Nacional de Emprego) atrás de outra coisa — afirma.

Situação semelhante é vivida pelo colega Carlos Junior. Ele conta que já se inscreveu em ao menos cinco vagas oferecidas em um site. Segundo ele, antes,um táxi na Trindade conseguia ganhar até R$ 600 brutos em dias bons. Agora, quando chega a R$ 200 já é uma alegria.

— Antes, a maioria fazia uma escala de 24 horas de trabalho por 24 horas de folga. Agora, muitos estão trabalhando 15 ou 16 horas todos os dias para conseguir pelo menos o que comer — diz. 

Para Diego Collet, que trabalha com táxi há seis anos, uma das alternativas seria virar motorista da própria Uber, porém ele conta que não tem um carro adequado aos padrões pedidos pelo aplicativo. Na última segunda-feira, em conversa com o DC, ele apontou para o seu bloquinho de controle e mostrou que havia feito apenas três corridas pequenas das 6h30 até as 11h.

— Eu também estou pensando em largar. Nosso ganho caiu mais da metade e, além disso, a gente nunca tira férias. Em seis anos, só tirei 10 dias para a minha lua de mel — conta.

Motoristas de táxis precisam esperar por horas para conseguir um passageiro Foto: Diorgenes Pandini / DC

Desalento também entre permissionários

Entre os donos de placas, também impera a desesperança. Quando eles alugam os carros para que outra pessoa preste o serviço, em geral, o ganho se divide entre 30% para o motorista auxiliar e 70% para o permissionário, que arca com a manutenção do veículo e todos os custos, do combustível ao imposto. Mas também há quem dirija o próprio carro, como Jaodfren Farias, que trabalha no ponto da Rua Francisco Tolentino, no Centro.

Ele foi um dos aprovados no concurso público de 2015 que colocou 210 novos táxis nas ruas. Largou um emprego de gerente comercial em uma empresa de máquinas para se dedicar exclusivamente ao novo serviço.

— Hoje me arrependo — diz.

Segundo ele, o faturamento líquido mensal caiu 60%, para menos de R$ 3 mil. Farias não se diz contra a Uber, mas pede uma regulamentação do serviço, para haver uma "concorrência leal". Hoje, os táxis têm de passar por uma vistoria a cada seis meses e são cobradas taxas e impostos para prestar o serviço — que nem a Uber, nem os motoristas que trabalham com o aplicativo pagam.

— Temos que disputar na qualidade do serviço. No preço, a Uber vai continuar a "dar de relho" — conta.

Taxistas reclamam de "concorrência desleal"  com Uber, que não paga taxas e impostos Foto: Diorgenes Pandini / DC

Regulamentação patina

Projetos para regulamentar o serviço de transporte por aplicativos tramitam desde o ano passado na Câmara de Florianópolis. Ainda na gestão de Cesar Souza Junior, uma comissão chegou a ser formada na prefeitura para debater o tema, porém não houve avanço. Na semana passada, o prefeito Gean Loureiro pediu o arquivamento de um projeto que estava pronto para ser votado no Legislativo. A justificativa é de que emendas descaracterizaram a proposta enviada pelo Executivo em janeiro e que havia incongruências com um projeto que tramita na Câmara Federal sobre o tema.

Segundo o secretário municipal de Mobilidade Urbana, Marcelo Silva, uma nova comissão está sendo formada com representantes da prefeitura, dos taxistas e dos aplicativos de transporte. A ideia é apresentar um projeto à Câmara até o final de julho. No Brasil, o transporte por aplicativos já é regulamentado nas cidades de São Paulo e Porto Alegre.

Silva diz ainda que as nove placas devolvidas pelos permissionários à prefeitura serão repassadas, com o aval da Procuradoria do município, a aprovados que ficaram na lista de espera no concurso de dois anos atrás. Sete das licenças que retornaram ao Executivo são desse último processo seletivo. 

Ao todo, Florianópolis tem 646 táxis. A Uber não informou o número de motoristas atuando em Florianópolis. Disse apenas que são "mais de 50 mil" colaboradores em todo o Brasil.

Melhora no serviço é essencial

Para o professor Daniel Pinheiro, do departamento de Administração Pública da Universidade do Estado de Santa Catarina (Esag/Udesc), o serviço de táxi vive um momento de ajuste. Antes mesmo da chegada da Uber, a crise econômica já havia diminuído o número de clientes. 

— Embora Florianópolis tenha sentido menos a crise do que outros lugares, sempre há um impacto nos serviços e as pessoas acabam segurando um pouco os gastos. Como o táxi geralmente não é a primeira opção de transporte, é uma das primeiras coisas a ser cortada — diz Pinheiro.

O acadêmico acredita que os taxistas continuarão a sofrer com queda de rendimento num futuro próximo, porém o serviço não vai acabar e a melhora passa necessariamente por uma mudança no serviço oferecido ao cliente:

— Com um cenário de concorrência, é natural que ocorra esse ajuste. O tempo de os taxistas tratarem mal os clientes passou. O bom motorista sempre vai ter passageiro.

Pinheiro diz também que pesquisas realizadas na Udesc apontam que o morador de Florianópolis ainda tem uma tendência a escolher o táxi, portanto há terreno a ser reconquistado. Na opinião do professor, o serviço possui a vantagem de ser um transporte teoricamente mais seguro para o passageiro, enquanto a Uber tem os fatores preço e novidade a seu favor.

— O serviço de táxi já teve uma melhora significativa, com a renovação da frota, por exemplo. Porém a postura no serviço ainda deixa muito a desejar — finaliza.

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