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Saúde 20/06/2017 | 06h56Atualizada em 20/06/2017 | 06h56

Campanha da Sociedade Catarinense de Pediatria reabre debate sobre parto em casa 

Iniciativa estimula parto humanizado em hospital e reacende discussão sobre os benefícios e os riscos do nascimento domiciliar planejado

Campanha da Sociedade Catarinense de Pediatria reabre debate sobre parto em casa  Marco Favero/Agencia RBS
Manoella Caetano dos Santos optou pelo parto em casa para reduzir riscos de infecção e intervenções desnecessárias Foto: Marco Favero / Agencia RBS

O aumento no número de partos realizados em casa nos últimos anos em Santa Catarina foi um dos motivos para a campanha lançada em maio pela Sociedade Catarinense de Pediatria (SCP). A iniciativa conscientiza sobre o nascimento seguro, que consiste, conforme o documento, em diversas ações, como realizar pelo menos seis consultas pré-natal e priorizar o parto humanizado em hospitais. A campanha reacende o debate sobre o parto domiciliar planejado, que está longe de ser um consenso entre os profissionais da área da saúde. De um lado, os que criticam o parto em casa pelos riscos ao bebê e à mulher em caso de alguma emergência. No outro, os defensores que citam benefícios como menos intervenções desnecessárias e satisfação materna.

Após o lançamento da Campanha pelo Nascimento Seguro, a Associação Brasileira de Enfermeiras Obstétricas, Neonatais e Obstetrizes de Santa Catarina manifestou nota de repúdio à ação. ¿No entendimento da Associação, a propaganda reforça a cultura do medo e induz as mulheres a acreditarem que o parto assistido no domicílio não seja seguro¿, critica a nota.

A SCP diz que respeita o direito da escolha da mulher, mas com a campanha tem o intuito de alertá-las de que é possível realizar o parto humanizado em uma estrutura de hospital e que esta é mais segura.

Apesar de ter crescido 33,18% no Estado entre 2014 e 2016, o número de partos feitos em casa – este dado inclui todos os nascimentos domiciliares, inclusive os que não foram planejados – ainda é pouco significativo perto do todo. No ano passado, foram 297 no Estado, diante de 95.592 realizados em hospitais, o equivalente a 0,3%.

Quando começou a cursar Medicina na Universidade Federal de Santa Catarina, Manoella Caetano dos Santos, 21 anos, moradora de Palhoça, se interessou pelo tema da humanização. Quando engravidou, ela e o marido decidiram que realizariam o sonho de ter o primeiro filho, Theo, em casa:

– A gente pesquisou bastante. No hospital teriam malefícios como risco de infecção e de intervenções desnecessárias. A gente não estava tomando uma decisão inconsequente, porque a gente estava bem assistido por uma equipe de profissionais. 

No dia 28 de maio, Theo veio ao mundo na cama de Manoella, assistido de perto por uma parteira e uma doula. Também participaram do parto o pai do menino e a avó. No andar de baixo da casa, aguardavam ansiosos o avô e uma tia. 

– É uma sensação indescritivelmente boa. Ter conseguido dá um orgulho e mostra que as mulheres são capazes e que essa força pode ser recuperada – resume a estudante de Medicina.

A médica obstetra Maristela Sens destaca que mulheres que optam pelo parto domiciliar buscam, principalmente, intimidade, autonomia e respeito.

– Buscam vivenciar o parto como um evento não só físico, mas que agrega e impulsiona vivência em outros níveis, como familiar, sexual, cultural, emocional e espiritual.

Segurança é questionada por profissional

Leila Cesário Pereira, presidente do departamento científico de neonatologia da SCP, no entanto, defende que o nascimento é um momento primordial para o recém-nascido e a vida dele depende muito desse primeiro minuto, por isso é essencial estar em um hospital. 

– O aumento do parto domiciliar tem sido uma busca para ter uma humanização do nascimento e junto da sua família, o problema é a falta de segurança. No parto domiciliar o risco do recém-nascido morrer é de duas a quatro vezes maior do que em uma maternidade. 

Thuany Schutz optou por ter o filho Theo de forma humanizada, mas em uma estrutura hospitalar por se sentir mais segura Foto: Marco Favero / Agencia RBS

A pediatra argumenta que é possível ter um parto humanizado em ambiente hospitalar em SC. A experiência da gerente de RH Thuany Silva Schutz, 
29 anos, comprova isso. Nos últimos anos ela estudou sobre o parto normal humanizado, frequentou grupos e fez cursos de gestantes. No dia 2 de maio, o primeiro filho, Theo, nasceu, do jeito que tanto planejara, sem nenhuma intervenção desnecessária, com respeito e rodeado por uma equipe que confiava.

– Como era a primeira gestação eu me sentia mais confortável e segura no hospital, porque qualquer emergência eu saberia que tinha todo aparato ali – diz Thuany.


Ministério alerta para importância de maternidade por perto

O Ministério da Saúde, no documento Diretrizes Nacionais de Assistência ao Parto Normal publicado neste ano, recomenda informar àquelas que nunca tiveram filhos que o parto no domicílio não é recomendado ¿tendo em vista o maior risco de complicações para a criança¿. No entanto, nas outras gestações recomenda que ¿não se deve desencorajar o planejamento do parto no domicílio, desde que se assegure que tenham acesso em tempo hábil a uma maternidade, se houver necessidade de transferência¿.

Já o presidente da Sociedade de Ginecologia e Obstetrícia de SC, Ricardo Maia Samways, é categórico: o parto domiciliar não é recomendado pela instituição, nem pela Federação Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia, devido aos riscos.
– Em qualquer parto pode haver complicação, no posicionamento do bebê, no deslocamento de placenta, de prolapso de cordão, que são fatores não previsíveis e se a mãe não estiver em uma maternidade, esses problemas podem levar tanto a morte dela como do bebê – enfatiza. 

Samnways afirma que em alguns países, principalmente na Holanda, há altas taxas de partos domiciliares, mas lá os hospitais próximos são avisados e há uma ambulância disponível para a paciente:

– Tudo muito diferente do que acontece em SC. A gente não tem estrutura ainda para se ter um parto domiciliar seguro no Brasil. 

Para Samways e Leila é importante desvincular a ideia de parto humanizado do parto domiciliar, já que, segundo eles, as maternidades catarinenses oferecem nascimentos que respeitam o protagonismo da mulher. A presidente da Associação das Doulas de SC, Gabriela Zanella, porém, contesta a informação. Ela diz que algumas regiões, como em Joinville, Florianópolis e Balneário Camboriú, é possível ter acesso à humanização em maternidades, mas ainda não é uma realidade em todo Estado:

– A maior parte de SC ainda oferece poucas opções para as mulheres e estas ainda vivenciam partos muito violentos ou cesáreas desnecessárias. 

Para a médica obstetra Maristela Sens, o principal benefício do parto domiciliar é ser um modelo de assistência íntima e individualizada, ¿e que gera, como demonstram as pesquisas, grande satisfação materna em relação ao parto¿. 

– Outro fator de proteção é o respeito à fisiologia do parto, o que diminui a necessidade de intervenções, que estaria predispondo à maior chance de complicações. Os riscos estão relacionados com alguns casos imprevisíveis e que geram emergências, tanto em casa quanto no hospital, mas que são raros. Mas isso não justifica a recriminação da opção do parto domiciliar, pois assim estaríamos ditando as normas a partir da exceção – completa.

Além de ser uma opção da mulher, o parto domiciliar exige alguns requisitos como uma gestação de risco habitual, ou seja, baixo risco, local adequado, equipe habilitada e planejamento prévio. Por exemplo, mães com diabetes, pressão alta, bebê pélvico (sentado) ou gêmeos não estão aptas a fazê-lo.

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