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Mães compartilhadas14/05/2017 | 08h17Atualizada em 14/05/2017 | 08h17

Mães criam cooperativas para se revezar no cuidado dos filhos pequenos em Santa Catarina

Avessas ao modelo tradicional de creche, mulheres se revezam no cuidado coletivo dos filhos e se unem em rede de apoio em torno dos desafios da maternidade

Mães criam cooperativas para se revezar no cuidado dos filhos pequenos em Santa Catarina Betina Humeres/DC
Mães de Florianópolis formaram em 2015 o coletivo Alecrim para criar a cooperativa, que hoje cuida de 12 crianças  Foto: Betina Humeres / DC

Quem pode, adia, mas uma hora ele chega: o primeiro dia de uma criança em uma creche. Afinal, esse talvez seja um dos momentos mais delicados da maternidade, quando a família, especialmente a mãe, tende a encontrar mais dificuldade na adaptação à nova fase do que o próprio filho ou filha. Na tentativa não só de amenizar o trauma desse momento de ruptura de vínculo, mas principalmente de acompanhar mais de perto a criação dos descendentes, é que o modelo de cooperativa de mães ganha adeptos em Santa Catarina e no país. 

A ideia vinda da França, que também recebe o nome de creche parental, casa-escola e cuidados coletivos, é colocada em prática de diversas maneiras, mas mantém o revezamento das mães na atenção diária dos pequenos de até quatro anos.

Veja abaixo a rotina das mães e das crianças em cooperativa de Florianópolis

Ao engravidar na mesma época, amigas idealizaram projeto coletivo

Em Florianópolis, onde existem pelo menos três iniciativas nesse modelo, o coletivo Alecrim, composto por famílias da praia do Campeche, no Sul da Ilha, deu início a uma cooperativa de mães em 2015. Três amigas que engravidaram em momentos bem próximos decidiram chamar outras mulheres, principalmente com quem mantinham uma visão de mundo semelhante, para encabeçar o projeto. 

Bianca Barbosa Suleiman, mãe do Bento, do Francisco e do Antônio, foi uma das convocadas. Ajudou a criar as comissões jurídica, pedagógica, estrutural, de segurança e alimentação, que deram base ao que chama de ¿escolinha¿.

– Começou com as mães, depois os pais vieram. Nós temos apreço por esse estilo de vida menos intervencionista. Os filhos de todas nós nasceram com parto humanizado em casa. Já temos essa tendência em não terceirizar nem o nascimento, nem a educação. Então, nós buscamos fazer algo mais comunitário – explica a psicóloga, de 31 anos.

Além de optarem por um local fixo, em vez do revezamento da casa das famílias participantes, as matriarcas fizeram questão de contratar uma professora. A cada dia, Bianca de Fiori Milani, 27, que também é naturóloga, tem a companhia de duas mães diferentes para cuidar dos 12 pequenos, que têm em média dois anos e ficam sob o cuidado de três pessoas das 8h às 12h30min. Ela valoriza o trabalho em conjunto realizado com as famílias.

– Eles [mães e pais] veem o cuidado dos filhos como um processo ativo. Querem participar da educação dos filhos e demonstram isso vindo aqui, cooperando e cuidando dessas 12 crianças. Passam a entender os pequenos dentro do seu 
desenvolvimento e começam a criar esse vínculo, que dá segurança para a criança, porque ela fica em um lugar onde os pais também ficam – diz a professora, que anteriormente trabalhou em duas creches tradicionais.

Apesar de ainda não ser mãe, a jovem aprova o modelo de cuidado coletivo, cuja programação contempla brincadeiras ao ar livre, música, artes manuais, lanche, almoço e hora do soninho. Ela conta que pretende adotar o mesmo formato na criação dos seus futuros filhos.

– Com certeza, eu desejo ter filhos e todo dia aqui eu faço essa afirmação para mim, de como realmente eu quero ter.

Bianca Milani, educadora do coletivo, pretende adotar o formato quando tiver filhos Foto: Betina Humeres / DC

Diálogo sobre percalços e experiências positivas na criação dos filhos

Nas reuniões quinzenais da cooperativa de mães do coletivo Alecrim, existe um momento chamado de ¿voz do coração¿. Não raro, as mulheres desabafam sobre os percalços da maternidade, que costumam ser mais intensos no pós-parto, quando é comum a solidão, o isolamento e as dúvidas sobre a criação. 

O acolhimento entre os responsáveis nesse sentido é outro aspecto positivo desse tipo de iniciativa, segundo as participantes.A mãe da Ita, do Noé e da Tiê, a Gabriela de Moraes Damé, 33, também vê a creche parental como um grupo de afetos. 

Para a designer, que consegue participar porque trabalha em home office, o compartilhamento do cuidado dos pequenos e das experiências dos pais impacta em um ambiente acolhedor, capaz de propiciar experiências afetivas a todos os envolvidos.

– Nesse primeiro momento dos nenéns, a gente meio que se isola do mundo, porque envolve muito tempo e energia, e fica ali com os próprios problemas. Então, é bacana esse momento de apoio. Cada mãe que passa aqui por uma manhã está ajudando as outras a ter um tempo para se dedicar a um filho novo ou a um trabalho – define.

O cansaço de cuidar de 12 crianças em um dia da semana também vale a pena para a mãe Emília de Pontbriand, 29, que engravidou de Manuel Peri quando a filha mais velha, Maia, já era cuidada coletivamente por outras 11 matriarcas.

– A gente se ajuda muito, porque tem mães que têm um pouco mais de dificuldade para lidar com momentos mais difíceis, outras mais facilidade. Se unindo, tudo fica mais fácil – complementa a professora de biologia.

Professora de biologia, Emília, de 29 anos, é mãe da Maia e do Manuel, alunos do espaço Foto: Betina Humeres / DC

Implantação do espaço depende de dedicação e longo planejamento

É comum que as creches parentais só saiam do papel depois de algum tempo de planejamento. No caso do coletivo Alecrim, foram necessários seis meses. As reuniões presenciais, que definiram espaço, horário de funcionamento, quantidade de crianças, práticas pedagógicas, alimentação e mensalidade (R$ 430), deixam claro a necessidade de organização. Hoje, há até regimento interno.

Tendo em vista que as cooperativas de mães ainda não dispõem de legislação específica no Brasil, a pesquisadora do Grupo de Estudos em Educação Infantil da Universidade do Estado de Santa Catarina, Julice Dias, destaca a necessidade de os responsáveis atentarem a questões específicas no momento de criar ou escolher por esse modelo de cuidado dos pequenos.

– É preciso olhar, principalmente, para a qualidade do espaço, com organização de materiais e brinquedos, e para a distribuição de professores, e somente professores, para a quantidade de crianças – orienta.

A mãe solo Alanna Kern, 27, não conseguiu colocar em prática uma cooperativa de mães, como aquela que viu em um programa de TV e a inspirou. Após uma postagem nas redes sociais, comprovou o interesse de outras mulheres no modelo alternativo, mas não viu a mesma vontade no momento de colocar a mão na massa. Acabou contratando uma babá para que pudesse continuar mais próxima do bebê Pedro Henrique, de 10 meses.

– A minha ideia é de que até dois anos um filho possa ter cuidado exclusivo da mãe, mas dentro da modernidade isso acaba não sendo possível, ainda mais quando eu sou a única responsável. Encontrei um meio-termo, porque trabalho de casa e conto com a ajuda da cuidadora, mas ainda gostaria de montar uma creche parental. Um filho junto à mãe faz com que se possa cumprir com mais tranquilidade o papel de mãe, profissional, mulher — acredita a empreendedora.

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