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Patrimônio15/04/2017 | 08h28Atualizada em 15/04/2017 | 08h28

Pesquisadores desvendam manuscritos feitos sobre frutas de Florianópolis há 200 anos

Códices em aquarela do major Antônio José de Freitas Noronha, do batalhão colonial, foram reunidos em livro, lançado nesta semana

Pesquisadores desvendam manuscritos feitos sobre frutas de Florianópolis há 200 anos Reprodução/Livro História Natural da Ilha de SC
Em 1803, Noronha catalogou 38 espécimes e registrou em aquarela as principais características das plantas Foto: Reprodução / Livro História Natural da Ilha de SC
Cristian Edel Weiss
Cristian Edel Weiss

cristian.weiss@diario.com.br

Adivinhe qual é a fruta. De uma árvore de cujo cerne se tira tinta amarela, que se colhe em janeiro e, para comê-la inteira, primeiro se lava o leite que ela tem, sem esbrugar? Ou que tal provar do fruto colhido em dezembro, que podemos ingerir inteiro, menos a casca, e da qual mesmo que os caroços escorreguem pela garganta, não faz mal algum? Já pensou em provar aquela da árvore que cresce mais de 20 palmos, colhe-se em dezembro, come-se toda – exceto o caroço – e deixa a boca cheirando a rosas? 

As descrições da flora catarinense, ainda que pequem na falta de detalhes ou na precisão, se referem, respectivamente, a amoras, jabuticabas e jambo. Foram registradas pela primeira vez em 1803, pelo major do 1º Batalhão de Linha de Santa Catarina, Antônio José de Freitas Noronha.

Ao registrar em manuscritos e desenhos feitos em aquarela, que deram origem a 38 códices, Noronha foi pioneiro em catalogar a botânica da Ilha de Santa Catarina e parte do território catarinense. Cinco anos antes da chegada da família real portuguesa ao Brasil – que se estabeleceu em 1808, no Rio de Janeiro –, o então governador da Capitania de SC, coronel Joaquim Xavier Curado, teve um estalo de oportunidade. 

Como sabia que a rainha Dona Maria I tinha interesse em fomentar pesquisas de botânica para desenvolver a agricultura, encarregou Noronha, a quem considerava bom subordinado e inteligente, a catalogar a flora local.

Noronha era leigo, mas havia tido lições de desenho no exército. Os códices receberam do militar uma breve descrição de 38 espécimes. O trabalho do desbravador, no entanto, não teve reconhecimento na época e foi esquecido. Pouco mais de 200 anos depois, Marli Cristina Scomazzon, Jeff Franco e Daniel de Barcellos Falkenberg reuniram as figuras no livro História Natural da Ilha de Santa Catarina – O códice de Antônio José de Freitas Noronha (Editora Insular; 110 páginas), lançado quinta-feira.

Códice de Noronha e Marli Scomazzon, autora de História Natural da Ilha de SC, ao lado de Jeff Franco e Daniel Falkenberg Foto: Cristiano Estrela / Agencia RBS

A obra reproduz os originais de Noronha e acrescenta fatos históricos a respeito da dura vida na Ilha de Santa Catarina, e traz uma análise de Falkenberg, professor do Departamento de Botânica da UFSC, sobre os acertos e as imprecisões do militar.

– Ele foi o primeiro a tentar classificar, nomear e registrar o que se tinha naquela época. Levando em conta que o primeiro registro botânico das árvores nativas da Ilha de Santa Catarina só foi feito em 1970 por Roseli Mosimann e Ademir Reis, 170 anos depois, Noronha foi pioneiro – atesta Marli.

O militar nascido na Ilha da Madeira em 1744 chegou a Desterro aos sete anos. Com a família, escapou da fome para tentar a sorte do outro lado do Atlântico. Só receberia a missão de esquadrinhar a flora local cinco décadas mais tarde.

Não há clareza se Noronha apenas levantou a vegetação da Ilha ou se avançou no interior do Estado. Essa dúvida é levantada pelo professor Falkenberg, quando se depara com uma figura do pinhão e de duas espécies referidas como do campo: araçá-pequeno e camarinha-branca. 

Noronha recebeu outras missões, como explorar o sertão catarinense. Por isso, Marli acredita que ele tenha aproveitado as incursões para incluir mais exemplares à pesquisa. Numa dessas viagens, fez o reconhecimento do rio do Braço e do Ribeirão, em Nova Trento, que também é chamado de Alferes, em homenagem ao posto que Noronha ocupava. Noronha morreu em 1814, em Desterro, aos 70 anos.

Os autores acreditam que os manuscritos, preservados em bom estado no Museu Nacional de Portugal, tenham sido encaminhados à corte portuguesa na época. Como ao retornar à Europa em 1821 a família real levou consigo boa parte do acervo da biblioteca, esse deve ter sido o destino do material.

Nos registros do militar aparecem frutas pouco conhecidas ou acessíveis hoje em dia em Santa Catarina, como a banana angá, o bacupari, jaracatiá e o timbó peba. E, ainda assim, mesmo após a publicação do livro, os autores foram surpreendidos:

– A timbopeba, por exemplo, achei que era um tipo estranho, raro. Mas fiz uma entrevista na rádio CBN Diário e uma pessoa falou que conhecia e que ainda existe no Sertão do Imaruí, em São José, na mata virgem – afirma Marli.

O professor Falkenberg faz uma ressalva às imprecisões de Noronha na descrição das plantas. Por vezes, o militar erra na altura máxima do pé e no desenho de certas espécies. Um exemplo é a descrição do araçá grande, que na explicação de Noronha tem até 25 palmos de altura (cerca de seis metros), mas na verdade passam de 15 metros.

Apesar das inconsistências, a obra de Noronha foi importante para o registro da botânica em Santa Catarina. ¿A impressionante compilação de Noronha reuniu informações botânicas ainda indisponíveis na época com uma boa qualidade artística, o que ressalta a grande originalidade de sua obra, num período em que a botânica brasileira ainda dava seus primeiros passos, mesmo nas poucas províncias mais desenvolvidas¿, escreve Falkenberg. Para os autores, a pesquisa abre espaço para que outros estudiosos aprofundem o tema.

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