Marlene de Fáveri: "Me incomoda saber que outra mulher toma atitudes tão conservadoras" - Geral - A Notícia

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Entrevista14/04/2017 | 19h31Atualizada em 14/04/2017 | 20h57

Marlene de Fáveri: "Me incomoda saber que outra mulher toma atitudes tão conservadoras"

Processada por ex-aluna de mestrado, professora da Udesc que estuda gênero e feminismos no campo da História conversou com a reportagem do DC em sua casa na quinta-feira

Marlene de Fáveri: "Me incomoda saber que outra mulher toma atitudes tão conservadoras" Leo Munhoz/Agencia RBS
Foto: Leo Munhoz / Agencia RBS

A historiadora e professora Marlene de Fáveri, 57, que pesquisa gênero e feminismos na Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc), recebeu a reportagem em sua casa na tarde da última quinta-feira, 13, após as moções de apoio de entidades como a Associação Nacional dos Professores Universitários de História (Anpuh). Durante quase três horas, a docente rompeu o silêncio de duas semanas com a reportagem do Diário Catarinense para se defender das acusações de perseguição religiosa e ideológica. Ela é alvo de um processo movido pela ex-orientanda, a também professora Ana Caroline Campagnolo, 25, que pede R$ 17,6 mil por danos morais, porque entende ter sido discriminada por colocar-se como cristã, conservadora e antifeminista. 

Logo no início da conversa, Marlene prometeu que não choraria e se manteve firme na conversa, por mais que toda a repercussão nacional em torno do processo tenha afetado seu psicológico e sua saúde. A professora, inclusive, pediu afastamento das funções na Udesc nos últimos dias. Amparada agora por nova advogada, a especialista em criminalística e direitos humanos Daniela Félix, Marlene busca retomar as atividades. Confira a entrevista:  

Como tem sido os últimos dias?
No dia 22 de março, quando tudo isso aconteceu, eu estava em Turvo na casa da minha mãe em um enterro. Pegou uma dimensão que eu não imaginava. A imprensa, muito em cima de mim, eu não queria falar nada, porque estava muito exposta. Depois, com a Daniela Félix, eu consegui falar. Nos primeiros dias eu fiquei muito mal, eu não sabia como lidar. Fiquei doente, fui dar aula e não consegui. 

De que forma tudo isso te afeta mais?
De tantas formas. Me afeta muito a exposição pública demasiada, porque você fica muito exposta aos olhares e às falas de todo mundo. Meu nome acabou virando hashtag. Mas o que mais me incomoda e me constrange é saber que uma outra mulher e muito jovem, inclusive, toma atitudes tão desonestas e conservadoras. De um jeito que me assusta. Como que essa juventude está lidando com a própria vida e com as concepções de vida? Como que uma mulher pode advogar pela violência contra as próprias mulheres? Isso me incomoda mais até do que o processo. O processo é eivado de colocações que me desqualificam como mulher por dar aula de feminismo. Então, ser feminista, na concepção dela, é um erro da natureza. Na disciplina, todo o plano de ensino trata de discursos de diferentes momentos históricos, de diferentes concepções, de discursos religiosos, científicos, médicos, jurídicos... Então, tem todo esse meu esforço de provocar uma reflexão crítica — e a palavra crítica é uma palavra que ela critica, não pode ser nada crítico. 

O que a senhora pensou quando assistiu pela primeira vez ao vídeo em que a Ana fala sobre feminismo?
Nossa, foi em 2013. Fiquei estarrecida, principalmente, porque eu estava vendo ali na minha frente uma aluna orientanda que até então eu tinha um cuidado, como tenho com todos os meus orientandos e de repente vejo ela (sic) falando coisas absolutamente contraditórias no que tange ao que nós tínhamos estudado. O que não quer dizer que ela não tinha o direito de pensar diferente, mas que naquele momento, ligada a mim por uma linha de pesquisa, por um programa, pela área de gênero e feminismo... A disciplina se chama História e Relações de Gênero, então não tem como você trabalhar essa disciplina ou dar outra perspectiva se não for os conhecimentos de gênero e feminismo. Assistindo àquele vídeo e principalmente à forma com aqueles entrevistadores a constrangiam com perguntas capciosas, eu olhei aquela menina, porque ela tinha 21 ou 22 anos, sendo atacada, até constrangida com perguntas pesadas... eu fiquei pensando: nossa, eu errei? Como pode, né? Fiquei mais preocupada com ela do que com as outras coisas. Mas, ao mesmo tempo, como que até dois dias atrás ela estava em minha sala de aula, tínhamos boas relações, e agora ela faz isso publicamente? Isso me deixou muito, mas muito incomodada. Afinal de contas, o que que a gente tá (sic) ensinando? Que tipo de reflexão fizemos? Será que as reflexões ao longo de um semestre de aula não foram suficientes em uma disciplina tão importante no mundo contemporâneo? Eu pensava: nossa, mas uma menina, ainda tão jovem, dizendo que, por exemplo, Simone de Beauvoir tinha inveja do pênis, que jamais se sentiu feminista e que não entende de nenhum jeito o que leva uma mulher a se sentir feminista ou militar no feminismo. Quando se entra em um programa de pós-graduação, qualquer que seja, você a priori já sabe que vai se ligar a uma linha de pesquisa, a um orientador, a um encaminhamento téorico-metodológico. O que não significa que a pessoa que entre nesse curso não possa pensar diferente, mas você precisa ser honesto quanto a isso, não fazer desse jeito e me dar um susto desse tamanho. Um vídeo de duas horas totalmente complicado, com teor racista, sexista, homofóbico. 

Antes disso, você conta que alguns alunos chegaram com outras publicações dela e que o vídeo, então, comprovava o posicionamento dela. Por que após assistir a esse material e a ver a posição dela nas redes sociais a senhora decidiu pelo desligamento da orientação?
Evidentemente essa tensão entre o que ela disse e o que a gente falava na disciplina, essa incoerência que passou a acontecer, me fez pensar muito. No dia 2 de novembro, eu encaminhei a ela uma mensagem pelo MSN, eu tenho uma cópia dessa mensagem, aonde eu me coloco preocupada com ela: "você está sendo ridicularizada por esses homens que te fazem perguntas capciosas. Por que você se expõe assim?". A minha primeira fala com ela foi essa. Falei com uma colega do laboratório de Gênero e Família, a professora Sílvia, e combinamos que eu ia pedir uma reunião no colegiado e, assim que foi feito, expliquei as minhas motivações. Então eu chamei-a para conversar. Antes de tomar qualquer decisão, porque poderíamos ter um acerto. E, nessa conversa, ela foi muito clara dizendo que não acreditava no que ela estava fazendo [dissertação de mestrado], que lá fora ela era uma e, dentro, ela era outra. Ela me disse que na universidade faria tudo que eu quisesse, do jeito que eu quisesse. Então, eu disse: "não, eu não tenho condições de orientar alguém que não acredita naquilo que faz". Isso, para mim, é impossível. Você pode fazer qualquer coisa, mas você tem que fazer com paixão. Se você entra num programa de pós-graduação com um projeto onde você quer lidar com as violências e homicídios contra mulheres que aparecem em processos judiciários, no caso dela de 1970 a 88, em Chapecó, você evidentemente vai ter que olhar ali diferentes discursos, numa perspectiva de olhar. E, por conta dessa perspectiva, eu abri mão da orientação, por questões teórico-metodológicas, como eu escrevi, que é do que ela mais me acusa, né? Regimentalmente, eu tenho esse direito. É um direito assistido a todas as universidades, não é só nosso. 

Se uma conversa como essa tivesse acontecido logo no momento que a Ana tivesse sido aprovada no mestrado, em que ela colocasse: "olha, professora, eu tenho tal posicionamento", essa história poderia ter tido um desfecho diferente?
Ah, é evidentemente que sim. Porque aí teria honestidade, né? Ela teria me dito: "olha, eu entrei com esse projeto, com essa tema, pensando essa perspectiva de gênero..." Porque o projeto dela tem essa perspectiva de gênero. A minha perspectiva de gênero está no projeto. Então foi desonesto. Eu teria conversado, teria ouvido as razões. Talvez até orientasse, desde que nós tivéssemos uma relação honesta, de orientadora e orientanda, no sentido de pensar teoricamente essas coisas. Evidentemente eu não iria aceitar um trabalho que diz que mulheres morreram em algum momento da história, através das fontes, porque mereceram morrer. Isso é contra a minha prática política e feminista.

Que avaliação a professora faz a respeito do motivo de a Ana ter entrado no mestrado da Udesc e estudar questões que envolvem o gênero e o feminismo?Partindo do princípio de que, antes mesmo de ela entrar, ela já publicizava coisas antifeministas, eu fico pensando que as razões dela foram as seguintes: uma delas para ter um diploma de mestre, porque isso lhe daria mais respeitabilidade. E também é possível pensar que foi premeditado, porque foi muito assustador. Em três meses de aula, você percebe que uma pessoa te enganou, que não foi honesta, que coloca um vídeo daquela forma no ar... Eu também penso que ela não está sozinha, que tem umas redes com ela e hoje a gente sabe que tem.  

Apesar do debate político e ideológico, a principal acusação de Ana  é de uma suposta perseguição ideológica de sua parte. O que a senhora tem a dizer sobre isso?
Não encontro em nenhum momento da disciplina ou das relações naquela turma e em outras de que eu tenha tido algum comportamento que fosse de perseguir alguém pela religião. O que nós estudamos nas aulas são discursos, de diferentes religiões, mais especificamente o catolicismo, e o que a deixou muito incomodada e do qual ela me acusa, inclusive fez isso em Brasília naquela palestra [organizada pelo Escola Sem Partido], de ter sido obrigada a ler um livro chamado Eunucos pelo reino de Deus: mulheres, sexualidade e a Igreja Católica, que é de uma teóloga alemã [Uta Ranke-Heinemann] e faz um apanhado sobre como a instituição Igreja Católica vem historicamente, desde os primórdios, fazendo um discurso misógino para com as mulheres. Principalmente pontuando Tomás de Aquino. Então ela se sente constrangida por ter que ler um livro que fala coisas com as quais ela não concorda. Mas então é difícil, né? Se isso for uma perseguição religiosa, eu não saberia o que dizer.  

A Ana te acusa de ter divulgado o processo e de ter pedido apoio de entidades nacionais. Isso é verdade?
O processo foi aberto em 13 de junho de 2016. Até 20 de março de 2017, o processo não era público. O fato de ela ter ido a uma audiência em Brasília do Escola Sem Partido e ter exposto a minha voz, a minha fala, os meus textos levaram a uma preocupação no campo da História e outros campos, Porque, nesse momento, por conta da ESP e da perseguição a tantos outros professores, eu passei a ser mais um caso de perseguição nesse sentido. A partir da exposição dela, em fevereiro, é que isso tomou dimensão de conhecimento público. A Anpuh Nacional, preocupada com diferentes casos, foi em busca do meu caso e, como é um processo que não está em sigilo, evidentemente que os advogados buscaram e encontraram. A partir do momento que os advogados e outras pessoas que têm interesse na causa buscam, o processo começou a circular e a ser do conhecimento de outras pessoas. Eu não tenho controle sobre isso. 

Na transcrição fonográfica que consta no processo relativa à discussão em sala de aula sobre o vídeo de Ana, a senhora utiliza os termos "besteira" e "ridículo". Considera que isso possa ter sido a motivação da ação?
Jamais eu a chamaria de ridícula. Ninguém é ridículo nesse sentido. Eu não lembro, eu teria que ler de novo [a transcrição fonográfica do áudio gravado por Ana em sala de aula] no processo. Eu devo ter dito uma coisa que eu já disse e está no processo, que o vídeo a ridiculariza. Porque eu não tenho medo de dizer isso: ela se expôs ao ridículo. 

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Entenda o caso
A estudante Ana Caroline Campagnolo, que leciona História em escolas da educação básica de Chapecó, foi selecionada pela Udesc no segundo semestre de 2013. O projeto de pesquisa inscrito, intitulado Virgindade e Família: mudança de costumes e o papel da mulher percebido através da análise de discursos em Inquéritos Policiais da Comarca de Chapecó (1970-1988), foi aceito pela professora "por aproximação teórico-metodológica e temática coerente com suas pesquisas", conforme consta no processo. Entre outras disciplinas, Marlene de Fáveri ministra na graduação e na pós-graduação a cátedra História e relações de gênero que, segundo o plano de ensino, pretende "analisar os movimentos e lutas das mulheres e a emergência dos feminismos, estudar temas que atravessam a categoria gênero, como masculinidades, transnacionalismo, experiência, preconceitos, violência, sexualidade e racismos, dentre outros tópicos".

A relação entre a pesquisa proposta pela estudante, que contempla a temática da violência contra a mulher, e a da própria atuação da professora da Udesc não foi suficiente para mantê-las em harmonia no estudo. O desentendimento entre orientadora e orientanda começou em outubro de 2013, quando Marlene diz ter sido alertada por alunos a respeito de um vídeo de 122 minutos feito por Ana e publicado no Youtube. O arquivo não se encontra mais disponível. 

Por considerar que o material continha "teor sexista, homofóbico e racista", Marlene teria questionado se a estudante acreditava naquilo que havia publicado já que, conforme a orientadora, era contraditório, tendo em vista o próprio objeto de pesquisa que ela conduzia. Em uma troca de e-mails exposta nos autos do processo, Ana defendeu-se quando disse que não trazia à sala de aula opiniões emitidas em redes sociais. Autora do canal de vídeos na internet Vlogoteca, a ex-mestranda expõe publicamente os motivos por que não considera o feminismo um movimento legítimo aos cristãos, corrente religiosa que diz ser integrante. 

O imbróglio veio à tona em sala de aula. Quando confrontada por colegas de sala durante uma aula de Marlene, Ana diz ter sofrido "estresse emocional e sofrimento psíquico, situação de humilhação e sensação de cerceamento", como estão nos autos. Marlene, por outro lado, confessa também em processo que, após a divulgação do vídeo, "foi constrangida, em diversos lugares, instituições e grupos, ao ter que responder questionamentos de como estaria ensinando erroneamente os conceitos, uma vez que a autora do dito vídeo era sua orientanda".

Depois do desentendimento, a professora solicitou ao curso o desligamento da orientação da mestranda "devido à incompatibilidade do ponto de vista teórico-metodológico com relação à abordagem do tema quando de seu ingresso". A solicitação foi atendida pelo colegiado. Ana continuou o mestrado até maio do ano passado, quando foi reprovada na banca final e, posteriormente, acionou a Justiça por danos morais contra Marlene. 

A Udesc não se manifesta sobre o tema, mas se colocou à disposição do judiciário para prestar informações e esclarecimentos.

 
 

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