Com um mês de implantação, ensino médio integral esbarra em falta de infraestrutura em SC - Geral - A Notícia

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Reforma no ensino15/03/2017 | 20h02Atualizada em 15/03/2017 | 20h05

Com um mês de implantação, ensino médio integral esbarra em falta de infraestrutura em SC

Unidades que aderiram ao projeto-piloto enfrentam dificuldades no acesso a internet e relatam falta de laboratórios e salas de convivência 

Com um mês de implantação, ensino médio integral esbarra em falta de infraestrutura em SC Diorgenes Pandini/Agencia RBS
Aulas na escola Nereu Ramos, em Santo Amaro da Imperatriz Foto: Diorgenes Pandini / Agencia RBS

Em uma sala, alunos discutem um texto sobre gravidez na adolescência. Na sala ao lado, separados em grupos, estudantes também do 1º ano do ensino médio da Escola de Educação Básica Nereu Ramos, em Santo Amaro de Imperatriz, fazem tarefas de biologia, artes e espanhol, que antes seriam deveres de casa. No material didático, textos abordam como pesquisar, dividir o tempo entre as atividades e como elaborar um plano de estudos. Esse é o cenário visto há um mês em 15 escolas catarinenses que oferecem o ensino médio integral. 

Cerca de 1,4 mil alunos participam do projeto-piloto, parceria entre Secretaria Estadual de Educação (SED), Instituto Ayrton Senna e Instituto Natura, e que configura o primeiro passo para a reforma do ensino médio no Brasil. Mas apesar de oferecerem disciplinas mais conectadas com o cotidiano dos jovens, trabalhar o protagonismo e relação do adolescente com a comunidade, as unidades ainda enfrentam desafios para implementação da nova proposta. 

O principal deles está relacionado à infraestrutura. Na escola Nereu Ramos, por exemplo, os 89 alunos do ensino médio integral ainda não têm acesso a internet de banda larga, assim como a grande maioria das unidades participantes do projeto. O livro didático traz muitos links para acessar os conteúdos, então os professores e direção precisam imprimir antes todos os materiais:

— Hoje a gente se adapta para conseguir. Por exemplo, se há uma atividade para fazer um experimento, apenas o professor faz e demonstra — explica a coordenadora do programa na escola, Danieli Freuch, que acrescenta que faltam laboratórios de biologia e química, auditório e sala de convivência para descanso.

Na escola Ivo Silveira, em Palhoça, a falta de climatização fez com que terminassem as aulas uma hora e meia antes por nove dias em virtude do calor. A diretora da unidade Leonor Lopes Gonzaga, em Guatambu, no Oeste de SC,  Mariena Borsoi, reforça que a proposta foi muito bem aceita pela comunidade, mas ainda enfrentam dificuldades para oferecer estrutura para manter os alunos das 7h30min às 17h30min na escola:

— Para mim o X da questão é essa estrutura. Como não tem laboratório, não passa conteúdo além do que está no livro, então claro que impacta na qualidade. 

Muitos gestores usam recursos da própria escola para promover melhorias. Na escola Coronel Ernesto Bertaso, em Chapecó, foram reformadas duas salas de aula e a sala de professores. 

— A gente está improvisando, pintamos a sala, trocamos luminárias, colocamos cortina.  É um projeto novo, estamos pegando junto e quando vier o dinheiro, a gente melhora — pondera a diretora, Silvane Moreira. 

A secretaria de Educação de SC informa que recebeu R$ 1,2 milhão do Ministério da Educação em fevereiro e agora trabalha nas licitações. O valor será destinado à compra de materiais esportivos e de expediente. A diretora de gestão da rede estadual da secretaria, Marilene da Silva Pacheco, lembra que no edital está previsto o prazo de um ano para fazer todas as adequações. No total, serão R$ 3,4 milhões repassados às escolas pelo MEC, além da contrapartida da própria secretaria. A internet deve ser implantada em todas as unidades até o final de março. 

— É importante providenciar logo as melhorias, porque o sucesso do programa depende desse primeiro ano para fazermos uma excelente divulgação — defende a diretora da escola Nereu Ramos, Ana Maria Zys Bevenutti.

Apesar dos entraves, a grande maioria dos professores já passou por capacitação e demonstram adesão à modalidade, assim como diretores e alunos, aponta o  gerente de projetos do Instituto Ayrton Senna, Helton Lima.  

— A implementação de um projeto como esse não é algo trivial e muda bastante a vida e forma de atuação de toda comunidade escolar. Mas sabemos que não basta formar os professores e gestores e esperar os resultados, tem que ter todo um trabalho de acompanhamento e cultivo — reforça.

* Colaboraram Carolina Wanzuita, Lariane Cagnini e Pamyle Brugnago

Alunos passam por adaptação ao novo modelo

Para os alunos, o clima ainda é de adaptação ao novo sistema. Maria Gabriela Siqueira, de 15 anos, da escola Nereu Ramos, afirma que é uma experiência completamente diferente e que os professores têm dado muita atenção aos alunos, com grande estímulo ao debate e à pesquisa por parte dos alunos. As colegas Mariane Dias e Tuézia Scheidt dizem que ainda estão se adaptando, mas sentem falta de mais conteúdo. Na escola, a direção já percebe mais iniciativa dos adolescentes, que participaram da reunião com pais, revisão das normas da unidade e até reivindicaram a troca do horário do lanche. 

Lima afirma que essa adaptação não é simples, pois os alunos vêm de uma vivência de uma sala de aula onde estavam enfileirados e o professor era o único detentor do conhecimento. O novo modelo quer que o jovem pesquise, debata e participe efetivamente. 

Nas escolas que aderiram ao programa há relatos de alguma resistência na hora da matrícula. Com baixa adesão de alunos, a Escola Senador Rodrigo Lobo, em Joinville, voltou a oferecer o 1º ano pelo sistema regular. Em Canoinhas, na Almirante Barroso, de cinco turmas no primeiro ano passaram para três. Porém, os diretores garantem que o novo modelo, depois de implantado, tem agradado. 

Na Prof. Padre Schuler, de Cocal do Sul, o corpo docente faz reuniões semanais para avaliar a implantação do novo modelo. No final do ano passado, 94 estudantes haviam se matriculado e hoje são 75. A queda na adesão é justificada porque alunos desistiram da modalidade por conseguir colocação no mercado de trabalho, outros conquistaram vagas em escolas técnicas e institutos federais, baixa que costuma ocorrer todo ano.

Quem ficou tem aprovado os conteúdos e o novo modelo de ensino,apesar da necessidade de se adaptar à rotina.

— A receptividade dos alunos está boa, em termos pedagógicos estão empolgados pois a proposta é diferente e vai ao encontro do que eles querem,usar tecnologias, recursos que possam usar em sala de aula _ diz a coordenadora do programa na escola, Cristina Réus.

A Escola de Educação Básica Elfrida Cristina da Silva, em Itajaí,possui 150 alunos matriculados e uma fila de espera de 15 alunos, que tem sido o termômetro de que, apesar de recente, o ensino integral tem conquistado adeptos.

Aula do ensino médio integral na unidade Annes Gualberto, em Joinville Foto: Salmo Duarte / Agencia RBS

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