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Desastre aéreo30/11/2016 | 04h09Atualizada em 30/11/2016 | 04h13

"A probabilidade do avião ter ficado sem combustível é de 90%", diz especialista em segurança de voo

Com quase quatro décadas de experiência, Carlos Camacho acredita que a causa do acidente é uma combinação de fatores

"A probabilidade do avião ter ficado sem combustível é de 90%", diz especialista em segurança de voo AL São Paulo/AL São Paulo
Foto: AL São Paulo / AL São Paulo
Cristian Edel Weiss
Cristian Edel Weiss

cristian.weiss@diario.com.br

Com quase quatro décadas de experiência como piloto de aviação comercial e especialista em segurança de voo, Carlos Camacho acredita que a causa do acidente é a combinação de dois fatores: o avião que levava a Chapecoense não tem autonomia para percorrer mais de 2,9 mil quilômetros – por isso a quantidade de combustível estava no limite, não abrindo espaço para nenhum imprevisto – e um avião Airbus da Viva Colombia que saía de Bogotá rumo ao Caribe passou na frente na fila de pouso no aeroporto de Medellín. 

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Com isso, o avião da Chapecoense precisou dar pelo menos duas voltas no ar, como indica o radar, à espera da conclusão do pouso do Airbus, até que pudesse prosseguir com a preparação da aterrissagem.

Como não havia margem para imprevistos, o combustível secou e os motores podem ter parado. Para Camacho, a afirmação de que havia um ¿problema elétrico¿ no avião da Chapecoense pode ter sido apenas uma forma de informar à torre de controle que o avião tinha problemas, sem reconhecer que a causa era a escassez de combustível. Se o piloto admitisse que não havia se preparado para o trajeto, seria penalizado pelas autoridades ao pousar.

Em fóruns de aviação na internet, vários membros comentaram que o avião da Chapecoense deveria ter feito uma pausa em Bogotá, para reabastecimento antes de chegar a Medellín, algo que não foi considerado na rota executada pelo piloto.

Carlos Camacho, que colaborou com as investigações do acidente com o jato do então candidato à presidência Eduardo Campos, em agosto de 2014, a pedido dos familiares do piloto, é taxativo ao criticar que, mesmo as caixas pretas da aeronave tendo sido encontradas nesta terça-feira, as informações podem não vir a público em detalhes, pelo fato da investigação envolver apenas órgãos militares do Brasil, da Colômbia e da Bolívia. Nas palavras dele, não será surpresa se as autoridades disserem que ¿os dados de voz e de voo foram inconclusivos¿.

A distância entre os aeroportos da Bolívia e de Medellín é praticamente o trajeto máximo que o avião poderia percorrer sem parar para abastecer. A causa do acidente foi falta de combustível?
Com a autonomia que ele (avião) tinha, com as devidas degradações, ele deve ter ficado sem combustível. É 90% de probabilidade de ele ter ficado sem combustível no final.

E não terá outro motivo?
Quando o piloto do avião da Chapecoense declarou que foi ¿uma pane elétrica¿, ele falou para o controlador aéreo em outras palavras: ¿também estou em emergência, tenho de pousar já¿. Aí as coisas são aceleradas. 

A imprensa colombiana chegou a falar em despejo de combustível antes da queda. É possível?
Não procede. Esse é o tipo de avião que não tem esse sistema de alijamento de combustível, é um avião regional. Somente aviões de grande porte, tipo o jumbo, que decola com o peso máximo de decolagem muito superior ao peso máximo de pouso dele. E se ele tiver de voltar imediatamente, tem que queimar 50, 60 toneladas de combustível. E ele não consegue queimar essa quantidade se tiver que pousar rápido. Então ele é direcionado para uma região específica, determinada pelo controle de tráfego aéreo, no momento sobre o oceano, e lá ele alija, abre umas bocas nas pontas das asas, e de lá sai uma quantidade muito grande de combustível, sob pressão. Lá, ele despeja umas 70 toneladas por exemplo em oito minutos. Mas nenhum desses tipos de avião pequeno tem sistema de alijamento, porque o peso de decolagem não é muito superior ao de pouso. Se tiver que voltar em seguida, não vai afetar estruturalmente esse avião. 

Como foi a queda do avião da Chapecoense, de acordo com a imagem do avião na área do acidente e os dados do radar? 
Ele não estava acelerado, ele caiu meio parando mesmo, segurando. E pode ter estolado (quando perde a sustentação) naquele ponto. O que o piloto faz quando vê que está estolando? Ele levanta o nariz da aeronave. O avião quebrou em três partes, bateu chapado e correu 100 metros. Todas essas informações convergem para que ele realmente tenha ficado sem combustível no final. Tem um momento que o piloto levanta o nariz para a fase de descida, e o combustível corre para trás. Os pickup points dos tanques ficam na frente. Quando ele levanta o nariz, o que pode ter acontecido, apagaram os quatro motores. Vamos saber isso onde? Nos gravadores de dados de voz e de voo, caso as autoridades falem que estavam funcionando. Porque, anote aí, que possivelmente os gravadores de dados e de voz sejam declarados inoperantes.

Por que inoperantes?
Não foram recuperados, as leituras não foram positivas. Pode aparecer algum problema com os gravadores de dados de voo e de voz como foi o caso do avião do Eduardo Campos, que também falharam. Coincidentemente em 2001, na Suíça, um avião que bateu lá tinha o mesmo problema com as caixas pretas. Os gravadores de dados e de voz são testemunhas vivas das unidades investigadoras. As autoridades colombianas também são militares. Se houver um apadrinhamento, um compadrio, eu, se fosse um dos militares nesse momento, diria: ¿os gravadores de dados e de voz não estavam operando¿. Vai penalizar quem? O comandante do voo, que já morreu? O dono da empresa? Que foi o próprio comandante? Vai fazer ele ir para a cadeia? Pagar multa?

O senhor tem informação quando o avião da Chapecoense entrou em contato com a torre de controle para declarar emergência?

Ele não declarou emergência em momento algum. Ele só falou que tinha um problema elétrico. Só que essa expressão "estou com uma pane elétrica"é uma espécie de código, quando você entre partes diz que está com problema. Não pode declarar porque está gravando no avião, na torre e nas outras aeronaves e também estou emergência. Qual é a emergência você tem? "Tô com problema de combustível, tô caindo". Claro que o cara de Medellín sabia que a coisa tava pegando lá.

Quem deve ser responsabilizado? A torre de comando? A empresa?

O próprio comandante,proprietário da empresa, e a Chapecoense, que não se assessorou bem para contratar um voo como esse. Não estou acusando ninguém, mas digo que essa é uma péssima realidade. 

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