Sem dinheiro para aluguel, George fez da sala de aula sua casa e tornou-se bailarino em três anos - A Notícia

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Um ensaio sobre a força22/07/2018 | 20h10Atualizada em 22/07/2018 | 20h45

Sem dinheiro para aluguel, George fez da sala de aula sua casa e tornou-se bailarino em três anos

Ele nunca havia feito aulas de dança até os 18 anos, quando mudou para Joinville para persistir em seu sonho

Sem dinheiro para aluguel, George fez da sala de aula sua casa e tornou-se bailarino em três anos Salmo Duarte/A Notícia
O jovem mentiu para a família que havia passado na pré-seleção da Escola Bolshoi para poder mudar pra Joinville Foto: Salmo Duarte / A Notícia

No momento da entrevista para esta reportagem, o bailarino baiano George Brito, 21 anos, estava em Luxemburgo, na Europa, onde passou duas semanas para uma temporada de apresentações com uma companhia de dança contemporânea. Parece pouco provável que, até os 18 anos, ele não tivesse nenhum conhecimento sobre dança a não ser aquilo que dançava quando tocava axé nas festas que frequentava em Nazaré; e os passos pouco complexos do pelotão coreográfico da fanfarra da escola, no qual participava quase escondido da família, em meio a um grupo formado apenas por meninas.

– Minha mãe até me levou a uma escola de dança quando eu era criança, mas todos os parentes disseram que aquilo não era apropriado e ela parou de me levar às aulas – lamenta o jovem.

A paixão por essa arte e a vontade de que ela fosse sua profissão o faziam assistir a todos os vídeos de dança que encontrasse. Percebendo a motivação do amigo, uma bailarina comentou sobre uma pré-seleção que a Escola Bolshoi  no Brasil faria em Valença, a 45 minutos de carro de Nazaré. Sem conhecer nada sobre a escola a não ser a força de seu nome, George foi à audição regional, não imaginando que, para um aluno ingressar na instituição prestes a completar 18 anos, ele deveria ter formação quase completa em dança clássica.

– Eu cheguei a fazer umas três semanas de aulas particulares com a minha amiga, mas fui sem saber quase nada. Não passei, claro, e voltei muito triste para a minha cidade – recorda ele.

A sementinha, no entanto, estava plantada. George descobriu que, mais do que sede da Escola Bolshoi, Joinville era a "Cidade da Dança" e pensou que, se quisesse ser bailarino, um bom começo era mudar para esse lugar. Não tinha nada além do diploma de ensino médio, algumas economias do trabalho em meio período e um conhecido em Joinville que sinalizou a possibilidade de alojamento temporário. E não tinha, definitivamente, o apoio de mais ninguém.

– Meus pais trabalhavam na roça, não entendiam que dançar podia ser uma profissão. Para o meu pai, trabalho de homem era ser pedreiro – conta.

Prevendo que uma partida "sem lenço, nem documento" para o Sul do País poderia apavorar a família, o adolescente mentiu. Contou em casa que havia passado na pré-seleção do Bolshoi e precisava ir para Joinville para a segunda etapa de testes. Que era uma chance única na vida, que não podia desperdiçar. Ganhou a bênção da mãe e, sem medo, mudou para o outro lado do País.

– Passei um mês em Joinville, sem saber o que fazer, até que meu amigo sugeriu que procurasse o professor Fernando Lima, que tinha uma companhia de dança e podia ajudar. Encontrei o Fernando no Facebook e ele me disse para ir à escola onde dava aulas quando o ano letivo começasse.

 JOINVILLE,SC,BRASIL,17-08-2018.Caderno Nós.Caminho da dança,George Brito,bailarino.(Foto:Salmo Duarte/A Notícia)Indexador: Maykon Lammerhirt
George conseguiu uma bolsa integral para estudar dança em uma escola particular em JoinvilleFoto: Salmo Duarte / A Notícia

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Em duas semanas, George estava na recepção da escola, mas a diretora não. Nem na segunda vez. Somente na terceira, quando já imaginava seu retorno a Nazaré com as mãos abanando e os parentes bradando "eu avisei", ocorreu o encontro com a proprietária da academia de dança, Sheila Melatti. George ouviu que a instituição era particular e bolsas de estudo eram oferecidas a alunos que se destacavam. Podia fazer um teste e, dependendo do desempenho, ganhar 50% de desconto nas mensalidades.

– Fui para uma sala com o Fernando, mas eu não sabia nada mesmo! Ficava só de olho no que ele fazia. Ele ia para o lado, eu ia para o lado. Ele levantava o braço, eu levantava o braço. Abaixava, eu abaixava – recorda, aos risos.

A ousadia e a força de vontade inspiraram a escola a dar a ele uma bolsa de estudos integral. George aproveitou a oportunidade mergulhando em todos os cursos: jazz, balé, contemporâneo, sapateado. Até às aulas de baby class assistiu para entender o básico da dança. Tanta dedicação fez com que o emprego em um restaurante ficasse insustentável e, sem salário para pagar aluguel, as salas de aula da escola de dança viraram abrigo em muitas noites. Em outras, eram a casa da diretora, do professor, dos amigos que fez nesse caminho, que garantiram teto e alimentação enquanto preparava um corpo já adulto para entrelaçar a técnica ao talento.

A pressa pode não beneficiar a perfeição, especialmente quando se tratada excelência necessária a um bailarino que quer tornar-se profissional. Mas George precisava de urgência.

Seis meses depois da chegada a Joinville, o bailarino já estava ansioso para voar. Pediu para começar a fazer aulas com o Grupo Fernando Lima, formado por bailarinos com anos de aulas e palco.

– É muito cedo – explicou o professor, que, diante da insistência, decretou: “Mas, se você aprender a coreografia que estamos ensaiando, pode entrar”.

Os passos de "Entre Elas" já estavam praticamente memorizados, já que George assistia a todos os ensaios. Mostrou-os a Fernando, ganhou a vaga e ainda a mudança no nome da obra, que tornou-se "Entre Eles".

No início do ano passado, mudou para Florianópolis para a primeira experiência profissional na área, como professor de jazz em três escolas. A ideia não era apenas criar currículo ou ter um salário: ao longo de 2017, as restrições financeiras continuaram, porque havia um novo sonho. O Grupo Fernando Lima fora convidado para o festival em Luxemburgo em julho de 2018, mas as despesas eram responsabilidade dos integrantes. 

A reserva de dinheiro aliada à capacidade do jovem de viver apenas com o que é necessário para realizar o que ama fez não só com que ele pudesse fazer a viagem, mas também passar o primeiro semestre de 2018 dedicando-se apenas aos ensaios e às aulas de dança.

– Voltei a usar a escola como alojamento, mas valeu a pena para chegar até aqui. Agora eu sei que o grande sonho da minha vida já foi realizado.



 

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