"Estamos praticando a resistência", afirma Ana Botafogo - A Notícia

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Festival de Dança de Joinville23/07/2018 | 08h00Atualizada em 23/07/2018 | 08h00

"Estamos praticando a resistência", afirma Ana Botafogo

Em Joinville para o Festival de Dança, ela participou de uma conversa exclusiva com o jornal "A Notícia" e falou sobre pressão na vida do bailarino, formação de plateia e a situação da cultura em um país em crise

"Estamos praticando a resistência", afirma Ana Botafogo Salmo Duarte/A Notícia
Desde 2015, ela divide a direção do balé do Theatro Municipal do Rio de Janeiro com Cecilia Kerche Foto: Salmo Duarte / A Notícia

Não há, na história brasileira, bailarina que tenha se tornado tão popular quanto Ana Botafogo. Desde os anos 1980, quando foi nomeada primeira bailarina do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, ela é a principal referência da dança clássica para o público que dança e o que não dança. Agora, aos 61 anos, vive uma nova fase na carreira como diretora artística da companhia na qual desenvolveu quase toda sua trajetória, cargo que divide com a também primeira bailarina do Municipal Cecilia Kerche desde agosto de 2015. E experimenta estar "do outro lado" em plena crise econômica e política, usando o equilíbrio aprendido em mais de quatro décadas dedicadas ao balé para andar na corda bamba do corte de recursos para a cultura. 

"Estamos praticando a resistência",  afirma ela em Joinville, sua casa temporária desde o início da semana e onde permanece até o próximo domingo. Enquanto atua pelo segundo ano como curadora artística do Festival de Dança, colabora na preparação do caminho das próximas estrelas da dança nacional e continua seu caminho de inspirar novos talentos e tornar esta arte mais acessível no Brasil.

Estamos em meio ao Festival de Joinville, com centenas de crianças e adolescentes dedicados à mesma arte. Na sua opinião, o que faz com que a dança desperte tanta paixão e certezas em pessoas tão jovens?

Acho que, no início, é mesmo uma coisa muito de criança, e, quem realmente quer continuar, tem que ter muita determinação. Então, só aquelas que são muitos perseverantes é que continuam. Mas por que a dança, entre todas as coisas? Por que ela é pictórica, é delicada e um pouco até por ser "inatingível". Muitas crianças só querem dançar e não querem treinar. E a dança é treino, é físico e é emocional. A criança que só quer dançar e não quer treinar não vai longe. É necessário entender que o bailarino é como um atleta e os atletas se preparam durante quatro anos para, às vezes, ter um minuto e meio como oportunidade para mostrar o que sabem. O bailarino precisa deste preparo quase olímpico, mas tem muito mais tempo em um espetáculo para se superar.

E você percebe que hoje há um preparo maior do que havia antes, em relação à educação emocional dos alunos, das crianças?

Não sei, porque não lido no dia a dia com as crianças, mas ele é fundamental. No balé, você trabalha no limite das forças. É uma profissão que tem, sim, muita competição, e ela ocorre no dia a dia. Ao entrar em uma companhia profissional é fundamental ter controle emocional, porque a gente lida com ego de vários artistas, com competição, com emulação. Eu sempre cito que tive ao meu lado, praticamente a minha carreira toda, a Cecilia Kerche, que é uma linda bailarina. Éramos muito diferentes, de físico e até de temperamento, e eu pensava: "se ela faz isso bonito, por que eu não vou fazer?" Então, é uma profissão que a pessoa sofre se não estiver preparada, porque vive desgaste físico e emocional.

Você começou a atuar no Brasil em uma época em que se tentava popularizar o balé clássico, certo? Isso também contribuiu para popularizar a Ana Botafogo? 

Não sei se havia essa tentativa no país, mas tive a sorte e a alegria de trabalhar com a Dalal Archar quando ela montou "Romeu e Julieta" com música pop americana, "Cinderella" com as músicas da Donna Summer, e um balé que se chamava "Sonhos de uma Noite de Carnaval", com vários compositores brasileiros. Nestes espetáculos, a ideia era trazer um público novo que gostasse da música, da discoteca, para conhecer o que era balé. Acabou sendo um mote da minha carreira: sempre que eu podia, levava minhas apresentações para praças e parques, em espetáculos mais populares, que era uma maneira de popularizar a dança e, talvez por isso, eu também tenha ficado mais popular. Mas acho que o que me tornou mesmo conhecida foi ter dançado nesse Brasil de Norte a Sul, e o grande responsável por isso foi a imprensa, que noticiava cada apresentação.

 JOINVILLE,SC,BRASIL,17-07-2018.Festival de Dança 2018.Ana Botafogo.(Foto:Salmo Duarte/A Notícia)Indexador: Maykon Lammerhirt
Ela foi nomeada primeira bailarina do Theatro Municipal do Rio de Janeiro em 1981Foto: Salmo Duarte / A Notícia

Em 40 anos dedicados à dança, você sente que conseguimos isso? Popularizamos o balé, conseguimos criar uma plateia para a dança no Brasil?

Não só desenvolvemos formação de plateia de dança, mas também aprimoramos a qualidade do ensino da dança. E acho que Joinville é muito importante para essa qualidade de ensino porque se preocupa muito com a formação de professores, ao oferecer cursos teóricos que são fundamentais em um país tão grande e muitos vem pra cá para aproveitar esse conhecimento de uma vez só. Mas a formação de plateia depende muito de cidade para cidade. No Rio nós temos o ano inteiro; em Joinville, temos casa cheia durante o Festival.

Se desenvolvemos o ensino da dança e formamos plateia, porque ainda é tão difícil manter companhias profissionais no Brasil? 

A cultura tem sofrido muito no país. Eu estou vindo de um Estado muito sofrido em todos os níveis, mas sobretudo na cultura, porque o Rio de Janeiro vem passando há dois anos por uma crise enorme não só com seus funcionários, mas em todos os setores. Mas acho que a crise na cultura é nacional. O país sofreu muito nestes últimos dois anos e houve uma falta de investimento em tudo, mas a primeira que sofre é a cultura. E é claro que as leis de incentivo sempre são bem-vindas, para ajudar sobretudo aqueles que são pequenos e estão começando. Talvez se pudéssemos veicular imagens de dança como veiculamos futebol teríamos mais apoio. Acho que é falta de atenção e de quererem dar essa visibilidade à cultura. Não se deram conta de que precisam investir em cultura porque ela também é educação e que os artistas de um país são a voz de seu tempo, de seu povo e de seus costumes.

Por falar em crise no Rio, como está a situação no Theatro Municipal do Rio? 

O Estado todo sofreu. Somos apenas uma parte dos funcionários públicos que ficaram sem salários no ano passado, mas foi uma crise de 200 mil funcionários que chegaram a ficar três meses sem salário e sem 13o salário. Conseguimos recuperar nossos salários, mas ainda estamos enfrentando a crise do Estado, com poucos recursos, e dos recursos que tem, quase nada é viabilizado para a cultura. Então, ainda estamos em crise. O Municipal conseguiu se reerguer um pouco, mas fez poucas produções. Fizemos um balé menor, porque não tivemos condições de fazer um balé completo. Está agora, nas nossas programações, fazer um balé completo, mas não temos pessoal. Já lidávamos há algum tempo com bailarinos, cantores e músicos contratados. E isso o governo também tirou. Então, não temos equipe suficiente para fazer um grande balé. Só temos condições se voltarmos com alguns contratados e, claro, fazer uma renovação. Balé e arte precisam de renovação.

Foram perdidos bailarinos principais do elenco também neste período?

Sim, principalmente solistas, mas também dois primeiros bailarinos que nós nomeamos e pouco depois saíram, licenciados, porque não podíamos podar a carreira deles. Era um momento muito delicado, sabíamos que não teríamos nenhum espetáculo [em 2017], e os liberamos para outras companhias. Neste momento, Cecilia e eu estamos lá, resistentes, para que, quando mudar o cenário econômico e político do Rio de Janeiro, possamos dar uma melhor vida para nossos bailarinos. Porque estamos de mãos atadas, sem poder criar.

Que lições ficam de assumir a direção artística do Balé do Theatro Municipal em um momento de crise?

Primeiro, nós tivemos um ano e meio na direção muito bom, em que pudemos realizar muita coisa. E, depois, planejamos todo um ano que não foi possível realizar. Acho que a lição, no momento, foi a resiliência – e a disciplina de bailarina nos fez conseguir isso. E aí voltamos à emulação, e você vê como não foi em vão Cecilia ter participado da minha carreira como bailarina profissional? Nós fomos dirigir juntas, e muita gente achava que isso não daria certo, mas ela tem me dado muita força para resistir a esses momentos tão difíceis. Porque há momentos em que realmente você não sabe o que fazer com os bailarinos. Então, aprendemos a sobreviver. E também aprendemos que lidar com artistas é muito mais difícil do que lidar com funcionários de uma empresa. É claro que também temos regras, mas a maneira da abordagem é diferente. Sempre fomos artistas seguindo regras, e agora estamos do outro lado, tendo que lidar com a alma dos outros artistas.

 
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