Comunidade uniu forças para crianças participarem do Festival de Dança de Joinville - A Notícia

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Um ensaio sobre a força22/07/2018 | 20h42Atualizada em 22/07/2018 | 20h42

Comunidade uniu forças para crianças participarem do Festival de Dança de Joinville

Houve festas e até venda de panos de chão para arrecadar fundos para pagar viagem do grupo

Comunidade uniu forças para crianças participarem do Festival de Dança de Joinville Salmo Duarte/A Notícia
A professora Élide (à esquerda) fundou uma escola em um bairro onde não havia aulas de balé em Pernambuco Foto: Salmo Duarte / A Notícia

Há 20 anos, a pernambucana Élide Leal precisava enfrentar, todos os dias, as duas horas de viagem de ônibus entre o bairro do Janga, no município de Paulista, e a sede de uma escola de dança no Centro do Recife. Era o trajeto necessário para conquistar a formação em balé que ela sonhava e os pais incentivavam, mesmo que não existissem escolas de dança na região em que moravam. Enquanto passava quatro horas por dia de sua adolescência dentro de um ônibus, Élide sonhava tornar-se a dona de uma academia em seu bairro, para que outras crianças e adolescentes não precisassem lidar com a mesma situação.

– Eu sempre pensei em quantos talentos perdemos pela falta de condições.

Em 2012, quando a família recebeu uma indenização, não houve dúvidas sobre a utilização do dinheiro: Élide usou a vocação para professora e criou um espaço de artes na comunidade à beira-mar, uma antiga vila de pescadores que se tornou o bairro mais populoso de Paulista. Assim que abriu as portas, percebeu que a necessidade da escola de artes era mais real do que imaginava: rapidamente, ela tinha mais de 130 alunos matriculados no programa de dança, em um curso que leva crianças e adolescentes a passarem três tardes por semana estudando danças clássica, contemporânea, urbana e popular. Destes, 40 são bolsistas.

– É muito bom ver o conhecimento se aplicar no corpo do bailarino. Tenho descoberto muitos talentos entre essas crianças.

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Há três anos, a professora se dedica a fazer com que seus alunos tenham a experiência de cruzar as fronteiras dos concursos e mostras do Pernambuco e viajarem para o Festival de Dança de Joinville. Neste ano, dez alunos com idades entre sete e 16 anos conquistaram uma vaga para se apresentarem nos Palcos Abertos, uma mostra paralela que, apesar do nome, só aceita trabalhos que alcancem a média na rigorosa avaliação prévia das coreografias e dos integrantes.

A comemoração, no entanto, só podia acontecer depois que houvesse a certeza de que todos teriam condições de realizar a viagem. As passagens de ida e volta, apenas do grupo, chegavam a R$ 8 mil, sem contar as duas monitoras que precisavam acompanhar a professora para cuidar de tantas crianças, além da alimentação e da hospedagem de todo o grupo. Com confiança na coreografia enviada para a seleção do Festival e no desempenho dos alunos, Élide começou a arrecadar fundos para a viagem bem antes da divulgação do resultado.

Em parceria com uma malharia da cidade, eles ganharam desconto de 50% na compra de panos de chão. Durante meses, os estudantes comercializaram os pequenos quadrados de tecido, como se construíssem uma ponte de algodão para levá-los ao evento que é a realização da maioria dos estudantes de dança do Brasil.

 JOINVILLE,SC,BRASIL,17-07-2018.Festival de Dança 2018.Caminhos da dança,Éliede Leal,com os alunos do Nosso Espaço Escola de Dança,de paulista (PE).(Foto:Salmo Duarte/A Notícia)Indexador: Maykon Lammerhirt
Crianças e adolescentes apresentaram coreografia de danças populares nos palcos abertos de JoinvilleFoto: Salmo Duarte / A Notícia

– Virou o projeto "Panos de chão pelo Festival de Joinville". Sabíamos que precisávamos começar muitos meses antes para arrecadar o que precisávamos.

Enquanto os tecidos eram vendidos, toda a escola ajudava. Em fevereiro, as famílias se uniram para realizar uma festa de Carnaval; em junho, um arraial de São João. Entre doações e trabalhos voluntários, toda a comunidade colaborou para que os dez alunos de dança pudessem passar dez dias no Festival de Joinville.

– As mães dividiram tarefas para que tudo pudesse acontecer. Elas têm uma compreensão de que estão fazendo hoje pelos filhos dos outros o que pode ser feito um dia pelos filhos delas.


 
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