Especialista avalia e aponta melhorias para o sistema de transporte coletivo de Joinville - A Notícia

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Transporte08/01/2018 | 09h00Atualizada em 08/01/2018 | 16h56

Especialista avalia e aponta melhorias para o sistema de transporte coletivo de Joinville

Com aumento acima da inflação na tarifa e queda no número de passageiros, serviço precisa de soluções para se reinventar

Especialista avalia e aponta melhorias para o sistema de transporte coletivo de Joinville Cleber Gomes/Especial
Foto: Cleber Gomes / Especial

O valor da tarifa do transporte coletivo foi reajustado no último dia 2 e tem dividido opiniões entre os usuários de ônibus de Joinville. Os valores passaram de R$ 4 para R$ 4,30 (antecipada) e de R$ 4,50 para R$ 4,65 (embarcada), aumento de 7,5% no primeiro caso, muito acima da inflação do período, que foi de 2,5%. Diante da polêmica em torno do assunto na cidade, o AN entrevistou a arquiteta, urbanista e doutora em engenharia de transportes Simone Becker Lopes, que estuda mobilidade urbana em cidades de médio porte, para fazer uma análise do atual sistema e quais seriam as melhorias para o serviço.

Segundo ela, a qualidade de um sistema de transporte coletivo é avaliada segundo a combinação de diversos indicadores, que medem desde a acessibilidade da população ao sistema até a frequência de atendimento, a qualidade dos veículos e a infraestrutura viária. Na avaliação da especialista, o sistema de Joinville tem pontos positivos, como a acessibilidade da população à rede em um raio de 300 metros dos pontos e de 500 metros aos terminais.

– Podemos dizer que a rede de transporte público de Joinville tem uma ótima cobertura, atendendo a mais de 90% da população dentro de um raio de distância considerado ideal. Porém, este indicador sozinho não significa que é bom, pois o nosso sistema é só de ônibus movidos à diesel – afirma.

Uma das justificativas apresentadas pelas empresas concessionárias do transporte coletivo para o aumento da tarifa foi o reajuste no valor do diesel, em 18%. Simone explica que veículos à diesel e de grande porte circulando por toda a cidade não é uma alternativa interessante. Eles causam impacto negativo, como poluição sonora e ambiental, além de risco de acidentes na interação com pedestres e ciclistas. A doutora destaca que, em algumas regiões e vias, como no Centro, seria indicado veículos menores, mais leves, silenciosos e menos poluentes.

– A infraestrutura de transportes também é precária. Embora tenha algumas vias exclusivas, o que é importante para garantir a prioridade do transporte público sobre o automóvel, existem problemas sérios de pavimentação, o que causa desconforto ao usuário, risco de acidentes e desgaste dos veículos — afirma.

Simulações e previsões

Para Simone, a solução em sistema de transporte para uma cidade como Joinville seria o multimodal. Ele combinaria o ônibus com outros tipos de veículos menores e com novas tecnologias menos poluentes. O sistema deveria ser concebido de forma integrada entre os diferentes modos, principalmente incentivando o uso da bicicleta. Além disso, na avaliação da especialista, o transporte coletivo de Joinville, com o atual valor de tarifas, é impossível de se tornar atrativo para a população.

A especialista entende que um novo sistema a ser adotado em Joinville deveria ser proposto por meio de um estudo integrado amplo e abrangente, que garantisse o melhor cenário para a população. Segundo ela, deveriam ser aplicadas ferramentas e técnicas de análise para fazer simulações e previsões integradas de longo prazo – com o horizonte de 30 anos – para estudar alternativas e hierarquizá-las mediante uma análise dos aspectos sociais, econômicos e ambientais.

Simone destaca que o usuário vai sempre pesar a relação custo-benefício. Esses benefícios são medidos pela qualidade do sistema, dos veículos, a acessibilidade, o conforto e a frequência de atendimento, entre outros. No custo, são considerados a tarifa, gastos com combustível, estacionamento e o tempo perdido no deslocamento.

– Para o usuário com acesso ao automóvel ou moto, enquanto esta relação levar à escolha do veículo motorizado individual, o sistema de transporte público vai continuar perdendo usuários. É preciso uma combinação de políticas que desincentive o uso do automóvel, porém que incentive o uso de transporte público, melhorando a qualidade do sistema – opina.

Licitação daria chance à inovação

Uma das possibilidades para conquistar avanços no sistema de transporte público seria realizar uma nova licitação do serviço de Joinville. No entanto, ela está parada por impasses na Justiça entre a Prefeitura e as atuais empresas concessionárias, que receberam a última renovação de permissão em 1998. Segundo Simone Lopes, a tecnologia de transportes evoluiu muito nos últimos anos e um novo processo licitatório poderia trazer novas tecnologias, mais sustentáveis e adequadas para as diferentes regiões da cidade, além de gerar mais conforto e segurança ao usuário.

– Poderia proporcionar melhoria no sistema de informação ao usuário, no tipo de paradas, mais seguras e confortáveis, integração com bicicletas etc. Poderiam ser avaliados até sistemas mais econômicos que os atuais – explica.

Além disso, a especialista também afirma que a licitação poderia garantir a revisão de contrato e as responsabilidades. De acordo com ela, a administração pública deve ser responsável por aspectos que garantam a mobilidade sustentável para a maioria da população nos termos previstos na Lei de Mobilidade. Simone explica que outros aspectos também poderiam ser considerados, como a meia-passagem para estudantes. No entanto, o processo licitatório não tem previsão para ser aberto e depende de como a situação será resolvida judicialmente. A Lei das Concessões determina que toda dívida da Prefeitura com a concessionária seja sanada antes do encerramento de contrato com a empresa.

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A briga na Justiça entre Gidion e Transtusa com a Prefeitura começou em 2010, com a ação apresentada pelas empresas de ônibus cobrando R$ 268 milhões da Prefeitura. O valor, segundo as empresas, é referente à diferença entre o reajuste da tarifa calculado por elas e o que foi efetivamente concedido pelo governo municipal. O assunto foi levado a um termo de compromisso entre a Prefeitura e as empresas na época, mas que não foi reconhecido pelo prefeito Udo Döhler quando este assumiu o cargo em seu primeiro mandato, em 2013.

Ponto de equilíbrio

Segundo as empresas, o reajuste da tarifa é resultado do aumento de custos ocorrido entre novembro de 2016 e novembro de 2017:

- Houve aumento médio no preço do diesel de 18%;

- Foram comprados 19 novos ônibus, sete a mais do que estava previsto na planilha de reajuste da tarifa em vigor (que era de R$ 4 na compra antecipada e R$ 4,50 na embarcada);

- Começaram a circular ônibus com ar-condicionado, que têm custo 17% maior do que os ônibus convencionais;

- O maior impacto na tarifa: redução de mais de 5% no número de passageiros de 2017 em relação a 2016.

- 346 é a frota total de ônibus em Joinville, somando Gidion e Transtusa. destes, 20 possuem ar-condicionado.

 JOINVILLE, SC, BRASIL, 06-01-2018Matéria sobre o transporte coletivo em Joinville. Especialistas avaliaram a qualidade do sistema.
Foto: Cleber Gomes / Especial

Entrevista
"O que mais pesou foi a queda de passageiros e o aumento do diesel"

Gilmar Leo Kalckmann, diretor da Gidion, fala sobre o reajuste da tarifa e o sistema de transporte coletivo:

Quais são os investimentos previstos a partir do reajuste na tarifa deste ano?

Gilmar Leo Kalckmann – Nessa tarifa em si, não tem previsão de investimento. Mas dependendo da situação econômica e se a gente conseguir recuperar parte dos passageiros, lá no segundo semestre a gente vai estudar a possibilidade de colocar alguns ônibus novos. Na tarifa do ano passado, haviam sido previstos 12 novos ônibus. Nós colocamos 19 no sistema. Claro que isso acabou impactando um pouco na tarifa deste ano. Mas o que mais pesou na tarifa deste ano foi a queda de passageiros e o aumento do diesel. Tudo que se gasta no sistema de ônibus é dividido pelo número de passageiros em cima da quilometragem que a gente roda. O custo do sistema é calculado em cima disso. Então, se eu tenho aumento de quilometragem e queda de passageiros, a tarifa vai ficar mais cara. Hoje, em torno de 40% das linhas são deficitárias, elas não dão resultado. 60% das linhas dão lucro e acabam pagando as outras 40%. Se eu não tivesse o aumento no diesel, talvez o impacto na tarifa fosse menor. Hoje, o peso maior no sistema é a folha de pagamento. O segundo é o diesel e em terceiro, a manutenção. Além disso, o número de passageiros e o quilômetro rodado também impactaram. A gente sabe que cada vez que vem o aumento da tarifa, cai o número de passageiros. Então, tenho que fazer isso ser cada vez menor. Nós perdemos nos últimos quatro anos em torno de 15% a 18% de passageiros. No ano passado, perdemos 5%. Se eu olhar em termos de manutenção no ano passado, o custo em si aumentou 3,2%. Então, o maior impacto foi a queda no número de passageiros no sistema. Conseguimos economizar em quilometragem, mas não adianta rodar vazio. Tem que ter demanda.

O aumento no diesel foi um dos motivos para o aumento da tarifa. A empresa tem intenção de usar outro tipo de combustível para baratear esses custos? Teria alguma opção viável?

Se eu pensar em termos de preços, se não fosse diesel, o ônibus seria elétrico. A energia elétrica teoricamente ainda é barata, só que o custo do ônibus elétrico fica em torno de R$ 1,5 milhão. O custo do ônibus à diesel, em R$ 350 mil para aquisição. Poucas cidades estão usando (ônibus elétricos) por causa do custo e não existe subsídio do governo. No conjunto, o diesel ainda é mais barato.

Qual é o trabalho da empresa atualmente para reduzir a emissão de poluentes?

O nosso ônibus é o menos poluente hoje. Periodicamente, a gente mede a opacidade dos carros para ver se estão dentro do limite tolerável. E a Prefeitura também faz os testes. Se começar a emitir muita fumaça, nós somos multados. E não é apenas o diesel. Se falarmos de água, em torno de 80% da água que nós utilizamos para lavar os ônibus, a gente reaproveita. Então, usamos pouca água no sistema.

A empresa está preparada para se adaptar caso um sistema multimodal seja adotado na cidade?

No ano passado, esteve aqui o Instituto Fraunhofer, da Alemanha. As empresas de ônibus participaram disso para achar alternativas para Joinville daqui a 30 anos. Várias sugestões surgiram de fazer essa parte de modal. A Prefeitura está estudando formas de fazer essa interação entre os transportes, e a gente tem que participar. Para nós, é interessante porque eu preciso transportar o passageiro. O que a gente tem que fazer é tentar fazer ele chegar a cada ponto de coleta e se deslocar. Porque não adianta eu colocar muito carro na cidade de Joinville porque trava. Eu tenho que tentar tirar carro.

Entrevista
"Vamos avançar com a implantação de 55 quilômetros de corredores"

O secretário de Planejamento Urbano e Desenvolvimento Sustentável, Danilo Conti, fala sobre infraestrutura para o sistema de transporte coletivo de Joinville

Quais têm sido os investimentos da Prefeitura para melhorar a infraestrutura para o transporte coletivo?

Os investimentos têm sido via financiamento do PAC, com a Caixa Econômica Federal, referente ao compromisso de mobilidade para médias cidades – primeira ação foram as obras na rua São Paulo. Neste contrato, vamos avançar com a implantação de 55 quilômetros de corredores exclusivos de ônibus, além da construção do terminal universitário. Há também um contrato ativo (contrato 344/2015) de abrigos de ônibus, de pouco mais de 190 unidades que foram e continuam sendo instalados. Foram implantados novos corredores de ônibus que deram agilidade ao fluxo de coletivos entre 2013 e 2017. São 250 metros na rua Iririú; 1,1 km na avenida Wittich Freitag; 1,6 km na avenida Getúlio Vargas; 100 m na avenida Juscelino Kubitschek; 1,1 km na avenida Beira-rio (do Mercado Municipal até a rua Dona Francisca); e 340 m na rua Nove de Março (entre a JK e o terminal central).

Joinville tem a intenção de adotar um sistema multimodal de transporte? De que forma tem se movimentado e investido para isso?

O nosso Plano de Mobilidade tem como objetivo principal a intermobilidade e detalha a integração do modal ônibus com os transportes ativos (bicicleta e pedestre). Neste caminho, avançamos com a obra do paraciclo junto ao terminal do Boa Vista. Estamos planejando avançar em mais terminais. Com a parceria que tivemos com o Instituto de Pesquisa Fraunhofer e Grupo de Cooperação Alemã GIZ no fim de 2017, criamos um catálogo de 25 propostas, das quais dez foram discutidas em workshop com agentes da cidade na área de mobilidade urbana. Das dez propostas, três têm ênfase na intermobilidade, como a implantação de aluguéis de bicicletas integrado ao sistema de transporte coletivo. É meta para este ano, para o primeiro semestre, o detalhamento da proposta. Quanto aos demais, o Plano de Mobilidade é aberto para que outros modais se integrem ao sistema, necessitando de estudos, mas, no momento, não estamos trabalhando neste sentido.

 

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