"Passou o tempo do bispo monocrático, que diz: eu faço o que quero", afirma novo bispo de Joinville - A Notícia

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Religião23/06/2017 | 19h28Atualizada em 25/06/2017 | 12h30

"Passou o tempo do bispo monocrático, que diz: eu faço o que quero", afirma novo bispo de Joinville

Dom Francisco Carlos Bach assume a Diocese de Joinville neste fim de semana, com celebração de posse na tarde de sábado


Em entrevista coletiva, ele falou sobre prioridades e analisou o momento atual da igreja católica e refletiu  Foto: Salmo Duarte / Agencia RBS

Neste sábado, a comunidade católica joinvilense volta a contar com uma autoridade máxima dentro da igreja local: o bispo Dom Francisco Carlos Bach, 66 anos, assumirá a Diocese de Joinville, com cerimônia às 15 horas na Catedral São Francisco Xavier. Dom Francisco chega à cidade quase um ano depois da morte de Dom Irineu Roque Scherer, que foi bispo de Joinville por nove anos, com a missão de conhecer uma região completamente nova — nascido no Paraná, ele atuou sempre em paróquias e dioceses daquele Estado. 

Sua chegada também coincide com um momento difícil para a administração da Igreja Católica em Joinville. Há apenas duas semanas, um padre 37 anos foi preso após denúncias de abusos sexuais contra crianças e adolescentes em São Francisco do Sul e Pirabeiraba

Em apresentação à imprensa de Joinville, na manhã de sexta-feira, Dom Francisco conversou sobre o assunto, falou suas prioridades e analisou o momento da igreja católica no mundo atual, com desafios para formação de jovens fieis e novos sacerdotes. Bem humorado, ele brinca que é um bispo VIP (que significa "vindo do interior do Paraná") e afirma ser apaixonado por comunicação.

— Estarei sempre disponível para falar sobre os mais diversos assuntos — afirma.

Sou bispo da igreja onde a igreja me queira 

Após atuar duas vezes como administrador diocesano, Dom Francisco foi nomeado bispo em 2005, assumindo a Diocese de Toledo, que reúne a comunidade católica de 19 pequenos municípios no Oeste do Paraná. Ficou na cidade por sete anos e foi transferido para São José dos Pinhais, onde permaneceu mais quatro anos. 

Ele recorda que foi com surpresa que recebeu uma ligação de Dom Giovanni D'Aniello, atual representante papal no Brasil, informando que havia sido nomeado Bispo de Joinville pelo Papa Francisco. 

— Normalmente, quando vai para um local, um bispo fica lá até que Deus o chame ou até que se aposente — diz Dom Francisco — Pensei que ali ficaria, porque a Diocese de São José dos Pinhais é também grande, importante. É a segunda maior diocese do Paraná hoje, em população, com quase 1 milhão de pessoas. 

Ao pedir a Dom Giovanni dois dias para pensar sobre a vinda para Joinville, o bispo recorda que recebeu a permissão, mas também uma condição: passar uma hora por dia diante do Santíssimo, de joelhos, rezando e repetindo: "eu sou bispo da igreja onde a igreja me queira". Foi quando se deu conta de que a missão no Paraná havia terminado. A razão para estas mudanças, no entanto, também são um incógnita para ele.

— Eu perguntei porque o papa me nomeou, e o núncio [Dom Giovanni] me respondeu: "o senhor quer que eu telefone para o Papa para perguntar?" — conta, aos risos — Então, nem eu sei a resposta.

Primeiras atividades

Até esta sexta-feira, Dom Francisco ainda era bispo de São José dos Pinhais, mesmo que tivesse deixado a cidade paranaense no início da semana, e continuava resolvendo questões daquela comunidade católica. Por isso, é a partir da posse que ele começa o trabalho de conhecer os detalhes sobre a Diocese de Joinville. Ela compreende 18 municípios da região Norte de Santa Catarina, com 65 paróquias e quase 500 capelas, mais de 130 padres, 60 diáconos permanentes. 

Além disso, 60 funcionários atuam na Mitra Diocesana divididos em setores como administrativo, contabilidade, recursos humanos, patrimônio, comunicação, catequese, pastorais, entre outros. Ele afirma que seu trabalho, no primeiro momento, é olhar, observar e reunir. Enquanto isso, os pedidos que chegarem a ele serão ouvidos e repassados para os outros membros da Diocese que já conhecem a região. 

— O primeiro momento de um bispo é entender a nova diocese — explica Dom Francisco — Por isso, tenho suplicado aos padres, assim como aos leigos: não queiram conversar imediatamente comigo. Preciso conhecer como funciona esta Diocese, quais são suas obras sociais, como funciona a pastoral... Todas as decisões serão tomadas a seu tempo.

Defensor do respeito ao ser humano em qualquer estágio da vida, ele afirma que ainda precisa aprender muito sobre as obras sociais da Igreja Católica de Joinville para saber a atual situação de cada um e os projetos para o futuro. 

— O carinho e o cuidado com a vida deve percorrer todo o arco da vida de uma pessoa. [Citando a Pastoral Carcerária, que atua dentro do sistema prisional] Ah, mas eles cometeram um crime, não merecem. A gente tem que aprender a distinguir entre pessoa e o crime que ela comete. O crime, pequeno ou grande, é sempre abominável, mas a pessoa sempre merece carinho e respeito — reflete.

Bispo democrático 

Dom Francisco explica que a função episcopal é embora não deva ser centralizadora, tem a responsabilidade de estar de olho em tudo, e ter pessoas ao lado para ajudar a conduzir as coisas. Por isso, ele deixa claro que atuará sempre com o apoio do colégio de consultores (formado por padres da Diocese) e do conselho Prebisteral (que tem foco na Pastoral). 

— Passou o tempo do bispo monocrático, que diz "eu faço o que quero, do jeito que eu quero". Não é possível trabalhar sem unidade e comunhão com os órgãos representativos — afirma. 

Valor está na pessoa, não na religião 

A queda no número de praticantes do catolicismo no Brasil reflete na situação da comunidade católica em Joinville: segundo os dados do último censo do IBGE, a população evangélica cresceu entre 2000 e 2010 (de 22% para 28%) enquanto a católica diminuiu (de 73% para para 64%) no mesmo período. 

Dom Francisco avalia este movimento em três tópicos: a queda na credibilidade de algumas instituições, em meio ao egocentrismo e relativismo da sociedade; a busca pelo acesso mais rápido e a acomodação da Igreja Católica brasileira em determinado período. 

— Aquilo que recebemos dos nossos pais foi altamente forte e determinou as nossas vidas no campo da fé. A fé era transmitida muito mais facilmente aos filhos do que hoje — analisa ele, referindo-se ao primeiro ponto.

Segundo o novo bispo de Joinville, é cada vez mais comum ouvir de um fiel que era católico e passou a frequentar outra religião pela facilidade de ter uma igreja mais perto de casa, assumindo que o mais importante é cumprir os deveres com Deus. Ele cita o Papa João II para dizer que o valor está na pessoa, e não na religião: "A pessoa é mais importante por ser pessoa do que pela religião que pratica". 

— Quanto maior é um organismo, mais confortável ele sente-se e não se preocupa em manter ou aumentar. É o que acontece com a Igreja Católica: se voltarmos aos anos 60, éramos em 95% de católicos no Brasil. Não havia outras possibilidades — reflete, ao explicar o terceiro tópico. 

Crime em Joinville 

O recente caso de denúncia sobre abuso sexual praticado por um padre é considerado "um problema de tolerância zero", segundo Dom Francisco, ressaltando que o papel de juiz cabe às autoridades competentes. 

— Nunca queremos que situações como estas aconteçam. Episódios como este que ocorreu, se comprovados, afetam por um determinado tempo. Hoje temos um raio de velocidade da informação que levam e depois desaparecem com as informações muito rápido também. Nossa memória é muito curta. Mas isso não justifica o ato, que fique explicado.

Falar, rezar e convidar 

Uma das prioridades de Dom Francisco é conseguir em Joinville uma movimentação na pastoral vocacional da mesma forma que viu acontecer em São José dos Pinhais nos últimos anos: atualmente, 22 jovens estão no seminário da cidade, que precisou de reformas para atender a todos, já que há expectativa de novos seminaristas chegando ao nível superior (teologia e filosofia) nos próximos anos. O baixo número de novos sacerdotes preocupa e impede o aumento do número de paróquias, que não segue o crescimento geográfico das cidades. 

— Eu não vejo futuro para a nossa Diocese sem uma pastoral vocacional forte, porque padres ainda nem formados hoje é que ditarão o rumo da igreja amanhã —  afirma. 

Segundo ele, uma das primeiras ideias adotadas por ele na Diocese de Joinville é a de incentivar a cultura vocacional. Dom Francisco afirma que ela precisa de apenas três palavras: falar, rezar e convidar.

— É nessa última que falhamos muito. Se eu perceber um jovem ou uma jovem dentro da minha comunidade, meu bairro, minha família, que tenham afinidade pelo sagrado, deixem a perguntinha: você, por acaso, já pensou em ser padre? 
Isso dá um resultado fantástico.

Jovens na igreja 

Pesquisas como o censo de 2010 e o Datafolha de 2013 mostraram que o número de jovens entre 16 e 24 que se reconhecem como católicos diminuiu em cerca de 30% nos últimos anos. O bispo Dom Francisco afirma que o tema foi um dos assuntos da última conferência dos bispos brasileiros - como garantir a iniciação à vida cristão com continuidade, e não apenas para cumprir os três primeiros sacramentos - e que manter os jovens na igreja é um desafio que já projetos em execução.

— Temos, em algumas dioceses, escolas de formadores de um juventude autêntica. O protagonista da evangelização do jovem deve ser o outro jovem. É o único caminho que funciona. 

Política x Politicagem

Questionado sobre a participação dos padres na política, o novo bispo de Joinville foi categórico: não permite padres com filiação partidária em sua diocese. Segundo ele, a política partidária para o episcopado e o sacerdote é altamente negativa: a política na igreja católica é a do bem comum, de colaborar com os princípios de respeito à vida e à dignidade das pessoas.

— Vou avisar aos meus sacerdotes na primeira reunião, como fiz nas outras dioceses por onde passei, que, no momento em que um padre se alista em um partido político eu o suspendo de suas funções. Não precisa nem candidatar-se. Se alguém está, que deixe logo — avisou. 

Para ele, é compreensível que, em um determinado momento da história brasileira, o envolvimento entre religião e política fosse inevitável. Ele ocorreu principalmente durante os anos de ditadura militar, quando bispos se posicionaram a respeito do sistema político, até mesmo apoiando o surgimento de novos partidos. 

— Hoje é um pequeníssimo grupo que tem um contexto partidário muito forte. Por que aparece tanto? Porque uma árvore que cai faz mais barulho do que as que estão crescendo em uma floresta. Certos temas são muito ruidosos. 

História 

Dom Francisco Carlos Bach chega a Diocese de Joinville para ser o quinto bispo diocesano. Ele nasceu em Ponta Grossa, no estado do Paraná. Em 1964, ingressou no Seminário Menor Diocesano de São José, em sua cidade natal. Cursou filosofia no Seminário Maior Rainha dos Apóstolos, em Curitiba, e Teologia no Studium Theologicum, também em Curitiba.

 Foi ordenado sacerdote por Dom Geraldo Micheletto Pellanda em 1977 e incardinado na Diocese de Ponta Grossa. Entre os anos de 1985 e 1987, realizou Mestrado em Direito Canônico na Universidade de São Tomás de Aquino, em Roma. O Papa Bento XVI o nomeou bispo no dia 27 de julho de 2005. 

Celebração de posse

A cerimônia de celebração da posse ocorre na Catedral São Francisco Xavier a partir das 15 horas. A celebração será presidida por Dom Wilson Tadeu Jönck, arcebispo de Florianópolis. Parte da cerimônia será transmitida pelo Facebook da Diocese de Joinville.

 
 

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