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Racismo em discussão24/06/2015 | 18h35

Professora de Joinville fantasiada com blackface gera discussão nas redes sociais

Movimentos negros acusam colégio de racismo. Professora justifica que a fantasia era uma homenagem às namoradeiras de Minas Gerais

Professora de Joinville fantasiada com blackface gera discussão nas redes sociais Arquivo Pessoal/Arquivo Pessoal
Professora do 4º ano, Adenise Reis costuma usar fantasias diferentes em todas as festas Foto: Arquivo Pessoal / Arquivo Pessoal

A fantasia de uma festa junina de uma escola de Joinville ganhou repercussão sobre racismo nas redes sociais e em âmbito nacional nesta semana. As páginas do Coletivo de Mulheres Negras de Joinville e do Movimento Negro Maria Laura compartilharam a foto de uma professora utilizando o blackface, com o rosto pintado de preto, publicada no Facebook do Colégio Santos Anjos com uma carta de repúdio endereçada ao colégio, na espera de respostas na última segunda-feira. 

Segundo os movimentos, utilizar blackface é uma afronta, como uma forma de ridicularizar, por meio da caricatura, o estereótipo da mulher negra e analfabeta. O blackface é conhecido por ser uma representação caricata de artistas brancos interpretando personagens negros, e é considerado um ato de racismo.

A publicação teve mais de 300 curtidas, 150 compartilhamentos e gerou mais de 190 comentários. Os participantes são, na maioria de professores e estudantes da instituição. A publicação divide opiniões entre os internautas: alguns mostraram indignação em relação à atitude da professora, enquanto outros a defendem.

A escola pediu desculpas em nota no Facebook, também gerando comentários e discussões. A diretora do Colégio dos Santos Anjos, Adelina Dalmônico garante que não houve intenção de ridicularizar os negros. Segundo ela, todos os anos a professora veste uma fantasia diferente para comemorar com pais, alunos e professores na festa junina da escola. O evento foi realizado no último sábado, 20 de junho.

— Gostaria que a comunidade entendesse que nós jamais, em algum momento, tivemos a intenção de ofender a raça negra, pelo contrário, nós reconhecemos todos como uma grande família humana — comenta a diretora.

Adenise Costa Reis, que é professora do 4º ano do ensino fundamental do Colégio dos Santos Anjos, conta que a roupa, junto com os acessórios, eram uma homenagem às namoradeiras de Minas Gerais — bonecas feitas em gesso ou madeira que tornaram-se peças de artesanato famosas naquele Estado. Ela ainda diz que a ideia surgiu pelo fato de o marido ser mineiro.

— Eu não associei em momento algum a fantasia ao blackface. Admito que foi ignorância e ingenuidade da minha parte. Já pedi desculpas nas redes sociais e peço novamente. Estou com a minha consciência tranquila, tenho amigos que fazem parte do Movimento Negro Maria Laura — justifica.

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Representação que ridiculariza

O professor de filosofia e ciências sociais, Belini Meurer explica que blackface é uma expressão nova para representar o fato de uma pessoa branca se fantasiar de negra. A expressão pode ser nova, mas o ato é antigo. Os blackfaces foram formas teatrais de pintura facial e corporal, usadas em geral por artistas brancos, para representar pessoas negras, no século XIX. Essas representações eram exageradas e ridicularizavam os estereótipos da população negra em espetáculos populares nos Estados Unidos.

— Acredito que este caso foi de ignorância, e não por maldade. Mas também não pode ser aceito que uma instituição de ensino não esteja por dentro da legislação e não valorize a cultura negra. De uma pessoa comum pode se perdoar, mas uma instituição de ensino não ter este conhecimento é imperdoável — afirma.

O professor explica que, a partir do momento em que há desvalorização e gracejo com qualquer aspecto físico por conta de uma identidade étnica, pode ser considerado racismo. Ele ainda acrescenta que, no Brasil, uma boa parcela da população é negra e foi escravizada, e o reparo dos erros passados estão sendo consertados até hoje. Para isso, segundo ele, é preciso que exista discussão sobre o tema nas escolas.

— O debate nas redes é válido para repensar o racismo e também para apresentá-lo a quem não tinha o conhecimento sobre o blackface. Mas o importante é trazer o debate para casa, escola e também para o trabalho — salienta.

Segundo a professora de história da arte Vanessa da Rosa, a pessoa negra representada com a blackface geralmente era "a boba" ou "a doente". Ela complementa que o negro não é objeto folclórico e que, para representar uma etnia, não é necessário mudar a cor da pele.

—- Não é só uma mulher vestida de negra, é uma mulher vestida de negra com atitudes bobas, o que torna pejorativo. Como professora, ela deveria ter o discernimento de que a falta de intelectualidade denigre a imagem do negro — enfatiza

Vanessa cita a lei 10.639, sancionada em 2003, para reforçar a importância da história e cultura afro-brasileira e africana ser ensinada e discutida dentro das salas de aulas. Segundo a professora, em Joinville, cerca de 17% da população é negra.

— Precisa haver uma sensibilização das escolas para legitimar a presença dos negros na cidade. As teorias racistas precisam ser discutidas e não só entre negros, mas para toda a sociedade — diz.

*Esta matéria foi escrita por Priscila Andreza e faz parte dos estudos de estágio no jornal "A Notícia" onde atua desde julho de 2014. Priscila cursa a 7ª fase do curso de jornalismo do Bom Jesus Ielusc.

Leia mais:
Clube do Cinema: Blackface no cinema - Uma história de racismo

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