Aprenda a se comunicar com os haitianos em crioulo - A Notícia

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Gente30/05/2015 | 06h01

Aprenda a se comunicar com os haitianos em crioulo

Número de refugiados em Joinville já é superior a mil pessoas e só cresce. Migração começou no fim de 2011

Aprenda a se comunicar com os haitianos em crioulo Salmo Duarte/Agencia RBS
Padre Saint Luc, que trabalha na paróquia do Itaum, ajuda os imigrantes de diferentes formas e também faz o papel de intérprete Foto: Salmo Duarte / Agencia RBS
Leandro S. Junges
Leandro S. Junges

leandro.junges@an.com.br

Eles começaram a chegar em Joinville aos poucos, anonimamente, em 2011. Chegavam de uma viagem desde Porto Príncipe, capital do Haiti, país praticamente devastado pelo terremoto de 2010.

Primeiro vieram aqueles que conseguiram algum dinheiro vendendo o que sobrou da tragédia e, principalmente, coragem para enfrentar uma viagem imigratória perigosa, clandestina e sem qualquer garantia da terra prometida.

Quatro anos depois, eles formam pequenos núcleos espalhados por Joinville, com até 50 famílias cada, especialmente nos bairros Comasa, Espinheiros, Itaum, Profipo e Saguaçu.

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Os grupos são fechados. Focados no trabalho, nos problemas do dia a dia. Estima-se que haja entre mil e dois mil haitianos na cidade. Não há um levantamento preciso.

É comum encontrá-los em grupos de quatro ou cinco pessoas, buscando juntos soluções para problemas simples, como documentação, um aluguel mais barato, entrega de currículos e tentativas de convencer os possíveis empregadores de que, mesmo não tendo qualificação específica para o setor, estão dispostos a dar o máximo.

Quase todas as famílias deixou parentes no Haiti que precisam de ajuda financeira. Muitos reúnem dinheiro para buscar algum familiar. É preciso pelo menos R$ 5 mil para as passagens de avião e ônibus entre Porto Príncipe e Joinville.

A maioria dos refugiados usa rotas alternativas, voando até o Peru e depois tentando entrar por terra no Brasil, pelo Acre. De lá, o governo acreano em convênio com o Ministério da Justiça lota verdadeiros comboios de até 20 ônibus e os espalha pelo Brasil.

Os Estados de São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul são os mais procurados. Nesta sexta-feira encerrou um dos convênios em que mais de 20 ônibus partiram do Acre com destino ao Sul do País. Desta vez, somente um haitiano desceu em Joinville. Em Florianópolis, quatro ônibus deixaram mais de 50 pessoas.

Três anos depois de chegarem os primeiros haitianos, não é o sucesso ou a prosperidade financeira dos conterrâneos que vieram antes que atrai quem se aventura.

É a esperança de reconstruir a vida com oportunidades de trabalho e estudo.

Convivência pacífica

Os haitianos e as famílias que os acolheram em Joinville estão alheios aos comentários em redes sociais ou a qualquer manifestação de preconceito.

A cirurgiã-dentista Roselene de Vicente, que mora no Comasa, é uma das referências para os haitianos que buscam empregos na zona industrial, especialmente na Tupy.

Ela já ajudou pelo menos 50 famílias e seu consultório é comum haver duas filas, uma para o atendimento odontológico e outra de haitianos buscando algum tipo de ajuda.

— Ajudamos em absolutamente tudo. Da burocracia para conseguir os documentos até levar para o hospital — diz Rose, como é chamada pelos haitianos.

Segundo o chefe da Delegacia da Polícia Federal em Joinville, Oscar Biffi, não há incidentes ou conflitos envolvendo os refugiados haitianos em Joinville e no Norte de Santa Catarina, área de atuação da delegacia.

Com o número do protocolo conseguido na entrada no Brasil, nas zonas de fronteira, os haitianos tornam-se oficialmente refugiados e têm o direito de circular normalmente pelo País.

Mas para trabalhar é preciso fazer a carteira de trabalho e o restante dos documentos, identidade, CPF, carteira de motorista. Esta semana, o Ministério do Trabalho emitiu um comunicado informando que haverá uma espécie de mutirão para agilizar a documentação.

Ajuda da igreja

A igreja Católica tem sido fundamental na recepção dos imigrantes. Famílias ligadas às pastorais que não têm qualquer relação com a imigração, nas paróquias São Judas Tadeu, Nossa Senhora de Fátima e São Paulo Apóstolo, se revezam nas tarefas mais básicas.

E quando o assunto é ajuda aos haitianos, uma figura sempre aparece nas conversas: o padre Saint Luc, que já morava fora do Haiti quando o terremoto atingiu a ilha e chegou em Joinville praticamente no mesmo movimento imigratório que os primeiros haitianos refugiados.

Hoje ele é chamado de padre Lucas e trabalha na comunidade da Paróquia Nossa Senhora de Fátima, no Itaum, na zona Sul da cidade.

Tem atividades religiosas e burocráticas como qualquer outro padre da diocese de Joinville. Missas, visitas à comunidade, orações, ajuda espiritual a quem precisa.

E, entre cada compromisso, ele encontra tempo para dar uma palavra às famílias haitianos, ajuda como intérprete, com documentos, aluguel, comida, roupas, o que for preciso.

— Eu queria falar com o prefeito de Joinville, dar uma palavra sobre a importância de ajudar nesse momento — diz Luc.

Por enquanto, está em embrião a proposta da igreja católica de estruturar uma pastoral da imigração, que atenderia não apenas aos haitianos, mas a todos os estrangeiros que chegam em Joinville.

Em busca de emprego

Laurent Gean tem 30 anos e está no Brasil há um ano. Ele e a mulher deixaram os filhos em Porto Príncipe. Ela conseguiu trabalho. Ele, ainda não. Maliah Boux tem 27 anos e dois filhos, um deles nascido no Brasil.

Hoje, mora com os dois em Joinville. Cada família tem uma história, mas todas têm algo em comum: buscam emprego, a todo custo, para pagar as despesas aqui e ainda ajuda quem ficou no Haiti.

Eles não gostam de fotos e não se deixaram fotografar para essa reportagem. Mesmo assim, concordaram em falar sobre a situação vivida na cidade. Reconhecem um esforço da comunidade para acolhê-los, mas ainda sentem muitas barreiras.

A falta de vagas de trabalho para todos e a dificuldade com a língua são as principais. Quase todo haitiano é bilíngue e fala fluentemente crioulo e francês ou crioulo e inglês. Alguns deles têm os três idiomas no currículo. Mas quase nenhum fala português com fluência.

Quebre o gelo.

Se você encontrar um grupo de haitianos conversando rapidamente, numa língua indenfinível, é muito provável que eles estejam falando crioulo. A língua é muito parecida com o francês. Com a ajuda do padre Saint Luc, a reportagem de A Notícia traduziu uma série de expressões e frases que podem ajudar na comunicação com entre joinvilenses e haitianos.

Uma oportunidade para quebrar o gelo, falar com os haitianos, aprender sobre sua cultura e estreitar os laços com essa comunidade que cresce a cada dia na cidade. A pronúncia não é tão complicada. Na dúvida, basta seguir o som normal das letras escritas. A maioria das palavras se pronuncia exatamente como se escreve.

Há uma série de formas contraídas, como no inglês ou no português, mas a linguagem padrão é perfeitamente entendida por eles.

Confira:

Bom dia.
Bonjou. (Durante todo o dia. Não há o uso corrente do boa tarde)

Boa noite.
Bónnwit. (Para ir dormir)

Oi. Tudo bem?
Ola, kijan ou ye?
Toute bagay anfóm?

Eu estou bem. E você?
Mwen bye. E ou menm?

Meu nome é Leandro/Antônio/Osvaldo. E o seu?
Non mwen se Leandro/Antônio/Osvaldo. E ou menm?

Eu trabalho no jornal A Notícia.
Mwen ap travay nan jounal A Notícia.

Onde você trabalha?
Kitote ou ap travay?

O que você faz em Joinville?
Kisa ou ap fé isist la nan Joinvillle?

Você precisa de ajuda?
Ou bezwen yon éd?

Sim. Não. Talvez.
Wi. Non. Petét.

Tchau/até logo.
Orevwa. Na wé ankó.

Por favor.
Tanpri / tampri souple.

Obrigado.
Mési.

De onde você vem?
Kikote ou soti?

Onde você nasceu?
Kikote ou fét?

Não estou entendendo. Como se diz ...
Nwen pa konprann. Kisa ou di...

Quantos anos você tem?
Ki laj ou genyen?

Eu não falo crioulo nem francês.
Mwen pa pale ni kreyól, ni fransé.

O que você gosta de comer?
Kisa ourenmen manje?

Você gosta de arroz/feijão/macarrão/carne/suco/cerveja?
Ou renmen diri/pwa/makanwoni/ji/bié/bwason?

Qual a sua experiência profissional?
Ki ekoperyans pwofesyionél ou geiyen?

O que você estuda/estudou?
Kisa w´ap edidye/kisa ou etidye?

Tem habilidade para trabalhar em que setor?
Man ki sekté ou genyen fasilite/diplóm ou traway?
Mani ki branch ou gen fasilite pou ou traway?


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