Entenda o efeito dominó do declínio do Joinville nos últimos anos - Esportes - A Notícia

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Futebol17/07/2018 | 19h56Atualizada em 17/07/2018 | 19h56

Entenda o efeito dominó do declínio do Joinville nos últimos anos

JEC está próximo de confirmar o terceiro rebaixamento em quatro temporadas. Erros em todos os setores do futebol pesam para a possível queda

Entenda o efeito dominó do declínio do Joinville nos últimos anos Salmo Duarte/A Notícia
Foto: Salmo Duarte / A Notícia

O Joinville está muito perto de alcançar um "feito" que não dará nenhum orgulho aos seus torcedores. Último colocado da chave B da Série C, o JEC pode ser rebaixado à Série D nas próximas semanas. Seria o terceiro rebaixamento em quatro anos. O curioso é que até 2014, o Tricolor servia de exemplo para os rivais em catarinenses. Em cinco anos, três acessos e dois títulos brasileiros. No entanto, de lá para cá, a queda tem sido tão rápida quanto os acessos. 

Difícil explicar como podem ter acontecido tantos erros em tão pouco tempo. Fica ainda mais incompreensível pelo fato de cada um dos rebaixamentos ter ocorrido gestões diferentes. Em 2015, o JEC caiu da Série A com Nereu Martinelli como presidente. Em 2016, no rebaixamento da Série B para a Série C, a gestão do clube estava nas mãos de Jony Stassun. Agora, se for confirmado o descenso para a Série D, ele ocorrerá sob o comando de Vilfred Schapitz.

Vilfred Schapitz assumiu oficialmente a presidência em abril, antes do início da Série C. Mas, nos bastidores, ele e outros diretores já estavam no JEC desde janeiro. Atuavam como diretores da gestão de Jony para facilitar a transição. Esta "mistura de comandos" só foi possível após uma série de embates no conselho deliberativo. 

No ano passado, Jony disse que poderia sair do clube desde que se apresentasse no conselho um grupo disposto a assumir o clube. Vilfred, Alexandre Poleza (atual diretor financeiro), Carlos Grendene (atual diretor da base) e José Acácio Piccinini (atual diretor jurídico) se apresentaram e tentaram fazer a transição. No entanto, segundo eles à época, o ex-mandatário não promovia a transição. 

Estes diretores, unidos a outros conselheiros, buscaram o impeachment de Jony. Depois de alguns conflitos, os dois lados cederam e este grupo passou a atuar na diretoria de Jony desde janeiro para entender como estava o clube. Em abril, foram empossados de forma oficial. Com a caneta nas mãos de Vilfred, começaram a surgir as primeiras decisões. Acompanhe abaixo o passo a passo dos erros do atual comando.

As primeiras ações
A primeira decisão da atual diretoria foi demitir a dupla Carlos Kila/Rogério Zimmermann. Kila tinha um histórico ruim de contratações — foram 29 em 2017 com apenas a quinta colocação do Estadual (correndo risco de rebaixamento no turno) e a eliminação precoce na primeira fase da Série C. Além do baixo aproveitamento na busca de jogadores, era questionado internamente por não ter autoridade diante de Rogério Zimmermann.

Zimmermann foi o responsável direto pelas contratações de jogadores para 2018. Alguns deles o próprio treinador negociou diretamente. Os resultados eram razoáveis, mas passou a der questionado por torcida e imprensa por causa de seus métodos e declarações. Com ele, todos os treinos eram completamente fechados. O relacionamento com alguns profissionais do staff do clube não era bom.

Dentro de campo, perdeu todos os clássicos e deu declarações sem sentido, como considerar um ótimo resultado o empate com o então lanterna Inter de Lages, em Lages. Tudo isso pesou contra, mas a sua demissão ainda foi uma surpresa.

Sem plano para o futebol
Antes da demissão de Carlos Kila, a nova diretoria apresentou o ex-jogador Adilson Fernandes. De volta depois de anos no Oriente Médio, ele teria a missão de buscar negócios para ativos do clube no exterior. Em tese, a nova diretoria tinha um plano para o futebol. Na verdade, não tinha.

Com a saída de Kila, Adilson acumulou a função de gerente de futebol. Meses depois, reconheceu a setoristas do JEC que não estava apto para exercer esta função. Adilson ainda passou muito tempo longe do Brasil (estava desatualizado) e trazia no currículo de superintendente de futebol o rebaixamento pelo próprio JEC, em 2004. 

Na segunda-feira, em comunicado oficial, o Joinville informou que Adilson será remanejado para a função para a qual foi contratado. O clube ainda busca um novo gerente de futebol. Ou seja, o JEC assumiu ter cometido um equívoco. 

A parceria
Após a saída de Rogério Zimmermann, a diretoria trouxe Matheus Costa, dando início à parceria com a LA Sports - sempre negada pelo próprio clube. Logo após, vieram os jogadores da LA (o próprio Matheus Costa também era agenciado pela empresa). Chegaram nomes de peso com o zagueiro Emerson Silva, o volante Pierre, o lateral Jonas, o meia Davi e o atacante Misael.

Dentro de campo, eles não deram resultado. Nenhum dos cinco tinha o perfil da Série C. No entanto, o comitê de futebol do Joinville não chegou a fazer um estudo a respeito de cada um dos atletas. O acerto com eles aconteceu porque o comitê de futebol do Joinville confiou plenamente no currículo dos atletas e na oferta do empresário Luiz Alberto Oliveira.

Confiava tanto que Luiz Alberto Oliveira frequentava livremente o vestiário, algo anormal e que causava estranheza de alguns atletas.

Os contratos
Os acordos com os atletas da L.A. Sports foram feitos prevendo produtividade. Todos ganhariam mais se o JEC subisse. Como o fato esteve longe de acontecer, começou a debandada. Era mais fácil rescindir (mesmo amigavelmente) e procurar outro mercado do que ficar no JEC, ameaçado pelo rebaixamento. 

Para piorar, a atual diretoria não tinha a real noção do buraco financeiro que vive o Joinville. O atraso dos salários não chegou a ser significativo, mas promessa de ter os vencimentos em dia não foi cumprida e irritou estes jogadores.

Demissões de Matheus e Márcio Fernandes
Os resultados ruins obrigaram o Joinville a demitir Matheus Costa. Começava ali a ruir a parceria com a L.A. Sports. Antes, o clube foi ao mercado procurar um novo técnico. No entanto, em razão da falta de dinheiro, chegou a ficar mais de 48 horas sem um comandante. Trouxe Márcio Fernandes depois de tomar negativas de Hélio dos Anjos, Gilmar Dalpozzo e Pintado. O atual comandante foi a última das opções.

Mesmo assim, chegou ao JEC com plenos poderes como técnicos de outra gestões. Com a saída dos atletas da L.A., Márcio indicou e trouxe Gualberto, Filipe Costa, Tiago Ulisses e Zotti. Todos jogadores com os quais já havia trabalhado. Fez isso com a concordância do comitê de futebol. 

No entanto, Márcio Fernandes conseguiu resultados pouco expressivos, apesar das mudanças no elenco. Em nove rodadas, somou apenas sete pontos. Mudou completamente o sistema defensivo e o JEC, sem sucesso. A defesa passou a ter média superior a dois gols sofridos por jogo. 

Márcio ainda foi infeliz nas entrevistas. Responsabilizava os jogadores e chegou a declarar que os adversários perderam o respeito pelo Joinville. A gota d'água foi a goleada por 5 a 0 para o Cuiabá, que deixou os chances com chances remotas de escapar. 

O comitê
O comitê de futebol do Joinville foi uma ideia que surgiu no ano passado, no conselho deliberativo. Na prática, foi um fracasso. O conceito era ter pessoas muito envolvidas com o futebol para haver mais discussão (e mais acerto) nas contratações. Assim, se evitaria a gestão "terceirizada" - nos últimos anos, o JEC dava plenos poderes a um executivo (Júlio Rondinelli e Carlos Kila), confiava plenamente nele e não havia questionamento do trabalho.

No entanto, neste ano, se fez pior. Além de não haver a figura de Rondinelli ou Kila, não havia ninguém focado em montar o time, acompanhar os atletas, viver o futebol 24 horas. O comitê é formado pelo presidente (focado em outras áreas do clube e nos negócios da sua empresa particular); um diretor financeiro (focado nas contas e também em sua vida profissional); um médico (atento à saúde dos atletas, mas também focado nos seus negócios profissionais); um advogado (atento às questões legais, mas também focado em seus negócios profissionais); e um superintendente de futebol, que admite que não é a sua área buscar a contratação de jogadores.

A matemática
O Joinville tem quatro jogos na reta final da Série C. Lanterna com dez pontos, o Tricolor está quatro atrás do Tupi-MG, penúltimo colocado, e cinco atrás do Tombense-MG, primeiro time fora da zona do rebaixamento. Um cálculo seguro considera que o JEC precisa de três vitórias e um empate - dez pontos para alcançar 20. Historicamente, apenas o São Caetano, em 2014, caiu com mais de 20 pontos. 

Das quatro partidas restantes, duas são em casa e duas são fora. Três delas serão confrontos diretos - Tupi (F), Luverdense (C) e Volta Redonda (F). Antes, o Joinville enfrenta o o Botafogo-SP, terceiro colocado, neste domingo, em casa. Uma combinação de resultados e vitórias contra Tupi e Volta Redonda podem ajudar o Tricolor a se livrar da queda com menos de 20 pontos - 18, talvez. 

 
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