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Cairo11/06/2018 | 14h41

O Ramadã dos jogadores da Copa, um tema delicado

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Um jogador de alto nível pode ficar em jejum? A questão sempre gera debate nos países muçulmanos e volta à pauta agora por causa da Copa do Mundo da Rússia-2018, em um nem sempre fácil equilíbrio entre a fé e o rendimento físico.

Para as seleções de países muçulmanos classificadas para a Copa da Rússia, o jejum pelo Ramadã, cujo término coincide com o início da competição na quinta-feira (14), se mostrou um desafio especial na preparação do evento.

O Egito não venceu nenhum amistoso nas últimas semanas e tem mostrado uma imagem não muito esperançosa, como no amistoso de quarta-feira no qual perdeu por 3 a 0 para a Bélgica.

Mas os "Faraós" haviam decidido fazer o jejum durante o Ramadã, como destacou sua federação nacional em um comunicado no fim de maio.

- Rendimento afetado -

O técnico argentino do Egito, Héctor Cúper, abordou este tema delicado após o recente empate contra Colômbia, 0 a 0, considerando que "o jejum praticado pelos jogadores afetou o rendimento".

Pouco antes, havia explodido uma polêmica nas redes sociais, quando Mohamed Salah optou por não fazer jejum antes da final da Liga dos Campeões, na qual o Liverpool perdeu por 3 a 1 para o Real Madrid.

Sua lesão durante a partida foi interpretada no Twitter como um "castigo divino" por alguns. Outros saíram em defesa do ídolo nacional, o que acendeu os ânimos.

Na Arábia Saudita, país guardião dos lugares santos do Islã, Adel Ezzat, presidente da Federação Nacional de Futebol, causou polêmica no início do ano ao anunciar que os jogadores deveriam "obter uma licença" para que pudessem evitar o jejum do Ramadã.

Nas redes sociais, muitos árabes criticaram essa postura.

O famoso responsável religioso Saleh Al Maghamsi havia apoiado Adel Ezzat, afirmando que "os jogadores árabes que vão à Copa do Mundo, se quiserem, têm o direito de não fazer o jejum, já que estarão viajando", uma das condições para que os muçulmanos possam ser dispensados do jejum.

Na Tunísia, onde os jogadores adaptaram a sua preparação ao jejum, a questão da conciliação da religião com o esporte está sempre presente.

"Esporte e jejum é uma equação difícil. É igualmente um debate antigo, que não terá fim. Pode ser que a Ciência faça progressos algum dia e nos proponha novos métodos com o objetivo de que os atletas de alto nível possam fazer o Ramadã sem considerar muito a questão", escreveu o jornal La Presse.

O técnico do Marrocos, o francês Hervé Renard, afirmou em um encontro com a imprensa no fim de maio que não quis abordar o tema "de forma deliberada porque é um assunto delicado".

O Conselho Superior dos Ulemás, único organismo religioso habilitado no Marrocos a emitir fátuas (pronunciamentos religiosos), não se manifestou sobre a questão.

- 'Equilíbrio alimentar' -

Os clérigos solicitados pela imprensa local destacaram que os jogadores poderiam ser considerados como "viajantes", o que, de fato, lhes permite não ter que cumprir o jejum nas datas concretas.

Diante de um tema tão delicado, a famosa instituição sunita Al Azhard, com sede no Cairo, se mostrou cautelosa.

"Se os atletas têm problemas e incômodos, atingindo o limite de sua capacidade para combinar o jejum com o cumprimento de suas funções e deveres, podem deixar de fazer o jejum", assegurou à AFP o Centro Internacional de Fátuas de Al Azhar.

A prática do jejum, se for bem controlada, não impede, em princípio, uma boa preparação para uma competição de alto nível como a Copa do Mundo, indicou à AFP Cherif Azmi, médico egípcio de esporte e ex-assessor em nutrição para equipes profissionais.

"Para um atleta, e especialmente para um jogador de futebol, é necessário manter um certo equilíbrio alimentar durante o Ramadã", detalha.

Proteínas, matérias graxas, açúcar, glicídios e, sobretudo, água, devem ser consumidos nas proporções adequadas ao longo das três refeições principais, destaca.

* AFP

 
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