"Tudo ainda lembra muito eles", diz Nenén, jogador há mais tempo na Chapecoense - Esportes - A Notícia

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Um ano de reconstrução28/11/2017 | 08h30Atualizada em 28/11/2017 | 08h30

"Tudo ainda lembra muito eles", diz Nenén, jogador há mais tempo na Chapecoense

Não relacionado para o jogo na Colômbia, meia fala da saudade dos companheiros

"Tudo ainda lembra muito eles", diz Nenén, jogador há mais tempo na Chapecoense Marcio Cunha/Especial
Foto: Marcio Cunha / Especial

Mesmo não tendo atuado muito neste ano de reconstrução da Chapecoense, o meia Nenén foi um dos pilares do time no vestiário. Foi ele o responsável por repassar aos jogadores que vieram de várias partes do país e do exterior o DNA do clube, que saiu de campos esburacados para figurar até no cenário internacional.

Um ano depois da tragédia, Nenén lembra com saudade dos antigos companheiros. Antes do acidente, tinha programada uma viagem com alguns dos amigos que perdeu para curtirem as férias com as famílias na República Dominicana. 

Aos 30 anos, o meia, que tem contrato encerrando no final do ano, pretende continuar jogando mais um tempo. Ele já completou 285 jogos pelo clube e é um dos jogadores que mais tem o carinho da torcida. Em conversa com o DC, ele fala um pouco sobre o passado, da saudade das vítimas, e sobre a transformação do Verdão, que deixou de ser um pequeno clube do interior, repleto de dificuldades, para se tornar umas das referências do futebol brasileiro.

O que te fez ir para a Chapecoense?
Nas vezes que jogava contra a Chapecoense, chamava a atenção o apoio do torcedor nos jogos, a paixão que tinha, a casa cheia. Era difícil jogar aqui, pelo torcedor, pela camisa que tinha a Chapecoense. E alguns treinadores tinham falado bem do clube, como Abel Ribeiro.

Naquela época, eram muito mais complicadas as viagens, não é?
Lembro que a direção tinha que ir na casa do seu Plínio (De Nes, atual presidente) pedir empréstimo, porque o que tinha em caixa não pagava a viagem. Todos queriam o acesso, mas cada vez que ia passando de fase, as contas iam aumentando com viagens, hotéis. O Jandir  (Bordignon) e o Nei (Maidana) faziam umas correrias para conseguir bancar as viagens.  Em 2009, viajamos de avião no jogo da final contra o Avaí (2009) e uma na volta de um jogo contra o Joinville. Era raro viajar de avião. Jogava no domingo, em Criciúma, e voltava de ônibus para Chapecó. Jogava na quarta-feira, e aí viajava de novo. Na Série D também, a maioria das viagens era de ônibus e longe, tinha que viajar dois dias de ônibus.

Lembro que, na época, havia muita dificuldade com campos para treinar, ônibus velho e falta de uma academia. Como vocês encaravam isso?
A estrutura era muito pouca, a gente ia treinar em Arvoredo pela manhã,  no inverno, e chegava do treino e colocava o moleton para secar e usar à tarde. Usávamos campos emprestados, que o pessoal cedia com boa vontade, mas teve dia que ia treinar e cara da comissão técnica tinha que limpar o campo, tirar a sujeira do cavalo. A estrutura era pouca, campo cheio de buraco, tinha dificuldades mas a gente sabia que coisas boas que viriam.

Como foi para vocês sair da Série D e chegar na Série A?
Nesse pensamento, a gente sabia que tinha dificuldades, mas que coisas boas viriam pela frente. Cada jogo, cada vitória, estávamos mais próximos da Serie e isso se tornava mais forte para que não deixasse a falta de estrutura fazer coisa cair. A gente sabia que ira colher os frutos, o que o clube poderia se tornar, para nós também particularmente o que aquilo iria acrescentar. Quando nos deparamos, estávamos na Série A, jogando no Maracanã, no Morumbi, fruto da persistência.

E a Sul-Americana? Aquele time do acidente era a base da equipe que surpreendeu contra o River Plate, em jogo que você foi titular.
A gente tinha jogado na Argentina na quarta-feira, a viagem foi cheia de atraso e enfrentaríamos o Avaí no fim de semana. Tinha um jogo de Série A e cansaço acumulando. Tinha perdido por 3 a 1 na Argentina e alguns jogadores acusaram cansaço, como o Camilo e  a Apodi. O Guto (Ferreira) disse que iria poupar alguns jogadores e deu oportunidade para mim e o Caramelo jogarmos. Manteve titulares como o Cleber (Santana), Dener, Neto e o Rangel entrou no lugar do Túlio de Melo. Fizemos aquele baita jogo, pessoalmente foi o meu melhor jogo com a camisa da Chapecoense. Dali saiu a manutenção da equipe do ano passado. Saíram alguns jogadores, mas era de praxe o clube ter essa essência, manter uma boa parte do grupo. Conseguiram manter quase 70% do grupo de 2015 para 2016.

Com quem você convivia mais daquele grupo?
Com a maioria, a gente tinha uma boa convivência, mas nós tínhamos uma convivência maior eu, Cleber, Thiego, Rafa Lima o Dener. Tinha uma turma mais evangélica, mas que se convidasse estaria junto, e nós da turma que gostava mais do pagode. A turma que tinha mais convivência era essa, o Kempes, o Moisés Ribeiro também. Acabava o jogo, nós nos reuníamos. O Rafa sabia tocar, o Kempes também, a gente se reunia com as esposas e crianças, num restaurante, salão de festas de alguém. Quando ganhávamos, ficava com a euforia e um já dizia: vamos reunir a galera. A gente se juntava para desfrutar da vitória.

Vocês iriam viajar juntos nas férias, não?
Nós tínhamos combinado uma viagem para Punta Cana, no final do ano passado, dia 10 de dezembro. Jogava a final (da Sul-Americana) no dia 8, e dia 10 tinha viagem com a família: eu, o Cleber, o Thiego, Dener, o Rafa, o Felipe Machado, o Kempes, Silvinho, Tiago Luis e Rafael Bastos. Estes três últimos não estavam mais no clube, mas, pela amizade, eles iriam junto conosco.

Vocês se visitavam com frequência?
A gente era de se visitar, a maioria das crianças estudava tudo junto, às vezes um pegava o filho do outro no colégio, deixava os filhos brincar na casa do outro. Sempre estava junto. O  vestiário era sem palavras, realmente era diferente, era diferenciada a convivência, não tinha explicação.

Você ainda pensa muito neles?
Não tem como não pensar a cada dia que chega ali. Era tão natural o que nós fazíamos. Tudo ainda lembra muito eles, o vestiário então. Comentei: é inevitável, é uma coisa com a qual a gente vai conviver a vida toda. A gente procura lembrar sempre das coisas boas, das horas que estava brincando, rindo, fazia bola de meia jogava um no outro. A gente tem que lembrar das coisas boas.

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