"Recuperação econômica começa a apresentar sinais de esgotamento", diz especialista - Economia - A Notícia

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Expogestão08/05/2018 | 09h36Atualizada em 08/05/2018 | 09h37

"Recuperação econômica começa a apresentar sinais de esgotamento", diz especialista

Carlos Alberto Primo Braga estará em painel na Expogestão nesta terça-feira em Joinville

"Recuperação econômica começa a apresentar sinais de esgotamento", diz especialista Divulgação/Divulgação
Foto: Divulgação / Divulgação

A Expogestão 2018 contará com um painel sobre os cenários político e econômico durante o primeiro dia de evento, nesta terça-feira, em Joinville. A partir das 18h10, Carlos Alberto Primo Braga, doutor em economia pela Universidade de Illinois, e, Rafael Cortez, doutor em ciência política pela Universidade de São Paulo (USP), abordam a realidade atual e as perspectivas que surgem diante do cenário político-econômico ainda incerto para as próximas eleições. Confira a entrevista com os palestrantes:

"Resultado da demanda por renovação vai ser uma certa decepção do eleitorado" , diz especialista em política, Rafael Cortez

QUEM É CARLOS ALBERTO PRIMO BRAGA
Economista, Mestre e Doutor em Economia pela Universidade de Illinois, Prof. de Economia Política Internacional, pelo IMD (Suíça), Prof. associado da Fundação Dom Cabral

A Notícia - Quanto o país está próximo de sair da crise econômica  situação e de voltar à índices como os de período pré-crise?

Braga - A economia brasileira vem se recuperando da recessão mais dramática de sua história moderna. O crescimento, no entanto, permanece medíocre e a sustentabilidade desta recuperação depende da implementação de uma série de reformas estruturais (liberalização comercial, reforma da previdência, reforma tributária...).  A crise – com seu impacto nos níveis de investimento, deterioração das contas públicas, e contração do mercado formal de trabalho – se traduziu também numa perda significativa do grau de confiança (tanto por parte de atores externos como domésticos) com relação ao dinamismo da economia brasileira. O crescimento potencial do Brasil, que era estimado ser da ordem de 4% ao ano no período pré-crise, caiu para cerca de 2% ao ano na atualidade.

A administração Temer iniciou uma série de reformas (controle de gastos governamentais, reforma trabalhista, mudanças no setor de óleo e gás) que, em paralelo com uma política monetária competente, pavimentaram o caminho para a atual recuperação econômica. A crise política deflagrada pelas acusações de corrupção (associadas com as denúncias da JBS) em 2017, no entanto, comprometeram o progresso da agenda de reformas. Como consequência, a recuperação econômica começa a apresentar sinais de esgotamento e as incertezas do atual quadro político não ajudam com relação a retomada de investimentos.

Nesse contexto, as eleições de 2018 serão extremamente importantes pois a menos que esta agenda de reformas seja implementada, o país enfrentará dificuldades crescentes com relação a sua situação fiscal (não apenas a nível federal, mas também a nível das unidades da federação) e a sustentabilidade da sua dívida pública.  A retomada do crescimento de forma sustentável também requer medidas que criem incentivos para o aumento da produtividade e para investimentos em capital fixo.  Em síntese, ainda estamos longe de recuperar o dinamismo da economia brasileira e caso estas reformas estruturais não ocorram a médio prazo, a recuperação ora em curso não terá “fôlego.”

AN - Quais podem ou devem ser as consequências deixadas pela crise na economia do Brasil?

Braga - A herança da crise inclui alto desemprego, ociosidade industrial elevada, endividamento do setor privado, retração de investimentos públicos e privados, o colapso financeiro de alguns estados da federação, e a expansão significativa da dívida pública.  A crise, porém, favoreceu o controle da inflação e a queda da taxa de juros.  Esses resultados no âmbito da política monetária são positivos, mas o grande desafio consiste em mantê-los se o desequilíbrio fiscal não for corrigido.  Caso o Brasil consiga manter a inflação sob controle e os juros mais baixos, tais resultados têm o potencial de revolucionar o mercado financeiro a médio prazo, melhorando a alocação de recursos e diminuindo o serviço das dívidas.

Um outro resultado positivo da crise foi a atenção renovada ao combate à corrupção.  A Operação “Lava Jato” tem alcançado resultados importantes em termos da repressão à corrupção.  O fato de executivos de grandes companhias e políticos influentes estarem sendo processados e punidos tem um efeito demonstração muito importante.  Em outras palavras, a crise contribuiu para alavancar esforços de melhoria na governança do setor público.  O apoio da sociedade a esses esforços é uma variável crítica para a sustentabilidade dos mesmos.  Ao mesmo tempo, as implicações políticas dos processos anti-corrupção, como ilustrado pela prisão do ex-presidente Lula, geram reações que tendem a polarizar o debate e alimentam confrontos entre o poder judiciário e os demais poderes constitucionais.  Seria ingênuo esperar que esta polarização política não viesse a ocorrer na medida em que o sistema político brasileiro, caracterizado por um Presidencialismo de “co-optação”, é um participante ativo neste eco-sistema de corrupção.  A Operação Lava Jato, porém, abre um novo capítulo para o país em termos de oportunidades de construção de sistemas mais efetivos de governança.  O grande desafio é o de complementar esforços de repressão com as reformas institucionais necessárias para o fortalecimento de instrumentos de prevenção contra a corrupção.

AN - Qual a projeção para a economia do país nos próximos anos? O que deveremos ver e esperar nesse cenário?

Braga - Como já observado, caso o próximo governo tenha condições políticas de implementar a agenda de reformas estruturais (em particular, a reforma da Previdência), preservando a estabilidade macroeconômica e introduzindo incentivos para investimentos em capital fixo e em produtividade, a economia brasileira poderá recuperar o seu dinamismo de uma forma sustentável.  Em tal cenário, o crescimento potencial da economia poderia convergir para uma tendência de crescimento anual por volta de 4% como no período pré-crise.

Uma variável fora do nosso controle diz respeito à saúde da economia mundial.  Embora as perspectivas atuais ainda sejam positivas (com o crescimento global devendo atingir cerca de 3,9% este ano), existem algumas ameaças que podem comprometer tais expectativas.  Tensões geopolíticas, tendências protecionistas, a normalização da política monetária dos EUA e o aumento da taxa de juros naquele país, e o endividamento crescente da economia chinesa merecem atenção.  Embora a economia brasileira esteja bem menos vulnerável a choques externos na atualidade, uma desaceleração da economia mundial poderá afetar o cenário positivo mencionado acima.

Por outro lado, caso as eleições brasileiras de 2018 resultem em um governo populista que privilegie a retomada do crescimento sem atentar para a importância do equilíbrio fiscal e de uma política monetária responsável, a recuperação econômica se transformará em mais um episódio de “vôo-de-galinha” na nossa história.

AN - O que o Brasil deve fazer de diferente para evitar uma nova crise econômica como a vivida no país nos últimos anos?

Braga - Além da continuidade de esforços com relação a recuperação do espaço fiscal, agendas de longo prazo dedicadas a incentivar investimentos em infraestrutura, melhorias nas áreas de educação, saúde e segurança, e, em particular, o aumento da produtividade na economia devem ser prioritárias.  O Estado brasileiro precisa reorientar a sua atuação, abandonando tendências intervencionistas através de operações de empresas estatais e investindo na qualidade dos seus órgãos reguladores.  A agenda de governança (incluindo o combate à corrupção) também merece esforços contínuos e uma campanha efetiva de comunicação para melhor explicitar os seus resultados para a sociedade.

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