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Economia27/01/2018 | 06h00Atualizada em 27/01/2018 | 06h00

Agronegócio de Joinville desperta para novas vocações

Além do tradicional cultivo de arroz, comunidade rural da cidade investe em novas culturas, como a piscicultura, e expande seus horizontes de negócios

Agronegócio de Joinville desperta para novas vocações Cleber Gomes/Especial
Piscicultura está entre os setores que registra crescimento em Joinville Foto: Cleber Gomes / Especial

Quando se fala de agronegócio em Joinville, não dá para negar, o arroz ainda é o cultivo mais importante da agricultura local, contudo, a estabilização na produção do grão vem despertando novas vocações para o homem do campo. Dona da maior população rural de Santa Catarina, com mais de 17,4 mil habitantes (IBGE), a cidade reúne quase dois mil produtores rurais, parte deles com investimentos que vão muito além do arroz.

Ganham espaço cada vez maiores mercados como a bovinocultura, a piscicultura, a apicultura e a plantação de palmeira real e pupunha. Também se sobressaem o setor granjeiro e do turismo rural, além do cultivo da banana, do aipim, da olericultura e da floricultura, em recuperação pós-crise e responsável por dar à Joinville a alcunha de cidade das flores. Para se ter uma ideia, o município mantém ao lado de Corupá, uma das maiores áreas plantadas de flores do Estado, são ao menos 210 hectares e produção anual de cerca de 1,2 milhão de mudas.

A diversificação e o impulso dessas atividades crescem à medida que o arroz mantém estável sua área de plantação e quantidade de produção, apesar de seguir com maior evidência nas propriedades rurais joinvilenses - composta por ao menos 350 produtores. Prova disso são os dados colhidos pela Secretaria de Desenvolvimento Rural (SDRural) e da Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (Epagri), que mostram que nos últimos dez anos a produtividade do arroz irrigado manteve índices aproximados.

Em 2008, segundo o órgão municipal foram produzidas 22.550 toneladas do cereal em três mil hectares. Enquanto em 2017, a produção chegou a 19.020 toneladas em uma área de 3,1 mil hectares informados nos dados da gerência regional da Epagri. Esse resultado torna a cidade a terceira maior produtora de arroz do Norte catarinense, atrás de Guaramirim e Massaranduba. A produção da região corresponde a pelo menos 25% do total produzido no Estado - segundo maior produtor nacional do grão e, que, só no ano passado teve valor bruto de produção avaliado em R$ 1 bilhão.

Estimativas da Epagri demonstram que neste ano o total produzido deve manter o mesmo patamar dos anos anteriores, mas o rendimento financeiro deve ser menor. Isso se dá porque na safra de 2017, por exemplo, o preço da saca abriu em R$ 45 e, neste ano, a R$ 33, abaixo do valor mínimo brasileiro (R$ 36), de acordo com o gerente regional da estatal em Joinville, Hector Silvio Haverroth.

— Se a produção atual for mantida, por conta do preço, o produtor pode ter uma quebra de até 30% no faturamento — analisa.

Na avaliação dele, essa dinâmica dos fatores pode influir na expectativa do agricultor em continuar na atividade ou migrar para outros cultivos. Alguns dos produtores, por exemplo, acabam arrendando o terreno para terceiros e passam a se dedicar a outros cultivos.

Investimento na piscicultura

 JOINVILLE, SC, BRASIL 19-01-2018Agronegócio em Joinville. Na foto: Valério Schiochet, produtor rural. Ele cria lambari, banana passas, farinhas de batata doce, banana e pupunha.
Produtor rural inicia produção de lambaris em propriedade rural do municípioFoto: Cleber Gomes / Especial

A decisão de arrendar o arrozal foi uma das iniciativas tomadas pelo agricultor Valério Schiochet em sua propriedade, na Estrada do Salto 2, no interior do município. Ele concedeu para terceiros o controle de cerca de oito hectares da plantação e passou a se dedicar ao setor da piscicultura, no qual a cidade também é um dos destaques estaduais. São 202 hectares de lâmina d’água usados por piscicultores no município, parcela significativa dos 854,70 hectares somados em 11 municípios da região. A área joinvilense chega a produzir 1.710 toneladas de peixes anualmente, principalmente a tilápia.

O investimento de Valério é feito em um setor que tem espaço ainda maior para crescimento, uma vez que o projeto de criação de lambaris, que desenvolve há dois anos, é pioneiro no município. Segundo ele, a espécie é nativa da região, tem demanda de consumo e serve como alternativa à monocultura, garantindo fonte renda e alimento. A expectativa dele é de que o investimento renda retorno de cerca de seis toneladas do peixe por ano.

— Tradicionalmente joinville foi o berço da piscicultura no estado e esse mercado se expandiu e, em termos de assistência técnica e de capacitação houve melhorias. Especificamente essa produção de lambari é um projeto ainda em desenvolvimento, na qual a intenção é produzir, beneficiar e comercializar o peixe congelado, que, já neste ano, deve ter produção próxima do projetado — destaca.

O indicativo de acerto no negócio resulta de investimentos feitos em 12 tanques no local e em uma sociedade em Balneário Camboriú para o beneficiamento dos lambaris, seguindo ao final para a comercialização. Os números do Estado também corroboram para a perspectiva, como destacado pela atual Síntese da Agricultura, que apontou crescimento de 1% na produção de peixes de água doce em 2016 com relação ao ano anterior. Nos anos imediatamente anteriores a elevação chegou a variar de 6% a 8%.

Em termos financeiros, a piscicultura profissional em Santa Catarina gerou mais de R$ 133 milhões na safra de 2016, considerando o preço de venda em aproximadamente R$ 4,50 por quilo do pescado. A quantia é decorrente de 29.637 toneladas movimentadas por produtores comerciais. Em contrapartida, o incremento poderia ser maior, devido a entraves que ainda limitam o avanço da atividade por conta da falta de licenciamento ambiental e o custo da mesma.

Na mesma propriedade outros exemplos de cultivo, parte deles em ascensão, como o caso da plantação de palmeira real e pupunha, são destaque. Há ainda investimento na utilização de tecnologias inovadoras para o campo, que permitem o feitio de produtos diversos para aproveitamento e venda, como farinha de batata doce e de banana - um dos três maiores itens cultivados no interior do município. Em 2016, por exemplo, a bananicultura registrou pelo menos 700 hectares de área plantada e 12.580 toneladas colhidas na cidade, com valor da produção alcançando R$ 6.647.058,40.

MERCADOS EM EXPANSÃO

JOINVILLE, SC, BRASIL, 06/01/2018  Plantação de arroz no Bairro Vila Nova em Joinville.
Plantação de arroz estagnou e provoca o desenvolvimento de novas culturas na cidadeFoto: Cleber Gomes / Agencia RBS

As palmeiras têm na região Norte a maior plantação no Estado, com estimativa de 4.024 hectares e 19.199.160 hastes. O destaque a nível estadual decorre principalmente da cultura voltada para o palmito (pupunha, palmeira real e imperial), ampliada por substituição de áreas arroz, banana ou pastagens que não viabilizam mais seu cultivo seja por falta de máquinas e mão de obra, seja pela busca de novas fontes de renda nas propriedades.

Na cidade, este cultivo vem aumentando ano a ano, sendo que atualmente a área de plantação varia em torno 395 hectares com rendimento de 5,0 toneladas a cada dez mil metros quadrados conforme a Epagri. Esse total coloca Joinville na terceira posição regional na área plantada, abaixo dos municípios de Garuva (400 ha) e Massaranduba (2.000 ha).

Considerando o somatório dos diferentes tipos de palmáceas, por exemplo, o crescimento é bastante visível nos dados da SDRural. Há dez anos a cidade contava com 200 hectares de área plantada ante 600 hectares informados à prefeitura no ano passado. A administração municipal contabiliza ainda cerca de, no mínimo, 85 produtores dedicados a atividade.

Outros destaques importantes no agronegócio local são as produções de aipim descascado, o desenvolvimento da apicultura e o número de agroindústrias, que chega a mais de 70. No caso do aipim, Joinville mantém aproximadamente 360 hectares de área, a maior dentre os municípios da região, e 6.500 toneladas ao ano, atrás apenas de Jaraguá do Sul, que lidera a produção com 7.000 (t). 

Já a apicultura vem conquistando destaque nos últimos anos e conta hoje com cerca de 180 apicultores no município, que juntos registram coleta aproximada de 120 mil kg de mel ao ano. Em 2017 foram produzidos 107.043 kg do líquido, quase cinco vezes maior que em 2016 (22.425 kg), porém abaixo dos 121.145kg produzidos em 2014.

A importância do setor para a região é refletida ainda no reconhecimento nacional que Joinville vem conquistando nesse mercado. Entre os dias 16 e 19 de maio, a cidade receberá o 22º Congresso Brasileiro de Apicultura e o 8º Congresso Brasileiro de Meliponicultura, no Complexo Expoville. O evento deve contar com mais de 2,5 mil pessoas de todo o país.

Produção Animal

A 38ª Síntese Anual da Agricultura de Santa Catarina, divulgada neste mês pelo Centro de Socioeconomia e Planejamento Agrícola (Cepa) da Epagri, demonstra que 60% do valor bruto de produção (VBP) dos principais produtos da agropecuária catarinense são decorrentes da produção animal. A área foi responsável por movimentar R$ 17.8 bilhões dos R$ 29.57 bilhões estimados em 2017.

Dentre os dez principais produtos da agropecuária do Estado no ano passado, metade é proveniente do setor: frangos, suínos e bovinos para abate, além do leite e ovos de galinha. Apesar de pequena participação estadual, Joinville é apontada no relatório como origem de 5,60 milhões das 896,81 milhões de aves produzidas em Santa Catarina e destinadas ao abate em 2016.

Os dados coletados pela Companhia Integrada de Desenvolvimento Agrícola de Santa Catarina (Cidasc) denotam ainda que, no mesmo ano, o Estado produziu e destinou ao abate 609,7 mil bovinos. Destes, 9.122 foram produzidos na microrregião de Joinville. Já em 2017, entre janeiro e novembro, o rebanho bovino na cidade bateu a marca de 14.773 cabeças. Os suínos têm população menor: 1,6 mil unidades informadas.

Outro destaque é a produção leiteira atingida dois anos antes, quando os produtores locais contabilizaram 30,8 milhões de litros produzidos, total 16,2% maior que o registrado em 2011 (26,5 milhões). O último levantamento, preliminar, mostra que, em território catarinense, o leite movimentou R$ 3.5 bilhões em VBP no ano passado.

APOSTA ACOMPANHA CRESCIMENTO DO MERCADO

 JOINVILLE, SC, BRASIL 19-01-2018Agronegócio em Joinville. Na foto: Ademir Kortman, da empresa produtora de ovos Avikol
Aviário Kortmann mantém atividade em funcionamento há mais de 50 anos na produção de ovosFoto: Cleber Gomes / Especial

Os ovos de galinha também tiveram representatividade crescente no período. Em 2017, foram contabilizados pela Síntese, R$ 943.398 milhões de VBP, quantia 13,6% superior ao gerado um ano antes, de R$ 830.137 milhões. O produto é a aposta de duas granjas joinvilenses, que acompanharam o crescimento do mercado consumidor nas últimas décadas. O investimento também apresenta potencial de retorno frente a outros itens da produção animal.

Proprietário do Aviário Kortmann, Ademir Kortmann, conta que o pai começou a se dedicar a produção de ovos há mais de 50 anos no município, atividade que atualmente ele dá sequência, chegando a produzir cerca de 630 mil unidades na granja da família. A aposta no produto, segundo ele, deve continuar forte devido a demanda pelo produto, que se intensificou na mesa dos catarinenses.

— Vendemos para cerca de 35 supermercados somente na cidade e percebemos que houve crescimento significativo de demanda, tanto é que ampliou o número de concorrentes nas prateleiras. Decidimos manter nossa produção porque aumentá-la não significa redução de custos e é possível trabalhar com qualidade e preço diferenciados — aponta.

Na avaliação do granjeiro, o período da crise somado com os desdobramentos da operação carne fraca também influenciaram positivamente para os resultados alcançados pelos produtores de ovos. Isso se deve ao fato de o alimento substituir a proteína da carne, além de ter preço menor. As perspectivas de continuidade no crescimento dos negócios também são boas, conforme o produtor.

— É um produto que ainda tem espaço para crescer porque o consumo de ovos no Brasil ainda é inferior a quantidade verificada em países mais desenvolvidos, como o Japão, por exemplo. Outras limitações também estão sendo superadas, como o fim da imagem de que o ovo era vilão para a saúde, havendo estudos que mostram seus benefícios — salienta.

A opinião é compartilhada por Diego Lembeck, da Ovos Canela, responsável por produzir em sua propriedade, na localidade de Rio Bonito, mais de 180 mil ovos por dia. Segundo ele, de seis anos para cá a mudança no setor foi ampla e impactou diretamente na participação da empresa nas regiões do Planalto Norte, Vale do Itajaí e Grande Florianópolis. O estabelecimento dobrou há três anos o total da produção diária no aviário.

Pequenos produtores, mais diversidade

Na visão de George Livramento, Coordenador de Assistência Técnica e Extensão Rural da Epagri, a grande quantidade de pequenas propriedades rurais potencializa a diversidade de negócios vindos do campo, em Joinville. Para ele, o setor tem espaço para ampliar ainda mais sua participação econômica no município investindo em novas tecnologias.

— O Agronegócio de Joinville é bem diversificado e essa característica prevalece não só por porque as propriedades são pequenas e muito parceladas, mas porque as famílias que moram nesses locais garantem sua renda por meio da agricultura. Então, de alguma maneira elas mantém uma atividade ou migram para outras para continuarem na área rural — aponta.

Livramento destaca ainda que, além disso, o desenvolvimento de novas culturas se intensifica por conta da localização privilegiada da cidade. Ele considera que a proximidade dos mercados consumidores aos produtores joinvilenses ajuda a contrapor as interferências climáticas na região, que prejudicam determinados cultivos.

— Apesar de manter certas limitações tecnológicas, Joinville tem a seu favor uma localização privilegiada que serve de incentivo para a continuidade das produções rurais. Esse potencial é explorado, principalmente porque a própria cidade tem uma boa demanda de compradores, assim como Curitiba que é outro grande consumidor — justifica.

SETOR PRIMÁRIO PASSA POR REESTRUTURAÇÃO

A Secretaria de Desenvolvimento Rural de Joinville (SDRURAL) ressalta que, nos últimos anos, o setor agropecuário do município já vem passando por uma profunda reestruturação. Para o órgão, a mudança é decorrente da modernização dos sistemas produtivos e abertura do mercado internacional - fatores que põem à prova o modelo tradicional do cultivo joinvilense.

Hoje, dos quase dois mil produtores rurais ativos no município, apontado no Cadastro de Contribuintes do Estado de Santa Catarina, menos da metade deles emitem nota fiscal de venda dos produtos. Os entraves para a formalização desses produtores envolvem desafios e dificuldades ligadas principalmente à comercialização, legislação ambiental e sanitária e a crise do cooperativismo. São obstáculos ainda a escala de produção e o alto custo dos insumos.

A administração municipal afirma que, por conta disso, ampliou o foco nas respectivas cadeias produtivas da cidade com a criação, no ano passado, da SDRURAL em sucessão à extinta Fundação Municipal de Desenvolvimento Rural  25 de Julho. Entre os focos do órgão estão a gestão das ameaças e das oportunidades provocadas pelas evoluções do setor.

‘A Secretaria tem a finalidade de desenvolver políticas de desenvolvimento Rural do Município de Joinville, com amplo trabalho em favor da promoção econômica, social, educacional e cultural da população rural, por meio da realização de estudos, extensão rural, pesquisas e programas que atendam seus objetivos’, sentencia.

 

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