'A reforma da Previdência é a espinha dorsal do ajuste fiscal', afirma Zeina Latif - Economia - A Notícia

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Conexão Econômica18/11/2017 | 03h00Atualizada em 18/11/2017 | 11h04

'A reforma da Previdência é a espinha dorsal do ajuste fiscal', afirma Zeina Latif

Em palestra na Fiesc, ela também disse que a inadimplência de empresas pode afetar a retomada da economia. Confira entrevista 

'A reforma da Previdência é a espinha dorsal do ajuste fiscal', afirma Zeina Latif Fernando Villadino/Divulgação
Foto: Fernando Villadino / Divulgação

Zeina Latif alerta que a reforma da Previdência é fundamental para o ajuste fiscal e sem ele, a crise volta. Antes de fazer palestra na reunião da diretoria da Fiesc, sexta-feira ela também disse que a inadimplência de empresas pode afetar a retomada e que as reformas já aprovadas terão efeito positivo para a economia. 

Como a senhora analisa a recuperação econômica do país este ano?
A recuperação já começou, o que é positivo. É importante considerar dois aspectos. Esses inícios de recuperação são como um avião que está decolando e ainda não alcançou velocidade e, portanto, fica sensível a turbulências. Não é todo mundo que vai junto. Alguns setores vão na frente. O ambiente político ainda é sensível. É natural que isso aconteça porque é uma economia que está ganhando tração. A política monetária não é que se aperta o botão e tudo se resolve. Ela precisa de um tempo. Na nossa estimativa, são necessários dois trimestres para que o corte de juros se materialize de forma clara na economia. É óbvio que há ainda um caminhão de cortes de juros para acontecer. Outra coisa que precisa ser levar em conta é que estamos vindo de uma crise muito severa que abalou as finanças das empresas e das famílias. Chefes de família perderam emprego e o crédito sumiu para as empresas. Uma coisa é um choque como a crise de 2008, que foi um período curto. Outra coisa é uma grande recessão, quando a recuperação é mais lenta. Temos uma recuperação, ela está contratada, já começou, mas vai se materializar mais no ano que vem. Para este ano, estou prevendo alta do PIB de 0,7% ou 0,8%. Eu vinha trabalhando com 0,5%, vai ser algo próximo de 1%, o que não é nada mal.

Como será a economia em 2018?
Quando eu coloco meu modelo de variáveis, dá um crescimento de 3,5% no ano que vem. Eu tenho informado que vamos crescer em torno de 3%. Isso porque considero que 2018 é um ano de eleição, o que sempre provoca algumas turbulências. Temos chance que não é pequena de o próximo presidente não ser um político. Tudo isso acaba gerando ruídos e aquela empresa que tem um projeto pode decidir investir menos. O investidor pensa: deixa eu ver quem vai ganhar a eleição e quem vai ser o ministro da Fazenda. É preciso levar em conta que não dá para ter um descasamento entre política e economia.  A outra coisa concreta é a questão do comportamento do crédito. Dá para dizer que o pior já passou. O número de pedidos de recuperações judiciais está caindo e a inadimplência bancária também e o crédito está voltando. Há uma recuperação do crédito, mas é tudo muito lento ainda. O estrago foi muito grande.

Por que o crédito preocupa tanto?
No Brasil há uma insegurança jurídica muito grande na área de crédito, que foi algo que agravou a crise. Estou falando no seguinte: os bancos no Brasil têm uma dificuldade muito grande de recuperar ativos. Eles recuperam apenas 16% de empresas inadimplentes. Em países arrumados, os bancos recuperam 70% e nos EUA, 80%. A média dos emergentes é 35%. O Brasil destoa muito da experiência internacional e destoa no mau sentido, porque é difícil recuperar ativos no país. Para resolver isso é necessário diálogo com o Judiciário. Quando a Justiça decide a favor de uma empresa devedora, o banco para de emprestar e a roda do crédito para, afetando a economia. Essa é uma variável importante. Essa roda não pode ser parada. Dou importância a isso porque talvez seja o canal mais importante da política monetária. Mas há canais que fazem com que a queda dos juros tenha impacto no mercado. Um dos canais é o crédito. Se ele não volta na velocidade esperada, o efeito do corte de juros que está no meu modelo de projeção, vai ser menor do que se espera. Então, vou trabalhar com um cenário de alta de PIB de 3% no ano que vem e eu vou calibrando. Se a volta do crédito for dentro do que foi em episódios passados, a gente pode crescer mais de 3%.

Sobre a recessão, a senhora afirma que o governo de Dilma Rousseff foi o principal culpado, mas todos, de certa forma, tiveram culpa. Por que?
Esse ponto eu acho importante. A gente, muitas vezes, tem uma tendência de falar mal do governo. Só que a gente tem que lembrar que não dá para querer mais da classe política do que ela pode entregar. Se você tem uma sociedade que fecha os olhos para erros de política econômica. Se tem uma sociedade com lideranças que vão lá só defender o seu sem pensar no todo, sem um olhar par ao país, isso vale para a elite do setor público que não perdeu tempo para garantir privilégios, e todos nós que de alguma forma fomos responsáveis pela crise. Então eu até posso culpar o governo pela crise porque ele liderou essas decisões com a conivência de grupos. Da mesma forma que lá tivemos uma responsabilidade compartilhada para entrar na crise, sair da crise também exige uma responsabilidade compartilhada. O presidente Michel Temer colocou isso de certa forma para a reforma da Previdência. Acho que o Brasil precisa de um salto de responsabilidade. O país em que cada um olha para o seu, é um país imaturo. Aquela teoria do prêmio Nobel de Economia Douglass North sobre a importância das instituições, uma das questões que ele coloca tem a ver com capital social, aquilo que é postura da própria sociedade. Hoje, somos uma sociedade que valoriza inflação baixa. Acho que precisamos ir além, precisamos ser uma sociedade que procura o bem estar coletivo, que procura políticas de inserção da sociedade, uma sociedade que valoriza a igualdade de oportunidades.

Na sua avaliação, as reformas aprovadas trarão efeitos positivos?
De reformas, tem muita coisa sendo aprovada no Brasil em várias frentes e um governo que perdeu a batalha da comunicação. Muitas coisas estão acontecendo e a sociedade nem imagina. Algumas até foram melhoradas pelos parlamentares, um exemplo disso foi a regra do teto dos gastos. A mesma coisa ocorreu com a reforma trabalhista e a nova TLP. Muitos têm bronca com os políticos, mas eles têm feito coisas interessantes, sim. E a gente vai sentir os efeitos na economia. Vale a pena fazer isso. Mas a questão do ajuste fiscal é fundamental porque é o alicerce para o país crescer. Se não faz ajuste fiscal, a inflação pode voltar, a gente não vai saber para onde vai o câmbio, para onde vai o juro. É o equilíbrio fiscal que vai garantir que essas coisas não aconteçam, é a base do crescimento.

E a reforma da Previdência?
A espinha dorsal reforma da Previdência é a espinha dorsal do ajuste fiscal. Já gastamos muito com a Previdência, mas a questão não é essa. É que esse gasto vai crescer muito. No ano passado, gastamos 13% do PIB ano passado, incluindo INSS e o setor público nas três esferas. Esse número pode chegar a 20% nos próximos 10 anos. Então, tem que correr porque prá já não vai ter dinheiro para saúde, educação, vamos virar um Rio de Janeiro. Aumentou a chance de ter aprovação de uma reforma este ano, mas vai ser algo menor do que já foi negociado. Vai ter idade mínima, alguma regra de transição e mudança para o funcionalismo. Acho que dá para aprovar. Reforma institucional tem que fazer sempre. Se o governo atual faz um pedaço, o próximo tem que fazer um pouco e o outro também. É que nem cortar unha. Tem que sempre cortar um pouco.

Como vê a pressão do funcionalismo público?
Eu entendo que a reforma da Previdência não é nada agradável para ninguém. Nós tínhamos um pacto social que hoje não dá mais para mantê-lo. Nossa sociedade envelheceu. Não somos os mesmos da constituição de 1988. O bônus demográfico acaba em 2022. É agora, virando a esquina. Vai ter que ter idade mínima no setor privado aos que se aposentam por tempo de contribuição.  No caso do funcionalismo, tem muito a fazer ainda.  A reforma de 2003 que Lula fez arrumou muita coisa, mas ainda há regras que a sociedade não pode mais pagar porque o dinheiro acabou. As pessoas precisam entender que o dinheiro acabou e todo mundo vai ter que fazer algum ajuste. Vamos depender de alguns políticos para fazer os melhores ajustes para que os pobres sejam preservados. 

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