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Dia da Mulher08/03/2017 | 08h01

Conheça as Mulheres Vitoriosas do Juquiá: juntas, elas lutam por uma vida melhor na zona Sul de Joinville

No projeto, mulheres da comunidade produzem artesanatos para melhora a renda das famílias e fortalecem laços de amizade

Conheça as Mulheres Vitoriosas do Juquiá: juntas, elas lutam por uma vida melhor na zona Sul de Joinville 1/Agencia RBS
Mulheres mostram orgulhosas os trabalhos artesanais que produzem no grupo Foto: 1 / Agencia RBS
Alex Sander Magdyel*

alex.cardoso@an.com.br

Parte das mulheres que vivem no Loteamento José Loureiro (local conhecido como Comunidade Juquiá), no bairro Ulysses Guimarães, na zona Sul de Joinville, não vê outra alternativa que não seja a de exercer o tradicional papel de dona de casa. O que elas têm em comum é o desejo de ajudar no sustento de suas famílias, dar uma vida melhor aos filhos e ver melhorias no lugar onde moram. Foi pela necessidade financeira e por buscarem uma opção de lazer e de interação que, em agosto de 2010, foi criado o grupo Mulheres Vitoriosas do Juquiá.

A iniciativa foi de Patricia Maia, de 30 anos. Desde 2009, quando saiu de Três Barras e se mudou para Joinville, ela vive na comunidade. Com suas habilidades para o artesanato e muita força de vontade, Patricia criou o projeto pensando em envolver as mulheres e gerar uma renda extra para as famílias. De porta em porta e na cozinha comunitária que havia no bairro, ela apresentou a ideia para suas vizinhas.

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Rosangela Barbosa
, de 29 anos, se tornou sua principal parceira na execução do projeto. Hoje, é Rosangela que cede a casa para o grupo, que se reúne semanalmente para produzir artesanatos. A produção começa ali, mas muitas levam a atividade para casa. Atualmente, 14 mulheres integram o grupo, que já chegou a ter 32 mulheres. Muitas não sabiam nada sobre artesanato e foram aprendendo. Na hora da venda dos artigos confeccionados, as mulheres ficam com 50% do dinheiro, enquanto os outros 50% ficam no caixa do grupo para compra materiais.

Elas fazem xadrez, oitinho, hardanger, vagonite, ponto de cruz e crochê. Os artesanatos são feitos à mão, deixando somente os detalhes para serem finalizados na máquina de costura que foi doada. O ideal, segundo elas, seria ter mais uma máquina, mas elas vão se virando. Para Rosangela, os benefícios do projeto, que completa sete anos em agosto, vão muito além da renda extra. A cumplicidade criada entre as mulheres é tão importante quanto o dinheiro.

– A gente se encontra, conversa, consegue dividir experiências. A gente passa a tarde conversando, falando sobre o assunto da semana no bairro, o que aconteceu na televisão, a reportagem que passou. Na hora que vai todo mundo embora, dá até um vazio – conta Rosangela, que mora ali há nove anos.


A iniciativa foi de Patricia Maia (à esquerda). Rosangela Barbosa (à direita) se tornou sua principal parceria na execução do projeto. Foto: Maykon Lammerhirt

Para o poder público, quem mora na comunidade está em situação irregular - em Joinville, há pelo menos 1.627 pessoas vivendo nesta situação, de  acordo com a Secretaria de Habitação. No loteamento, são 140 famílias nesta condição.

– Faz 19 anos que estou em Joinville, estou na fila da habitação desde que vim morar aqui. Cada um sabe o que passa para estar onde está. A gente vai lutando, uma hora a gente consegue - afirma Rosangela, que nasceu no Paraná e morou no bairro Boa Vista antes de se mudar para a comunidade. Ela diz que foi morar ali quando as contas apertaram, forçando ela e o marido a escolherem entre pagar aluguel ou alimentar os filhos. No total, 16.504 pessoas estão na fila da habitação em Joinville, segundo a Prefeitura. Destas, 8.585 estão aptas a receberem o benefício em caso de empreendimento habitacional.

As mulheres, que se reúnem às quintas-feiras, não se limitam à confecção dos artesanatos. Num apontar de dedos, Rosangela – que vende geladinho – revela o que cada uma faz para arrecadar dinheiro e sustentar a família: Tânia Mara vende salgados e lençóis; as irmãs Francisca Justino e Maria do Socorro cuidam das crianças, “são as babysitters do bairro”; Nailsa Silva trabalha na Ambiental; Patricia é fotógrafa; Silvana Gravi faz bolos e doces; e Aparecida Domingos vende pão. Elas têm que se virar porque as crianças ficam apenas meio período nos centros de educação infantil da cidade e elas acabam tendo dificuldade de ingressar no mercado de trabalho formal. Rosangela, por exemplo, sequer conseguiu uma vaga de meio período para o filho de dois anos.

– Se Deus quiser, a gente vai conseguir buscar mais creches, mais coisas para o bairro – diz Rosangela, que explica que são as mães que costumam participar das reuniões nas escolas e na associação de moradores, já que os maridos trabalham foram.

É com este espírito que as mulheres do grupo já protagonizaram alguns movimentos que trouxeram melhorias para o bairro. Entre as melhorias que foram atendidas pela Prefeitura estão a mudança na rota do transporte coletivo, que trouxe junto o asfaltamento de uma rua do bairro.

– Aqui, as mulheres correm atrás do que querem. Teve um protesto que você podia contar quantos homens tinham. A força era da mulher. O nome do grupo surgiu a partir desse protesto. É um grupo de mulheres guerreiras e vitoriosas – conta Rosangela.

Nailsa Gonçalves da Silva, de 34 anos, faz parte do grupo e é uma das beneficiadas com a conquista do ponto de ônibus. Ela sai de madrugada para trabalhar, retorna a tempo dos encontros e continua o trabalho artesanal em casa. Naílsa diz que vê no projeto uma oportunidade de sentir-se livre dos preconceitos - um deles pelo fato de morar numa área irregular.

– Gosto do convívio, da liberdade que a gente tem para conversar. Ninguém fica julgando ninguém. A gente conversa, faz bordados. E faz porque a gente gosta de fazer, não é obrigado – conta Nailsa, que participa do grupo desde 2010.


Naílsa Gonçalves participa do grupo desde 2010. Foto: Maykon Lammerhirt

Histórias de superação

No grupo das Mulheres Vitoriosas do Juquiá há relatos de mulheres que mudaram de vida depois que conheceram o projeto. Entre as histórias de superação está a de Tânia Mara Ribeiro dos Santos Hoffmann, de 29 anos. Ela é mãe de duas crianças e há quatro anos, quando sua mãe morreu, também tomou para si o cuidado com os quatro irmãos mais novos, que hoje têm entre dez e 17 anos. Tânia diz que encontrou no projeto uma forma de refúgio e de terapia. Ela começou a participar dos encontros depois que uma irmã e a mãe entraram para o grupo. Antes, ela não sabia nada de artesanato. Com a morte da mãe, Tânia teve que parar de trabalhar fora de casa.

– Eu trabalhei toda vida fora, com vendas. Quando minha mãe faleceu, só ficava em casa, levava os filhos para a escola. Foquei mais neles, porque seis crianças não é fácil, né? Então, aqui foi uma forma de refúgio, uma terapia. Além de uma fonte de renda, a gente se distrai, conversa – conta ela, que nasceu em Chapecó e morou no bairro Boa Vista antes de se mudar para a comunidade. – Um invadiu e depois vendeu para os outros. Então, para nós, não era invadido. Na época, meu pai comprou um terreno aqui.

Apesar do envolvimento das vizinhas, o grupo ainda não é o bastante para a idealizadora Patricia Maia, que protagoniza a luta da população em favor de um lugar melhor para viver. Ela conta que decidiu criar um projeto de fotografia, arte pela qual tomou gosto em 2015. Mais uma vez, vai usar uma paixão para ajudar a comunidade.

– Fiz um projeto chamado Beleza Escondida. Quero revelar as belezas que estão escondidas aqui no Juquiá. Se você falar: “Ah, eu moro no Juquiá”, “onde é que fica isso?”. A pessoa não conhece, não sabe. E temos muita beleza aqui.

Patricia percebeu o quanto era difícil e caro fazer um book de fotos, quando precisou correr atrás para a filha que participou de concurso de miss. Na última semana, fechou uma parceria com uma agência de Joinville. Ela mesma vai fotografar gratuitamente as crianças do Juquiá e a agência vai viabilizar os trabalhos, um jeito de melhorar a autoestima da comunidade.


Mulheres do grupo já protagonizaram alguns movimentos que trouxeram melhorias para o bairro. Foto: Maykon Lammerhirt

Como ajudar o grupo?

O grupo chegou a ser apoiado pela Prefeitura de Joinville, por meio do Projeto Girassol, entre 2012 e 2013. Hoje, o grupo sobrevive de doações de associações e empresas, além da parceria com uma loja que vende os materiais produzidos por elas. Houve um tempo em que o projeto contava com aulas de música e dança, além de reforço escolar. As atividades pararam quando o grupo saiu da cozinha comunitária. Na casa de Rosangela não há espaço para a execução das aulas. Quem quiser comprar os produtos ou ajudar o grupo com doações pode entrar em contato pelo perfil das Mulheres Vitoriosas do Juquiá no Facebook ou ir até a loja Economia Solidária, no Shopping Cidade das Flores. Quem preferir, pode entrar em contato com Rosangela (47 99747–1186) ou com Patricia (47 99766–3378). A partir deste mês, elas participarão de uma feira que será realizada mensalmente no Parque São Francisco, no Adhemar Garcia.

*Alex Sander Magdyel é estudante de jornalismo e faz estágio no jornal “A Notícia”.

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