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Negócios & Cia03/08/2013 | 01h01

Falta de infraestrutura logística causa prejuízos para empresas do Norte de SC

Nomes como Weg e Arcelor explicam como são prejudicadas e o que fazem para reduzir as perdas na hora de escoar a produção

Falta de infraestrutura logística causa prejuízos para empresas do Norte de SC Dominik Obertreis/divulgação
Apenas a Weg exportou 12 mil contêneires em 2012 Foto: Dominik Obertreis / divulgação

Quando uma empresa fecha um contrato de fornecimento de mercadorias, inicia-se uma corrida interna para produzi-las no menor tempo possível, com baixo custo e alta qualidade. Mas quando estas mercadorias atravessam os portões, as organizações sabem que parte dos esforços internos para torná-las competitivas será neutralizada pelo desafio de entregá-las no destino. Longas esperas no caminho, custos elevados de transporte e até o risco à integridade dos produtos, pelas más condições das vias, fazem parte da rotina. Uma situação agravada pelas distorções verificadas também do lado de quem tem pressa de chegar — a presença de caminhões trafegando com cargas acima do peso permitido, comprometendo a segurança do motorista e piorando ainda mais as condições das estradas, por onde os mesmos caminhões passarão no dia seguinte.

— Hoje, qualquer novo empreendedor não tem segurança em direcionar seus investimentos para São Francisco do Sul diante de tantas dificuldades de acesso — sentencia o presidente da Associação Empresarial do município, Carlos André Athanazio Veiga.

Quem já está na região não pode parar. Somente a Weg, de Jaraguá do Sul, coloca na estrada 150 caminhões por dia, encarregados do vaivém de mercadorias da maior fabricante de motores elétricos da América Latina.

Na ArcelorMittal Vega, o processo logístico é considerado tão crítico que passou a integrar a matriz de risco da companhia. A empresa produz mais de um milhão de toneladas de aço por ano, destinadas principalmente ao setor automobilístico. 

Os gargalos afetam diretamente a competitividade do Estado, motivo pelo qual, a Federação das Indústrias do Estado de Santa Catarina (Fiesc) lançou o Plano de Mobilidade Santa Catarina. A iniciativa contempla o estudo sobre novas alternativas de modais, como a cabotagem, e rodadas de consultas regionais à sociedade organizada. A primeira, em Joinville, abriu o debate estadual nesta semana e apontou a necessidade de se planejar e investir no setor no Estado.

Formas de driblar os problemas

O primeiro Seminário Regional do Plano de Mobilidade SC, realizado em Joinville nesta semana, trouxe um novo gás para o debate de um problema antigo: o transporte de cargas e passageiros. Cerca de 40 representantes da sociedade organizada da região Norte lotaram um mural com relatos de problemas e sugestões de melhorias, a maior parte ligada a investimentos e planejamento integrado e de longo prazo.

O evento da Federação das Indústrias do Estado (Fiesc) ainda vai passar por Itajaí, Florianópolis, Criciúma e Blumenau e prevê a elaboração de um documento com as demandas mais urgentes a cobrar do poder público.

Enquanto as soluções se arrastam para deixarem de ser propostas, empresas da região Norte de Joinville amargam dificuldades logísticas e enfrentam desafios diários para manter a produtividade, apesar das dificuldades de mobilidade. Veículos reforçados e planos de rotas de fuga são tentativas para minimizar os problemas enquanto a solução não chega. 

— A principal dificuldade logística está nas condições das rodovias, o que encarece os preços devido à manutenção, segurança, tempo e distância percorrida — afirma o vice-presidente de relações institucionais da Whirlpool Latin America, Armando Valle,
sobre mobilidade.

A ArcelorMittal Vega conhece bem o problema. As ferrovias deveriam ser o principal meio para escoar a produção da empresa de São Francisco do Sul, mas pela falta de capacidade da malha, o modal responde só por 10% do volume.

Para o gerente de logística da Arcelor, Marcos Tadeu Arante, este é, disparado, o modal mais problemático, especialmente porque a malha brasileira tem duas bitolas, o que força o transbordo no Estado de São Paulo para seguir para outros destinos. Sem contar a lentidão: uma carga demora, no mínimo, 15 dias para chegar a São Paulo. De lá, é levada ao destino por caminhão.

Só o fato de usar rodovias para transportar 90% de seus produtos representa um custo logístico adicional de, pelo menos, 20% à empresa. Somam-se a isso despesas para buscar alternativas quando há bloqueio nas estradas e até dispositivos para evitar a avaria dos produtos.

– Já sofremos problemas de qualidade com nosso material durante o trajeto por causa das crateras no caminho até um de nossos clientes. A solução foi desenvolver um sistema pneumático, e agora o envio para este cliente ocorre só com estes veículos especiais – explica o gerente.

A Arcelor atende principalmente ao setor automotivo, localizado na região Sudeste. Para garantir que sempre terá rotas de fuga, o aspecto logístico passou a constar na matriz de risco da companhia.

Embora elogie os terminais portuários de SC, a escolha por São Francisco, há dez anos, deu-se pela localização estratégica, entre a região Sudeste do País e o Mercosul. Arante critica a demora na concretização dos investimentos, gerando expectativas que não se tornam realidade.

— A velocidade da geração de empreendimentos é maior do que a criação da infraestrutura para suportá-los — diz Arante.

Exemplo da Weg

A Weg exportou 12 mil contêineres com seus produtos em 2012. Desse volume, 90% foram escoados pelos portos de Itajaí, Navegantes, São Francisco do Sul e Itapoá. Os principais destinos dessas mercadorias são EUA, Europa e África do Sul. Os 10% restantes foram transportados em carretas às filiais da empresa na Argentina e no Chile e aos distribuidores na Bolívia, Paraguai e Uruguai. Todos esses veículos — cerca 20 mil só para atender ao mercado nacional – circularam pelas BRs 280 e 101. Só nesta última, trafegam diariamente em média 150 caminhões levando ou trazendo cargas para a unidade em Jaraguá do Sul.

Os números apontam para uma preocupação da maior fabricante de motores elétricos da América Latina: a necessidade de enviar seus produtos aos destinos por vias que não oferecem as condições mais adequadas de mobilidade.

Segundo o gerente de logística da Weg, Clécio Fábio Zucco, os principais gargalos estão nas BRs 280 e 101, além das passarelas e viadutos que limitam a circulação de equipamentos com excesso de altura.

— Há falta de vias marginais que possam desafogar os fluxos próximos das cidades e de vias expressas de acesso aos portos — avalia.

De acordo com ele, a empresa também sente falta de um aeroporto regional de cargas e passageiros para os mercados doméstico e internacional. A concentração nos aeroportos de Campinas e Guarulhos aumenta o custo e o tempo de entrega das mercadorias, o que torna a empresa menos competitiva.

Se, no mercado interno, 97% das mercadorias são transportadas pelo modal rodoviário e a condição das BRs é a maior dificuldade logística da Weg, as hidrovias são o principal caminho pelo qual as cargas viajam na exportação de equipamentos — e a situação delas também não é animadora.

— Grande parte do comércio internacional brasileiro passa pelo Porto de Santos. Ele vem enfrentando grandes problemas de congestionamento de cargas, o que acaba criando uma instabilidade de atracação de navios nos portos catarinenses — analisa Clécio.

OTM também sente difeicultades

Como prestadora de serviços da cadeia logística, a integradora OTM não escapa do uso intenso das estradas e coloca este modal no topo da lista das melhorias urgentes. Para o presidente da empresa, Osvaldo Douat Filho, as rodovias estaduais e federais em Santa Catarina são utilizadas acima do limite de segurança, um contraste com as vias de São Paulo, Paraná e Rio Grande Sul, dotadas de uma infraestrutura superior.

— Nossos clientes são onerados de 15% a 20% só pela ineficiência da infraestrutura, com atrasos e desgaste de peças, enquanto o acréscimo de custo em São Paulo não passa de 5% — exemplifica.

O executivo enfatiza que as medidas não podem se restringir a fazer mais do mesmo, e que os investimentos devem preparar o Estado para os próximos 20 anos. No caso da BR-101, isto significaria prever quatro pistas, pois três, como tem sido reivindicado, não seriam suficientes para o crescimento do fluxo nas próximas décadas. Como todo o processo de viabilização de obras de infraestrutura é demorado, levando de cinco a 12 anos, ele chama a atenção para a necessidade de que se iniciem já.

Outra reivindicação é a instalação de um aeroporto regional, com infraestrutura adequada para o crescimento da demanda de cargas e passageiros. Os de Joinville e de Navegantes, diz Douat Filho, são pequenos e insuficientes. Segundo estudos, um posicionamento estratégico seria entre os municípios de Araquari e Barra Velha.

Mais planejamento e investimento
Por Mario Cezar de Aguiar, presidente da Acij e da câmara de transporte e logística da Fiesc

Com a inauguração dos terminais portuários de Itapoá e Navegantes e as melhorias em Imbituba, Itajaí e São Francisco do Sul, estamos bem servidos no transporte marítimo em relação aos demais modais e ao restante do País, — embora seja injustificável não termos uma maior utilização da cabotagem.

A questão aeroportuária é muito deficiente no Estado e praticamente não temos transporte de cargas por via aérea. O projeto do Complexo Intermodal Catarinense (CIC), em Araquari, pode ser uma alternativa para atender ao Norte, parte do litoral e o Vale do Itajaí.

Outro grave problema é a BR-101, rodovia com volume muito superior à capacidade, o que demanda a discussão sobre a triplicação e novos traçados e contornos. Com a necessária e urgente duplicação da BR-280 e da BR-470, o entroncamento com a BR-101 provocará um incremento de veículos significativo no trecho Norte da rodovia.
O modal ferroviário deveria ter recebido mais investimentos há muito tempo para
garantir o transporte de carga com mais qualidade e melhor custo.

Há uma série de gargalos e boa parte deles pode ser resolvida sem grandes investimentos. No primeiro workshop promovido pela Fiesc sobre mobilidade, em Joinville, ficou evidenciada a necessidade de um órgão de planejamento de longo prazo e com atuação independente, que possa estabelecer um plano e executá-lo numa cronologia adequada. E que os estudos de viabilidade técnica, econômica e ambiental (EVTEAS) são os elementos fundamentais para possibilitar a adoção dos investimentos pelo governo e pela iniciativa privada.

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