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Entrevista Roberto DaMatta30/05/2014 | 17h45

Antropólogo explica o jeitinho brasileiro

Um dos convidados para a Expogestão 2014, DaMatta foi muito aplaudido pela plateia

Antropólogo explica o jeitinho brasileiro Rodrigo Philipps/Agencia RBS
"No trânsito, todos são iguais porque o trânsito é fila, e não dá para dizer o tradicional: sabe com quem está falando? Isso irrita a elite" Foto: Rodrigo Philipps / Agencia RBS

A sociedade e as pessoas são e agem a partir de ideias e conceitos específicos de comportamento dominantes regionalmente. No nosso ambiente, “ser alguém” significa poder ser blindado em situações adversas.

E o “jeitinho” é uma forma de as pessoas se afirmarem publicamente, à revelia das regras, para se inserirem num contexto que é excludente para a maioria. É o que pensa o antropólogo Roberto DaMatta, que esteve na Expogestão na última semana, em Joinville.

DaMatta entrou cantando no palco do auditório principal do complexo Expoville no dia 22 de maio para fazer sua palestra. Ao final, o público, na maioria composto por executivos de diferentes posições hierárquicas de empresas de vários setores e regiões, aplaudiu entusiasticamente. Ele explicou:

— O comportamento tem a ver com entrega, com correr riscos. Ainda que sejam calculados, como fiz agora.

QUEM SOMOS

— Nossa identidade é o que nos diferencia dos outros. Sabemos quem nós somos, por comparação e contraste. Somos o que os outros jamais podem ser. O povo brasileiro não é único. Diferencia-se regional e globalmente. Há uma expressão interessante para ajudar a compreender como nós mesmos nos percebemos. A expressão é “Deus é brasileiro”. Isso é mais do que “o povo escolhido”, como se consideram os judeus.

ESCOLHAS

— Temos papéis atribuídos, aqueles que nos são fortemente impostos. Depois, se fazem escolhas, como as das profissões, por exemplo. Mas atenção: as escolhas estão restritas ao palco onde você se encontra.

INSEGURANÇA

— Sair de casa é um risco. A rua é insegura. Quem é o outro que senta ao teu lado no salão do aeroporto, no metrô, na fila do cinema, no estádio de futebol? Todos usam roupas semelhantes, sapatos e tênis semelhantes.

SER ALGUÉM

— O mundo é dos que “são alguém”. “Ser alguém” é ter capital relacional, especialmente nestes tempos da indústria das celebridades. Ser famoso mobiliza pessoas, e a pessoa passa a ser protegida. E “ser ninguém” é ser individualizado, é ser (e estar) só. Daí, no nosso País, o tal do “jeitinho” é um rito autoritário de distinção, praticado por gente de todas as classes e categorias.

ORIGEM

— Na nossa sociedade, uma forma importante de se relacionar é saber da origem e do nome da família do interlocutor. Quem é teu pai é pergunta-chave. Nossa legislação é feita para impedir a punição de pessoas importantes. Saber quem é quem é absolutamente essencial.

TRÂNSITO

— No trânsito, todos são iguais porque o trânsito é fila, e não dá para dizer o tradicional “sabe com quem está falando?”. Isso irrita a elite. No caso, a igualdade das regras aumenta a tensão. Temos mais conforto quando sabemos quem são os outros. O mundo não existe por e para nós. Por isso, a blindagem da aristocracia é antidemocrática.

FONTES

— Temos duas fontes para a nossa identidade. A Revolução Francesa, a mostrar as possibilidades de mobilidade social; e a nossa origem portuguesa, com a vinda de comerciantes, a explorar terra e gente, a partir de um enorme controle político-administrativo-burocrático. Alguns fatores nos limitam. A língua nos antecede e continua depois de nós. Os outros elementos que nos constituem como povo e nação são a moeda, o território e os modelos econômico e político.

PAPÉIS

— Cada um de nós representa papéis e responsabilidades. Temos de honrá-los. Ocupar espaços para os quais não estamos preparados é burla, é farsa. Shakespeare escreveu num dos seus textos que temos hora de entrada e hora de saída. Os papéis sociais no Ocidente são dferentes dos que valem na tribo xingu.

HÁBITOS

— Os hábitos mais difíceis de serem alterados são aqueles que estão inscritos no coração. Observe que a religiosidade se opõe à guerra. As religiões dizem não matar, e as sociedades estão em constante atrito. A contradição é evidente.

MANIFESTAÇÕES

— As manifestações são consequência da redescoberta da rua como espaço público, que pode clamar por coisas que se acha justo reivindicar. Um problema a mais é que o Estado, o agente público, não tem a menor preocupação com a igualdade. Temos um país com parte no passado negro e uma aristocracia com noção de idealização do poder e do Estado. O Brasil, como sociedade, é o das conversas ao pé do ouvido, secretas, a dois.

OPOSIÇÃO

— A identidade se passa por oposição. Assim, o sulista é diferente do nordestino; o brasileiro é diferente do argentino; o sul-americano é diferente do norte-americano, que é diferente do europeu. E que é ainda mais distinto em relação ao asiático. Aí, quando você opõe ocidentais com orientais, descobre que é analfabeto. Língua, costumes, valores... tudo muda.

INFERIORIDADE

— Situações de anonimato nos dão a sensação de inferioridade. E podem gerar surtos psicóticos, como vimos, recentemente, de elevada agressividade. Isso acontece para as pessoas se afirmarem. O comportamento no espaço público é o do anonimato.

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