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Exemplo25/02/2018 | 12h17Atualizada em 25/02/2018 | 12h18

Entidades criam centro cultural com foco em pessoas com deficiência e transtornos em Joinville

Elas se uniram para ajudar no desenvolvimento por meio da arte e da convivência em grupo

Entidades criam centro cultural com foco em pessoas com deficiência e transtornos em Joinville Chico Maurente/Divulgação
Fabiane Tasca (D), 41 anos, em cena com o Grupo Arte Para Todos Foto: Chico Maurente / Divulgação

Jenifer Padilha, 15 anos, já ingressou em aulas de dança, de natação e de inglês. Não prosseguiu em nenhuma delas, não por desistência ou por mudar de ideia ? o que seria comum a uma adolescente ?, mas por ter sua presença em sala de aula questionada e até negada. Com diagnóstico de síndrome de Down com desordens do espectro autista, a menina tem dificuldades de comunicação e socialização. Ela é levada a estas aulas pela irmã Keli, de 32 anos, em uma tentativa de preencher a rotina da jovem.

— Às vezes, é na hora da matrícula que ela é barrada. Ficam de verificar a possibilidade e entrar em contato, mas nunca retornam, ou cobram mais caro. Em outras vezes, começamos as aulas e depois de algumas semanas avisam que ela não poderá continuar — conta Keli.

Os empecilhos enfrentados por Keli e por Jenifer são compartilhados por outras famílias com integrantes com diagnóstico semelhante. Nem sempre eles se adaptam às atividades propostas por entidades focadas no atendimento à especificidade de cada caso, mas não são aceitos em escolas que não estão preparadas para atender às diferenças de comportamento.

Keli sabe que, no caso da irmã, a evolução será demorada e percebida de forma diferente do que de outros adolescentes da mesma idade. Até pouco tempo, Jenifer não falava nada além de palavras soltas e não podia ficar em lugares com muita concentração de pessoas. A expectativa da família é que ela desenvolva autonomia, autoestima e, principalmente, não precise passar a vida inteira dentro de casa, sem conviver com o resto do mundo.

— O problema dela é a socialização. Ela não consegue se relacionar com as outras pessoas, mas demonstra que queria, por exemplo, brincar com as crianças. Não conseguir fazer isso a deixa triste — afirma Keli.

Fabiane Tasca, 41 anos, compartilhava de um sentimento semelhante até pouco tempo atrás. Ela chegou a frequentar a Apae na infância, ainda em Criciúma, mas, como recorda a mãe dela, Fátima Comin, a convivência exclusivamente com pessoas com diferentes tipos de transtornos e deficiências mais prejudicava do que beneficiava o desenvolvimento.

— Ela voltava para casa e repetia para as irmãs tudo ?de errado? que tinha visto os outros fazendo lá. A própria coordenadora da Apae concordou que não era o lugar ideal para ela — lembra Fátima Comin.

Talento escondido

A representação dos colegas era, possivelmente, um presságio do talento escondido em Fabiane. Há seis anos, ela se descobriu atriz. A mãe não botou muita confiança quando a coordenação do Núcleo de Assistência Integral ao Paciente Especial (Naipe) informou que seriam oferecidas aulas de teatro com o professor Robson Benta na instituição. Nem ela, nem as outras mães acharam que fosse possível esperar muitos progressos ? até a primeira aula chegar ao fim.

— Ele era muito expansivo, mas, ao mesmo tempo, cobrava dos alunos. Quandoterminou, ela já começou a perguntar quando seria a próxima aula. E, no ano seguinte, foi convidada para continuar a fazer a oficina no projeto do Arte para Todos — diz a mãe.

Fabiane não parou mais de fazer teatro. Ela agora participa do Grupo Arte para Todos, companhia de Joinville que já montou três espetáculos e que, em 2013, viajou para Brasília para apresentação no Congresso Internacional Sobre Saúde da Pessoa com Deficiência. Era um desafio para ela: havia o medo de viajar de avião, havia a ausência da mãe que, pela primeira vez, não estaria por perto. A insegurança virou exercício cênico e tornou-se parte da peça teatral. Em cena, ela abria os braços, em uma simulação do voo, e encarava a plateia - um momento que, há quatro décadas, quando ainda aprendia a aceitar o nascimento de uma filha com síndrome de Down, Fátima jamais poderia imaginar.

— Eu mesma não teria essa coragem de subir ao palco. Mas ela não é assim. Ela é despachada. No ano passado, recebeu o primeiro cachê — comenta a mãe, orgulhosa.

 JOINVILLE,SC,BRASIL,22-02-2018.Centro de transformação arte para todos.Fatima Comin com a filha (c) Fabiane Tasca.(Foto:Salmo Duarte/A Notícia)
Fátima, mãe de Fabiane, está orgulhosa com a evolução da filha nas aulas oferecidas pelo projetoFoto: Salmo Duarte / A Notícia

União de entidades permite transformação da realidade pela arte

O projeto no qual Fabiane começou a fazer teatro no Naipe era a célula de um muito maior que, em 2018, se tornou o Centro de Transformação Arte para Todos. Ele será inaugurado neste fim de semana, após a união do Instituto de Pesquisa da Arte pelo Movimento (Impar) e da Associação Joinvilense de Apoio e Inclusão de Crianças Especiais (Ajaice). Enquanto a primeira oferecia oficinas de teatro, dança, música e artes visuais em um espaço cedido dentro de uma faculdade, a Ajaice tinha uma sede ? uma casa construída pela associação de pais em terreno concedido pela Prefeitura ?, mas já não conseguia manter as atividades. Ao perceber que o local estava prestes a fechar, a terapeuta ocupacional Mônica Dias assumiu a presidência da associação e, sozinha, garantiu a continuidade das atividades.

— A mensalidade dos alunos era, praticamente, para pagar as contas da casa. Quando sobrava algum dinheiro era que eu tinha salário — relata.

O encontro entre as instituições ocorreu no ano passado, quando o Programa Arte para Todos do Impar passou a oferecer aulas de artes visuais aos alunos da Ajaice. Para transformar o local em centro de artes foi necessário engajar a comunidade: a casa ganhou reforma, com doação de materiais de construção uma empresa da cidade e colaboração de familiares e amigos nas obras. Há projeto para, em breve, o centro ser ampliado, com construção de espaço cênico para apresentações.

O objetivo do local é aceitar todos os alunos e adaptar turmas e metodologia para que todos possam desenvolver as potencialidades. Há turmas exclusivas para alunos com deficiências mais acentuadas, que terão a presença não só do professor da modalidade artística escolhida, mas também de terapeuta ocupacional; e turmas mistas, com alunos típicos ? sem deficiências ? e alunos com deficiências moderadas. É uma forma de promover a convivência de pessoas com e sem deficiências, compreendendo que esta é uma experiência importante no desenvolvimento dos dois lados.

— A inclusão é uma pauta vigente hoje, tanto no mercado de trabalho como nas escolas. Profissionais que trabalham com inclusão tem a oportunidade de viver em um espaço de integração dentro do ambiente da prática artística, e isso é desenvolvimento pessoal que elas podem replicar depois — afirma a coordenadora executiva do Arte para Todos, Iraci Seefeldt.

 JOINVILLE,SC,BRASIL,22-02-2018.Centro de transformação arte para todos.Keli, Jenifer Padilha com o professor Robson Benta.(Foto:Salmo Duarte/A Notícia)
Jenifer, na foto com a irmã Keli, vai começar aulas de teatro com o professor Robson BentaFoto: Salmo Duarte / A Notícia

Chance de recomeço

Jenifer, a adolescente do início da matéria, participou das oficinas de teatro do Arte para Todos em 2016. Mas como ele funcionava como uma extensão dos trabalhos do Naipe, em parceria com a Secretaria de Saúde, a cada ano as turmas precisavam ser modificadas para dar chance a novos alunos, e Jenifer não conseguiu vaga.

— Ela já estava falando frases, aceitando cumprimentar as pessoas. Mas, como parou de frequentar as aulas, foi perdendo tudo isso — lamenta a irmã.

Com a abertura do Centro Arte para Todos, a menina voltou às aulas no período experimental para novos alunos, para não perder nenhum momento. Ela fará parte do quadro de bolsistas da instituição, que buscará a manutenção via editais de apoio à cultura e de isenção fiscal, de patrocínios, da criação de uma grife social e de uma parcela de alunos pagantes. Para 2018, há turmas de teatro e dança garantidas pelo Prêmio Elisabete Anderle, do governo do Estado; e uma oficina oferecida com recursos conquistados no Edital de Apoio à Cultura de 2016 da Prefeitura de Joinville.

— O efeito que a arte é capaz de produzir no desenvolvimento das pessoas com deficiência não é do tipo que você faz uma sessão e resolve. Precisa ser um processo continuado. O problema é que as políticas de incentivo têm sido descontinuadas, e isso é em âmbito municipal, estadual e federal. Por isso, precisamos criar uma estrutura pensando na continuidade e sustentabilidade — explica Iraci.

 

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