"Às vezes, a ficção prevê coisas que o próprio escritor não imagina", diz Milton Hatoum - Cultura e Variedades - A Notícia

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Entrevista08/01/2018 | 05h00Atualizada em 08/01/2018 | 10h11

"Às vezes, a ficção prevê coisas que o próprio escritor não imagina", diz Milton Hatoum

Escritor de "Dois Irmãos" lançou "A Noite da Espera", primeiro livro de uma trilogia que desenterra memórias afetivas, políticas e culturais das décadas de 1960 e 1970

"Às vezes, a ficção prevê coisas que o próprio escritor não imagina", diz Milton Hatoum MArcos Vilas Boas/Divulgação
Foto: MArcos Vilas Boas / Divulgação

No recém-lançado A Noite da Espera, Milton Hatoum desenterra as memórias afetivas, políticas e culturais de um grupo de jovens de Brasília entre as décadas de 1960 e 1970. A mesma época que ele, então adolescente, mudou-se para a cidade. Mas, ainda que tenha vivido "profunda e intensamente" aquela fase, o ex-aluno do Centro Integrado de Educação Modelo garante que o livro não é autobiográfico. Um dos maiores escritores brasileiros da atualidade, o amazonense de 65 anos define este que é o primeiro volume da trilogia O Lugar Mais Sombrio como um romance de formação "sobre a descoberta do mundo, do amor, da política, da formação intelectual, de todas as adversidades que os personagens se deparam naquele momento difícil, duro".

Da época como morador da capital federal, vieram "a atmosfera, o plano-piloto, as cidades-satélite, a repressão vigente". Recordações que hoje preocupam o autor dos premiados Dois Irmãos (de 2000, adaptado para minissérie na Globo em 2017) e Cinzas do Norte (2005) diante de posturas semelhantes às do regime militar.

— Há uma relação forte com o que está acontecendo hoje, mas não gosto de comparar a ditadura com a atual situação. Na ditadura, nós não poderíamos nem estar conversando sobre isso — disse na conversa que segue nesta entrevista.

O senhor já se cansou de responder se A Noite da Espera tem a ver com a época atual?
Muitos leitores, jornalistas e críticos estão apontando a relação entre aquele momento e o que nós estamos vivendo hoje. Mas eu não previ isso, comecei a escrever o livro há 10 anos, num momento muito diferente. Não havia nenhum indício de que haveria impeachment ou essa mudança tão radical. Mas, às vezes, a ficção prevê coisas que o próprio escritor não imaginou. Não sou visionário, mas acontece de a arte pensar além daquilo que foi urdido pelo autor.

O senhor chegou a sofrer alguma repressão naquele período?
Fui detido durante uma passeata. Nunca participei de nenhum grupo, nenhum movimento específico. Nem me filiei a partido político depois. Procuro guardar minha independência, porque se eu pertencer a algum partido, não vou poder criticá-lo. Mas eu participava como um jovem que queria liberdade, contra a censura, contra as repressões policiais no campus da UnB, contra a tortura.

Como vê as operações da Polícia Federal nas universidades?
Não me surpreende, porque no Brasil as instituições são muito arbitrárias e autoritárias, e parte da sociedade aplaude isso. Vejo com uma mistura de indignação e tristeza estas conduções coercitivas de pessoas que poderiam ser apenas convocadas para depor. Isso resultou no suicídio de um reitor, foi uma atitude covarde da PF, das mais indignas, e depois aconteceu a mesma coisa (operações da PF em universidades) em Minas, Brasília e no Paraná. O que isso significa? Que todos nós podemos ser vítimas dessa brutalidade. Não temos nenhum ilícito, mas eles nos levam coercitivamente e depois vão querer provar. Isso é um estado de exceção programado por esse governo, que colocou um advogado no Supremo Tribunal Federal (STF), um ministro amigo do presidente na Justiça e mudou o comando da PF. De um governo que tem oito ou nove ministros indiciados e o titular é – para ser elegante – um "homem sob suspeição". Estamos diante de uma quadrilha que assaltou o poder, essa é a verdade. Isso terá consequências por muito tempo, se não para sempre.

O que o senhor acha do movimento Escola sem Partido?
O Escola sem Partido faz parte desse grande projeto da extrema-direita de desqualificar o ensino público, a universidade. Na verdade, ela visa a tornar a universidade um espaço sem discussão, sem pensamento crítico. É por isso que eles estão prendendo pessoas, professores, reitores. Eles estão querendo tolher um espaço de pensamento crítico, o que eu acho uma loucura. No romance eu trato desse assunto. Estudei em colégio de aplicação, em regime integral, público, que pertencia à UnB. Essa escola seria piloto de um projeto maior para a educação. E ela foi simplesmente fechada pela ditadura em 1971. O Brasil tinha um projeto para o ensino público que foi completamente desmantelado — e nós sofremos as consequências. A mediocridade dos nossos políticos, o caráter, a precariedade da escola pública, tudo isso é consequência de mais de 20 anos de repressão, censura, de uma total devastação do que seria um projeto de cidadania.

A crise da educação no Brasil não é uma crise, é um projeto, como afirmava Darcy Ribeiro?
Não vejo saída a curto prazo para o país. É uma hipocrisia desse Escola sem Partido pensar que uma formação humanista mínima vá gerar jovens de esquerda. Isso é uma besteira, é um raciocínio tacanho, limitado! Na França, onde vivi por muito tempo, existe uma direita liberal muito intelectualizada, que veio da escola pública. Eles (o Escola sem Partido) não têm noção do que estão fazendo, porque uma pessoa, seja médico, advogado, dentista, qualquer profissão, se ela não tiver uma formação humanista básica, não vai ter uma percepção crítica do tempo e do mundo em que vive. Agora, ideologicamente, ela pode ser liberal, de centro, de esquerda, de direita — e eles querem suprir essa formação humanista por burrice, por estupidez.

O debate político no Brasil se ressente da falta de quadros de direita que tenham um discurso mais aberto?
Sem dúvida. O que temos são movimentos truculentos e ignorantes, como este MBL, que está mais para ex-ator pornô do que para um mínimo de pensamento crítico e humanista. Eles não têm formação filosófica e cultural nenhuma, são a expressão deste governo, deste ministério indiciado. Inviabilizam qualquer diálogo porque não têm argumentos para tentar entender historicamente o país. Atuam com jargões agressivos e intimidação, quando não com agressões físicas. Infelizmente, não temos um debate público de alto nível, temos aventureiros que querem tomar o poder. Não vejo muita saída — não é uma visão pessimista, é uma leitura da História.

Como assim?
É impressionante, estão querendo censurar exposições de arte como no século 19. Até escrevi uma crônica sobre esse moralismo hipócrita. Quando Madame Bovary (romance do escritor francês Gustave Flaubert) foi censurado, o procurador-geral do imperador Napoleão 3º usou argumentos exatamente iguais aos que estão usando hoje: "Isso aí fere a moral pública, fere a nossa religiosidade"… Mas estamos falando do século 19! Se eu contar para um americano, um europeu, que não posso levar meu filho de 14 anos para uma exposição sobre a história da sexualidade, eles vão rir na minha cara.

Os artistas deveriam se posicionar com mais vigor?
Houve uma manifestação com mais de 30 mil pessoas em São Paulo (em 10 de dezembro). Houve um abaixo-assinado de artistas também, quando censuraram exposições em Porto Alegre e São Paulo. Agora, alguns têm mais voz, um Caetano Veloso tem muito mais visibilidade do que um escritor. As pessoas estão muito indignadas. Mas falta uma liderança também — depois de tudo o que aconteceu com o PT, não há mais lideranças de esquerda. Quando essa repressão começa a virar uma coisa assídua, cotidiana, tanto a polícia quanto o poder se sentem muito à vontade para fazer o que bem entenderem. Então eu comparei (na crônica) com grupos neonazistas na Alemanha, porque isso pode ir longe demais. Começa assim: com grupos que censuram a arte, aí vão censurar a imprensa, a nossa conversa, entendeu? Aí assume uma proporção que pode se tornar irreversível e, de fato, tornar-se um estado de exceção pleno.

Por que as pessoas pararam de ir às ruas depois que Dilma caiu, foi para não apoiar o PT?
Não entendo essa lógica. Ora, ou você é contra a corrupção ou você não é. Ou você é a favor da ética na política ou você não é. O silêncio é cúmplice do que está acontecendo. O silêncio, a retração, as meias palavras, o cochicho… Não, você tem que se manifestar! Se eu for de esquerda, vou aceitar o que aconteceu com parte da cúpula do PT? Claro que não! Condenei a Copa do Mundo no Brasil antes das manifestações de 2013. Porque eu sabia que seria uma corrupção, estes estádios inoperantes. Dei como exemplo minha cidade, Manaus, onde metade é favela e construíram uma arena de R$ 800 milhões inútil, lá não tem tradição no futebol. Não precisávamos de estádios, e sim de investimentos em estrutura urbana, em habitação digna, em tantas coisas. Foi desastrosa a Copa, foi desastrosa a Olimpíada. A gente não precisava disso. Tenho absoluta certeza de que foi uma jogada infeliz, uma isca para a corrupção.

Essa polaridade no país, com tantas posições extremadas, também não faz cair por terra o mito do "brasileiro cordial"?
Cordialidade nunca houve neste país. Acho que quando Sérgio Buarque (de Holanda, escritor e historiador, autor de Raízes do Brasil) fala no brasileiro cordial, ele está se referindo a uma estratégia de dominação.

Cordial, neste caso, seria sinônimo de servil?
É uma cordialidade para se dominar o outro, o subalterno. Não é o nosso ethos, nosso temperamento não é cordial, nunca foi. A informalidade, sim, é um traço forte do povo brasileiro. Não somos formais nas relações sociais, no dia a dia. Não temos a formalidade que tem um europeu, por exemplo, ou até mesmo um argentino. Somos uma sociedade que viveu 300 anos de escravidão, não há cordialidade possível nessa história. Isso não estava exteriorizado de uma forma tão ampla antes das redes sociais, mas sempre existiu. Quantos anos de democracia plena tivemos desde o início da República (1889)? Poucos, muito poucos. E não podemos esquecer que a nossa República foi inaugurada com o genocídio de Canudos (guerra entre o Exército e os caboclos liderados por Antonio Conselheiro, de 1896 a 1897). Então que cordialidade é essa?

Por que alguém vira escritor em um país com baixos índices de leitura como o Brasil?
Acho que quem escreve não poderia fazer outra coisa a não ser escrever. A escrita nasce de um desejo profundo, de uma paixão mesmo. Me formei em Arquitetura na USP e lembro que meus pais lamentaram muito a minha mudança de profissão, eles achavam que eu ia ter uma carreira promissora como arquiteto. Minha mãe dizia: "Mas foi tão difícil entrar na faculdade, como é que você vai jogar fora?" Mas eu não joguei fora, eu fui envolvido pela literatura.

O senhor se espelhava em algum escritor?
Sempre tive uma grande admiração pelo Graciliano Ramos e alguns poetas. Por exemplo, eu imitava muito o João Cabral de Melo Neto. Comecei como poeta, escrevi alguns poemas que foram publicados em um livro chamado Amazonas – Palavras e Imagens de um Rio entre Ruínas, em 1978.

E ainda escreve poemas?
Sim, para consumo próprio. Só eu e meus dois gatos lemos (risos).

O que está lendo agora?
Acabei de ler O Rio da Consciência, do Oliver Sacks, que é um livro belíssimo, de ensaios. De romance, reli Lucien Leuwen, do Stendhal, que acho tão importante quanto O Vermelho e O Negro. Leio praticamente toda semana alguns poemas do Drummond, do João Cabral, dos meus poetas preferidos. Mas não dá para ler muito porque não tenho tempo.

O senhor disse que "a literatura perdeu importância porque foi sequestrada por outras linguagens.". Por quê?
A literatura tinha uma presença muito forte, a cultura da palavra era muito apreciada, mesmo depois que surgiu a televisão. Com a internet, as redes sociais, os jogos eletrônicos, a literatura não tem mais tanta importância para a sociedade. Ela tem uma importância fundamental para a nossa formação intelectual e espiritual, eu acho. Mas não tem mais a influência que tinha antes e também foi, digamos, oprimida por várias mídias e por uma coisa que é fundamental para a literatura: o tempo. Para você ler Guerra e Paz ou Grande Sertão: Veredas, precisa de tempo. E as pessoas passam uma parte do tempo, quando elas têm, no celular, na internet. As pessoas estão sempre lendo, mas nunca literatura. Houve um deslocamento das páginas de um bom livro para a banalidade da tela, a força da imagem é enorme. E houve também uma mudança na nossa formação. Aí volto à escolaridade, à educação. A nossa formação humanista esmaeceu, definhou.

O destino da literatura é se restringir a um nicho?
Em parte, acho que sim, mas depende muito do país. Na Alemanha, na França, a boa literatura tem um público enorme. Há edições de clássicos franceses de 50 mil, 100 mil exemplares. Lá, a banalidade convive com uma literatura sofisticada. Mas não posso reclamar. Por alguma razão misteriosa, meus livros alcançaram um público muito grande. Talvez eu comece a desconfiar da qualidade deles (risos).

O senhor lê seus livros depois de publicados?
Nunca. Para escrever eu já faço várias versões, mais de 10.

Escrever é sofrer?
Não é tanto… Os escritores não sofrem mais do que qualquer outra pessoa em outra atividade. Será que eu sofro mais do que a faxineira do meu prédio? Quando armo o romance que quero escrever — e isso demora muito —, pego a lapiseira, papel e desenho primeiro o que quero fazer. Claro, há um cansaço físico, mental. Levei 10 anos para escrever esta trilogia e estou pensando nisso desde a década de 1970. Estou trabalhando no segundo volume para publicá-lo em 2018 e há muita coisa ainda para reler, para acrescentar. Todo ser humano se angustia, rico, pobre, artista, não artista. Não gosto de sacralizar a atividade de escritor. Para ser sincero, meu tempo é mais dedicado à leitura do que à escrita.

 

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