Jura Arruda: "É a obra de Van Gogh expurgo de seus traumas?" - Cultura e Variedades - A Notícia

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Crônica03/11/2017 | 06h36Atualizada em 03/11/2017 | 20h38

Jura Arruda: "É a obra de Van Gogh expurgo de seus traumas?"

Na crônica "A arte como doença crônica", escritor reflete sobre como pesquisadores se utilizam do legado de artistas como Van Gogh para tentar decifrar sua psique

Jura Arruda: "É a obra de Van Gogh expurgo de seus traumas?" Divulgação/RBS TV
Artista Van Gogh Foto: Divulgação / RBS TV

 Andei lendo "Vida e obra de Vincent Van Gogh" de Janice Anderson. Considero um tanto assustador pensar que através da obra de um artista, pesquisadores e estudantes identifiquem sua psique, suas manias e anseios. No texto sobre a tela "Campo de Trigo com Ciprestes" (1889) diz-se o seguinte: "Este quadro foi pintado durante o verão, em St-Rémy-de-Provence, enquanto Van Gogh se recuperava do primeiro ataque de loucura, e a tensão do artista se revela na turbulência das nuvens e do céu".

Trata-se mesmo de tensão? É a obra de Van Gogh expurgo de seus traumas? Ou será que no dia que ele pintou este quadro estava prestes a cair uma tempestade e ele traduziu o céu exatamente como via? Ou talvez ele tenha dado pinceladas rápidas só porque queria chegar em casa antes da tempestade, fazer um chá e tomar diante da lareira, ao som das trovoadas?

Larguemos as telas e a vida de Van Gogh. Tomemos a pena e as letras. Costumo dizer, e gosto de pensar assim, que um dos prazeres de escrever é poder brincar de Deus, no sentido menos litúrgico que possa haver, criar uma personagem e colocá-la nas situações que bem entender, salvá-la, puni-la, dar-lhe riqueza ou desventura, manipulá-la para servir aos desejos de outra personagem ou dar-lhe poder absoluto. Faço isso e é possível que venha um acadêmico dizer que o egocentrismo e a megalomania fazem parte da personalidade deste escritor. Quiçá eu diga que crio com mais facilidade nos momentos de tristeza e paixão e dirão que tenho personalidade depressiva; se o contrário, sou Poliana criando um mundo paralelo cor-de-rosa? Escrevo sobre conflitos internos e morte e serei diagnosticado com impulsos suicidas.

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Sim, estou exagerando. É uma forma de pôr foco nessa tendência de descobrir-se o humano por trás da arte. É quase cômico ver analistas tentando desvendar as mensagens subliminares do que pode ser apenas literal. Dissecar artista e obra para entender o que não foi dito.

Certa vez, palestrava em uma escola do ensino fundamental sobre meu primeiro livro “Fritz, um sapo nas terras do príncipe” e um aluno me perguntou qual a moral que eu quis dar para a história. Devolvi perguntando que moral ele achava que ela tinha. Ele respondeu algo que não me lembro. Encerrei o assunto dizendo: “se esta é a moral que você encontrou, é ela mesma que é. O que eu quis dizer está escrito, o resto é por sua conta”. Acrescento agora que não é preciso ter moral ou entrelinhas, pode ser apenas uma história. Acrescento também que nem sempre se poderá definir o perfil psicológico do escritor ou suas angústias e alegrias por meio de sua obra. Um livro pode conter apenas a história que conta, e um quadro pode conter apenas o que nele se vê. 

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